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Considerando-se o conceito de Saúde proposto pela Organização Mundial da Saúde – OMS, enquanto um processo de completo bem–estar físico, emocional e social, é necessário ofertar um cuidado integral de saúde levando-se em conta os mais diversos condicionantes sociais que afetam a população e impactam no cuidado em saúde e seus tratamentos. Na Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, apresenta-se a relação de saúde e doença intimamente relacionada com fatores sociais, econômicos, culturais e históricos. Logo, podemos considerar que a violência de gênero, expressa frequentemente na violência doméstica é um fator que atinge diretamente a saúde física e mental de mulheres e crianças ocasionando problemas de desenvolvimento cognitivo, depressão, ansiedade, entre outros. Com o contexto da pandemia, as pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade tiveram essas vivências acentuadas e o isolamento social colaborou para o aumento dos casos de violência doméstica. O poder público não consegue assistir as mulheres de maneira adequada para que abandonem a situação de violência, mas é necessário fortalece-las para que consigam buscar seus direitos e proteção dentro do que as instituições podem ofertar.
– Objetivo Geral: Prevenção da violência doméstica e promoção de Saúde Mental de mulheres. – Objetivos Específicos: Informar mulheres sobre os tipos de violência (física, verbal, psicológica, patrimonial e sexual) das quais podem ser vítimas, os seus direitos e serviços de proteção disponíveis para que saiam da situação de violência; fortalecer a autoestima; estabelecer vínculos comunitários e redes de apoio; ofertar espaço de escuta e acolhimento; possibilitar a ampliação da capacidade crítica e reflexiva; encaminhar para os serviços que necessitar; propiciar momentos de autocuidado e lazer. Bem como, trazer luz às reflexões a cerca das violências de gênero que são diariamente reforçadas na nossa sociedade, buscando uma mudança no paradigma social que nos subjetiva, violenta e perpetua os ciclos de violências.
Tendo iniciado no ano de 2022 a presente proposta, utilizamos como metodologia rodas de conversas quinzenais, com mulheres em situação de vulnerabilidade, realizadas no espaço da biblioteca localizada no Centro de Esportes Unificados-CEU, que fica próximo à unidade de saúde da família de referência. Em cada encontro laçávamos disparadores que possibilitavam o início das conversas, a partir de desenhos, músicas, vídeos, entre outras ferramentas, que permitissem a expressão dos sentimentos e emoções e a busca pela reflexão acerca de suas realidades. Essas mulheres eram convidadas pelas agentes comunitárias de saúde, que conheciam de perto suas vivências devido ao trabalho junto à comunidade. Logo, por terem vínculo com esses profissionais, que também participavam das rodas de conversa, as mulheres aderiam à proposta e se sentiram confortáveis em partilhar suas vivências. No ano de 2023 os encontros foram realizados mensalmente no anfiteatro do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS 4, também localizado nas proximidades da unidade de estratégia de saúde da família de referência, pois tínhamos uma estrutura de multimídia para assistir à filmes e séries, como por exemplo MAID, que aborda a temática da violência doméstica. Todos os encontros foram mediados pela psicóloga de referência do território, com apoio das agentes comunitárias e em alguns momentos da assistente social técnica do CRAS 4.
No decorrer desses 2 anos de realização do grupo “PAPO COM ELAS: SAÚDE MENTAL, FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA” percebemos o fortalecimento de vínculos comunitários entres as usuárias que demonstravam empatia e acolhimento umas às outras nos momentos das rodas de conversas e fora do espaço do grupo, quando se encontravam e trocavam palavras de incentivo. Bem como, um fortalecimento dos vínculos entre as usuárias e as trabalhadoras do serviço, possibilitando assim um maior acesso aos cuidados de saúde da população e a outros serviços como aqueles ofertados pelo CRAS e mesmo pela Secretaria de Cultura, visto que algumas mulheres iniciaram a participação em outras atividades ofertadas pelo município. Durante as rodas de conversas, na medida em que as vivências iam sendo relatadas no grupo e as reflexões sobre as realidades daquelas mulheres iam sendo possíveis, havia também veiculação de informações importantes como os serviços de proteção às mulheres vítimas de violência, orientações sobre a lei Maria da Penha, reflexões sobre os ciclos de violências e os impactos do mesmo no desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes. Percebemos também um aumento da autoestima das mulheres e o desenvolvimento do sentimento de segurança, tendo algumas conseguido sair da situação de violência em que se encontrava, enquanto outras conseguiram fazer enfrentamentos importantes e começar a trabalhar, por exemplo.
Concluímos que o trabalho desenvolvido com mulheres vítimas de violência, não tem somente o objetivo de prevenir a violência doméstica, mas também a mudar o atual contexto em que se encontram, sendo este um trabalho árduo, denso e que apresenta grandes dificuldades. Uma das dificuldades é que, por sermos mulheres, as violências de gênero nos atravessam cotidianamente, afetando nossa saúde mental. E por estarmos neste lugar de mediação, como trabalhadoras, acreditamos que o trabalho desenvolvido por mulheres para as mulheres se mostrou muito potente. Quebrar os ciclos de violências, muitas vezes reproduzido por diversas gerações é um desafio. Mas percebemos que investir em espaços de acolhimento, escuta e possibilidade de reflexão para construção autônoma de uma nova perspectiva é o caminho, apesar dos desafios. Ainda há muito o que avançar, inclusive no desenvolvimento das Políticas Públicas de Proteção à Mulher, mas um avanço que comemoramos no ano de 2023 foi a implantação no município da Casa de Acolhimento para Mulheres Vítimas de Violência. Seguimos nas nossas atuações buscando diariamente romper com essa estrutura que nos violenta e nos mata.
Mulheres; violência doméstica; promoção de saúde.
Jessica Franco Ferreira, Luana de Oliveira Gomes, Aline Franchini Izidoro de Almeida, Micheli Aparecida de Campos Quirino, Danielly Antunes Garcia