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O Centro Pop é uma unidade pública que oferece o Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, vinculada à Secretaria de Assistência Social. É um espaço de referência para o convívio social e o desenvolvimento de relações de solidariedade, afetividade e respeito, funcionando como ponto de apoio para aqueles que moram e/ou sobrevivem nas ruas, tendo como um de seus objetivos promover o acesso a espaços de guarda de pertences, de higiene pessoal, de alimentação e provisão de documentação (PNPS, 2009). A equipe de Consultório na Rua, voltada ao atendimento do mesmo público, é uma estratégia da Atenção Básica no Sistema Único de Saúde (SUS), que tem como finalidade promover o cuidado às pessoas em situação de rua, sendo o serviço de referência sanitária para esta população. Através de ações que permitam a construção do vínculo de confiança, os profissionais promovem cuidado e assistência de saúde às demandas dos usuários (PNAB, 2011). Através de uma reunião com foco em articular a saúde e os equipamentos de assistência social, o Centro POP relatou demandas e a equipe organizou intervenções de promoção de saúde. Foi desenvolvido o conjunto de três grupos abertos, chamado “PAPO POP”, feitos pela equipe do Consultório na Rua para os usuários do Centro POP.
Relatar a experiência de desenvolver grupos abertos com pessoas em situação de rua em um equipamento da Assistência Social
Foram realizados 3 encontros, no refeitório do Centro POP, com média de 15 participantes por grupo, duração de 1 hora. Participaram 6 profissionais da equipe de Consultório na Rua que tinham funções de coordenação, co-coordenação e apoio ao grupo, determinadas previamente em reuniões de planejamento do grupo, que eram registradas em formulário específico. Foi realizado o primeiro encontro com o tema “O que levar das andanças da vida”, em que foi abordada a transição da saída de casa para a rua, as memórias e experiências anteriores. Foram levantados temas para outros encontros. O segundo foi intitulado “O que me alivia das dores da vida” com a temática das recaídas do uso de substâncias psicoativas, obstáculos da rua e recursos utilizados/identificados e o terceiro “Uma longa caminhada começa com o primeiro passo”, onde foi estimulado o diálogo sobre projetos de vida possíveis e sonhos. Os 3 encontros seguiram uma sequência de momentos de apresentação inicial com a pactuação com os usuários, aquecimento (rápida introdução utilizando, de atividade expressiva), abordagem do tema (tema principal do encontro) e o encerramento (avaliação do grupo, identificação de novos temas de interesse e entrega de mimos). As estratégias utilizadas foram: atividades interativas, música, teatro, mapa corporal, atividades gráficas, boneco e conversas como recurso de expressão e reflexão.
No primeiro encontro foi possível resgatar outros papeis para além do “craqueiro”, tais como pais, filhos, primos, maridos. Das necessidades básicas, surgiram memórias familiares e da infância (de peças de roupas, lembraram da mãe, por exemplo), trazendo possibilidade de sentirem-se sujeitos pertencentes a uma família, humanizando-os e superando a condição de invisibilidade característica dessa população. No segundo encontro, o uso do boneco (Florisvaldo) e do teatro/contação de história foram utilizados para proporcionar identificações importantes para a expressão de suas próprias histórias: um deles verbalizou que “O Florisvaldo sou eu”. Na atividade de “melhorar o Florisvaldo”, foram entregues curativos, como metáfora, para que eles especificassem o que usam para “curar-se” das dores da vida. A partir do material coletado, a equipe de saúde otimizou e complementou seus conhecimentos prévios, identificando formas de substituir hábitos nocivos por protetivos. No terceiro e último encontro, a equipe utilizou o teatro e desenhos no chão para pensar em projeto de vida a curto prazo, como a busca por emprego, tentativas, entraves e soluções. Foi possível apresentar equipamentos de saúde e assistência social durante a realização do teatro, ouvir os usuários sobre seus sonhos e adaptar os sonhos aos projetos de vida, passo a passo. Em conjunto, foram levantados recursos disponíveis, ao longo do caminho, nos momentos de dificuldades concretas e subjetivas.
A equipe considerou os grupos como uma ação bem sucedida e que, no geral, os objetivos foram atingidos. Percebeu-se que planejar grupos abertos foi adequado para as características dessa população, pois houve certa rotatividade de participantes. A escuta dos usuários demonstrou que eles conhecem muitos equipamentos e recursos, o que foi usado como ponto de partida para que a equipe complemente e otimize, sem ignorar o que eles já sabiam. Alguns usuários preferiram o atendimento individual disponibilizado para os que não quiseram participar dos grupos. Ao contrário do modelo de palestra ou aula, onde as equipes “ensinam” os usuários unilateralmente, considerá-los protagonistas na construção dos temas e conteúdos durante as atividades foi bem aceito e proporcionou maior e melhor participação dos usuários, legitimando suas condições de humanos, com fraquezas e potências.
Redução de danos, roda de conversa, pessoa/rua
TATIANA MARIA COELHO VELOSO, ADRIANA CRUZ DE LIMA, JULIANA CRISTINA DIAS, MARIA MENEZES FERREIRA, NAAYNE AMORIM