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O envelhecimento da população vivendo com HIV é uma conquista da terapia antirretroviral (TARV), mas a adesão rigorosa é o único caminho para essa realidade. Este relato descreve a intervenção iniciada em janeiro de 2024 no Centro de Referência em Saúde (CRS) de Mauá-SP, unidade estratégica para o tratamento de IST/Aids e hepatites virais. O caso clínico focou em uma paciente de 33 anos, diagnosticada na infância (2003), apresentando quadro crítico de Aids (Fase 4), com CD4 de 31 células/mm³ e carga viral de 237.000 cópias. O quadro era agravado pelo luto decorrente da perda do companheiro, vulnerabilidade social e histórico de tratamento irregular por duas décadas. A justificativa reside na urgência de resgatar a autonomia da paciente através do Cuidado Farmacêutico, indo além da simples entrega do medicamento. A intervenção é vital para o SUS, pois demonstra como o farmacêutico, em conjunto com uma equipe multidisciplinar engajada, pode reverter falhas terapêuticas graves ao transformar a consulta em um espaço de acolhimento e educação em saúde. O foco não é apenas a supressão viral, mas a garantia de que a paciente tenha o suporte necessário para enfrentar barreiras subjetivas, reafirmando o compromisso do SUS com a dignidade da vida e a equidade no cuidado à população vulnerável.
Objetivo Geral: Consolidar o acompanhamento farmacoterapêutico especializado para promover a adesão ao tratamento antirretroviral e profilático, visando à estabilização clínica e à reintegração social da paciente no CRS Mauá. Objetivos Específicos: • Parâmetros Clínicos: Alcançar a supressão da carga viral (inferior a 50 cópias/ml) e a recuperação imunológica (CD4 acima de 350 células/mm³) por meio do monitoramento contínuo. • Manejo de Barreiras: Desenvolver estratégias de administração para minimizar queixas de náuseas e dificuldades de deglutição, adaptando a rotina à realidade da paciente. • Educação em Saúde: Promover o conhecimento sobre a evolução do HIV/Aids, fortalecendo a compreensão sobre o processo saúde-doença. • Cuidado Intersetorial: Articular o suporte da rede socioassistencial e psicológica para reduzir o impacto da vulnerabilidade social e do luto no abandono do tratamento.
A intervenção, iniciada em janeiro de 2024 no CRS Mauá-SP, utilizou triagem baseada no histórico de baixa adesão à TARV, com dados dos sistemas SICLOM e SISCEL. O monitoramento identificou a criticidade da paciente (CD4=31 cél/mm³), que aceitou a oferta de consultas farmacêuticas após a apresentação da proposta de acompanhamento. As consultas adotaram o método SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano), estruturadas em: recepção, acolhimento, coleta de dados, identificação de problemas e investigação de queixas e adesão. O cuidado farmacêutico focou no manejo de barreiras específicas, como náuseas e dificuldades de deglutição — relatadas como os principais motivos da baixa adesão —, visando à supressão viral e recuperação imunológica. As intervenções foram pactuadas e registradas em prontuário físico compartilhado com a equipe multidisciplinar, garantindo a integralidade da atenção. O acompanhamento ocorreu por consultas periódicas, com avaliações a cada encontro e agendamentos subsequentes realizados imediatamente, assegurando o vínculo e o resgate da autonomia frente à vulnerabilidade social e clínica. A estratégia priorizou a escuta ativa e a simplificação do entendimento posológico, transformando a relação da paciente com a medicação e fortalecendo sua confiança no serviço de saúde pública como ferramenta de transformação de sua própria realidade clínica.
A intervenção resultou na retomada imediata do tratamento e adesão rigorosa. A evolução laboratorial reflete o sucesso: em 12/2023 (CV: 237.000; CD4: 31), evoluindo para carga viral indetectável em 01/2025, mantendo-a sustentada até 01/2026 (CV < limite mínimo; CD4: 225 cél/mm³). Clinicamente, houve remissão total de infecções fúngicas orais e estabilização de lesões cutâneas. A paciente mantém acompanhamento dermatológico para tratar manchas residuais e onicomicose, demonstrando autocuidado ativo. O fortalecimento do vínculo com o CRS Mauá permitiu a recuperação da dignidade e autoestima, culminando em sua reintegração social e retorno ao mercado de trabalho. Estes resultados corroboram o título Para envelhecer, é preciso viver, pois demonstram que o cuidado farmacêutico humanizado transmutou um quadro de terminalidade em perspectiva de longevidade. Ao controlar a carga viral e resgatar a autonomia, o SUS não apenas tratou uma patologia, mas garantiu o direito de projetar o futuro, provando que a supressão viral é o meio, mas a vida plena é o principal objetivo da assistência. A paciente, antes em situação de extrema fragilidade, hoje é protagonista de seu tratamento, apresentando estabilidade clínica e social, o que valida a importância da inserção do farmacêutico clínico nas unidades de referência em IST/Aids para a garantia do sucesso terapêutico.
O caso relatado testemunha a potência do cuidado farmacêutico como exercício de empatia. O resgate de uma paciente que viveu duas décadas à margem da adesão demonstra que o sucesso clínico — indetectabilidade viral e recuperação imunológica — é inseparável do suporte psicossocial e da escuta qualificada. Ao superar barreiras físicas e emocionais, a intervenção no CRS Mauá-SP provou que a farmácia clínica atua na reconstrução da autonomia, indo além da dispensação. Os resultados alcançados transformam a terminalidade em projeto de futuro. A expectativa é que este acompanhamento se mantenha perene, permitindo que a paciente envelheça com a qualidade de vida. Este relato reforça a importância da equipe multidisciplinar e do protagonismo do farmacêutico na consolidação do SUS como um sistema que preserva a dignidade humana. Para que o envelhecimento da população com HIV seja uma realidade, é preciso garantir que cada paciente tenha, hoje, o suporte necessário para viver. A experiência reafirma que a humanização do cuidado é a ferramenta mais eficaz para reverter históricos de abandono e garantir o direito à saúde.
Envelhecer, adesão, reintegração social
DINALVO PINA FERREIRA FILHO