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O adiamento da maternidade tem se intensificado nas últimas décadas, influenciado por transformações sociais, econômicas e culturais bem como o avanço das tecnologias de reprodução assistida, que favorecem a busca por estabilidade financeira e realização pessoal e profissional antes da gravidez. No entanto, a gestação após os 35 anos está associada a desafios médicos, como redução da fertilidade e maior risco de complicações obstétricas e neonatais, exigindo planejamento e acompanhamento especializado. Este estudo teve como objetivo descrever as características das parturientes com 35 anos ou mais residentes no Município de São Paulo e comparar os perfis de atendimento entre estabelecimentos públicos e privados.
Estudo observacional com dados do SINASC de parturientes residentes no Município de São Paulo entre 2012 e 2024, comparando nascimentos ocorridos em estabelecimentos do SUS e privados entre mulheres com 35 anos ou mais.
Trata-se de um estudo observacional, utilizando dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), de parturientes residentes no Município de São Paulo no período de 2012 a 2024. Considerou-se cada parturiente a partir da Declaração de Nascido Vivo (DNV). Para análise utilizou-se o software Stata. Os estabelecimentos foram categorizados em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) e não SUS (privados). As variáveis analisadas incluíram idade materna, raça/cor, estado civil, escolaridade (superior e não superior), paridade (nulípara), tipo de parto, peso ao nascer, idade gestacional, sexo do recém-nascido, índice de Apgar no quinto minuto e presença de anomalias congênitas. Inicialmente, foi realizada a análise estatística descritiva com a caracterização das parturientes com 35 anos ou mais, seguida da comparação entre os nascimentos ocorridos em estabelecimentos públicos e privados. As variáveis categóricas foram avaliadas pelo teste do qui-quadrado de Pearson. No modelo final de regressão logística, permaneceram apenas as variáveis com valor de p inferior a 0,05. As associações foram expressas por Odds Ratio (OR).
Entre 2012 e 2024, a idade das parturientes variou de 35 a 62 anos. Observou-se aumento da idade materna média, de 27,5 anos em 2012 para 29,1 anos em 2024. A proporção de parturientes com 35 anos ou mais aumentou de 16,2% em 2012 para 24,3% em 2024. Entre as parturientes com 35 anos ou mais, verificou-se maior proporção de parturientes pretas ou pardas no SUS (66,5%) em comparação aos estabelecimentos privados (26,5%). A ausência de companheiro foi mais frequente no SUS (41,6%) do que no setor privado (22,7%). A escolaridade até o ensino médio predominou no SUS (82,2%), enquanto no setor privado foi de 26,6%. A presença de gestação anteriores foi maior no SUS (84,6%) em relação ao privado (58,4%). O parto vaginal ocorreu em 48,5% dos nascimentos no SUS e em 14,0% nos estabelecimentos privados. Quanto às características dos recém-nascidos, a proporção de idade gestacional inadequada (36 semanas ou menos) foi semelhante entre os grupos (12,6% no SUS e 13,4% no privado). O sexo masculino correspondeu a aproximadamente 51% dos nascimentos em ambos os grupos. Apgar no quinto minuto inferior a sete foi observado em 1,3% dos nascimentos no SUS e em 0,71% no setor privado. A presença de anomalias congênitas foi de 2,9% no SUS e 2,3% nos estabelecimentos privados. A regressão logística multivariada incluiu 413.870 nascimentos e apresentou ajuste global estatisticamente significativo (LR χ² = 183.200,23; p < 0,001)., com pseudo R² de 0,3246.
Os resultados evidenciam o deslocamento progressivo da maternidade para idades mais avançadas, impondo desafios à organização da assistência obstétrica. A regressão logística multivariada incluiu 413.870 nascimentos e apresentou ajuste global estatisticamente significativo (LR χ² = 183.200,23; p < 0,001). Estiveram associados ao atendimento em estabelecimentos do SUS: menor escolaridade materna (OR = 7,03; IC95%: 6,91–7,15), raça/cor preta ou parda (OR = 2,79; IC95%: 2,75–2,84), parto vaginal (OR = 3,65; IC95%: 3,58–3,71), presença de gestações anteriores (OR = 1,78; IC95%: 1,75–1,81) e ausência de companheiro (OR = 1,55; IC95%: 1,52–1,57). Entre as características do recém-nascido, Apgar no quinto minuto inferior a sete (OR = 1,37; IC95%: 1,26–1,48) e anomalias congênitas (OR = 1,39; IC95%: 1,33–1,46) também se associaram aos hospitais do SUS. O aumento da proporção de parturientes com 35 anos ou mais no Município de São Paulo demanda atenção das políticas públicas, reforçando a importância do planejamento reprodutivo e do fortalecimento da assistência obstétrica no SUS.
Parturientes
MIRELLA NACAGAMI KANASHIRO, LIGIA MEIKO YAMAGUTI TAKAHASHI, VERONICA RODRIGUES TEIXEIRA, JULIA LEAL BUENO, IRACEMA ESTER DO NASCIMENTO CASTRO, MIRNA NAMIE OKAMURA