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As elevadas prevalências de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), em decorrência do processo de transição epidemiológica e nutricional no Brasil, constituem um desafio para as políticas públicas, por demandarem ações de cuidado integral e contínuo que envolvem mudanças no estilo de vida. Observa-se atualmente que os hábitos alimentares da população em geral estão inadequados e, considerar que hábitos alimentares precisam ser alterados é um grande desafio para os serviços de saúde e para a educação em nutrição, já que esses são resultados de relações sociais e históricas, onde as intervenções educativas precisam superar suas raízes biomédicas, partindo de um conhecimento científico para a construção de um novo conhecimento em que todos participem. Em função da relevância que a educação nutricional tem na promoção da saúde para a prevenção e controle de DCNT e do seu destaque como atribuição do profissional nutricionista, pensou-se em verificar a efetividade do acompanhamento nutricional de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), pois considera-se que as intervenções desenvolvidas por esse profissional nesse âmbito, não têm acontecido de forma sistematizada e os conhecimentos não têm sido divulgados. Para isso, este trabalho realizou um estudo em um ambulatório de nutrição de um Hospital Dia no município de São Paulo, utilizando dados secundários de 631 pacientes que receberam atendimento nutricional no período de março de 2022 a março de 2023.
Avaliar a influência do tratamento nutricional nos perfis lipídico, glicídico e nutricional de pessoas com DCNT atendidas em um ambulatório de nutrição.
Trata-se de um estudo transversal. A amostra foi selecionada através de dados dos atendimentos realizados em um ambulatório de nutrição de um Hospital Dia no município de São Paulo, onde são atendidos usuários que apresentam, em sua maioria, DCNT. Foram analisados dados de 631 pacientes, de ambos os sexos, que receberam atendimento nutricional no período de março de 2022 a março de 2023. Do total, 188 atendiam aos critérios de inclusão do estudo: idade acima de 18 anos, comparecimento, no mínimo, a duas consultas nutricionais, com intervalo inferior a seis meses. Entre os critérios de exclusão estavam: não apresentar exame laboratorial antes e após intervenção nutricional em um período máximo de doze meses, dados antropométricos e/ou de consumo alimentar insuficientes. Avaliaram-se variáveis antropométricas (peso, altura, Índice de Massa Corporal – IMC), de consumo alimentar (fracionamento das refeições, ingestão hídrica, ingestão de frutas e hortaliças), atividade física e variáveis bioquímicas (perfil lipídico e glicídico), antes e após aconselhamento nutricional. A análise dos dados foi realizada em planilha do tipo Excel®. Variáveis contínuas foram descritas como média e desvio-padrão, e as categóricas como números absolutos e proporções. Empregou-se a estatística de t de Student pareado para comparação das variáveis numéricas antes e após intervenção nutricional, com nível de significância α igual a 5%.
Dos 188 pacientes analisados, 50,5% eram adultos (48,2 anos+9,4 anos) e 49,4% idosos (67,5 anos+5,9). Do total, 75% era do sexo feminino e 25% do sexo masculino. No que se refere às doenças associadas mais prevalentes, 86,7% possuíam dislipidemia, 73,9% obesidade, 62,7% hipertensão arterial sistêmica e 42,5% diabetes mellitus. Em relação ao estado nutricional, houve diminuição significante do peso médio (mulheres p=0,000 e homens p=0,010), refletindo significativamente no IMC médio (mulheres p=0,006 e homens p=0,000), após intervenção. Em relação ao fracionamento da dieta, os pacientes realizavam em média 3,5+0,8 refeições diárias, apresentando aumento significativo (p=0,000) para 4,4+0,9 refeições. Do total, 85,1% relataram aumento do consumo de frutas e 80,8% de hortaliças. Além disso, 62,2% apresentaram aumento da ingestão hídrica. Houve aumento da prevalência de atividade física passando de 30,3% para 42,5% durante o acompanhamento. Em relação às variáveis bioquímicas, observou-se redução significante dos valores de colesterol total entre mulheres e homens (p=0,006 e p=0,000; respectivamente), assim como dos valores de triglicerídeos em ambos os sexos (mulheres p=0,000 e homens p=0,052). Entre os homens, houve uma diminuição (p=0,000) dos níveis de lipoproteína de baixa densidade. No que se refere ao perfil glicídico, em ambos os sexos, houve redução na glicemia de jejum (mulheres p=0,034 e homens p=0,024) e hemoglobina glicada (mulheres p=0,000 e homens p=0,004).
Os resultados sugerem impacto positivo da intervenção nutricional realizada na população estudada, reforçando a necessidade de pesquisas nos serviços de saúde para qualificar suas ações. De maneira geral, os pacientes analisados apresentaram algumas mudanças que refletiram no estado nutricional, apresentando redução estatisticamente significante das variáveis antropométricas e bioquímicas por sexo e por faixa etária, além da melhora das variáveis de consumo alimentar, como o aumento do fracionamento da dieta e da frequência da ingestão de frutas e hortaliças. Estudos apontam evidências de que o maior fracionamento da dieta e o consumo de fibras alimentares produzem efeitos benéficos na saúde, auxiliando no controle do perfil lipídico, do perfil glicídico e do peso corporal. Com base nessa perspectiva, fica evidente a importância da intervenção nutricional e do estímulo à prática de atividade física regular para melhora na qualidade de vida, sendo necessárias ações integradas e multidisciplinares que visem à promoção de saúde e à prevenção de agravos, pois para o alcance de uma atenção nutricional resolutiva e adequada, é essencial a cooperação de todos os profissionais de saúde que atuam na rede.
Perfil de Saúde, Ingestão de Alimentos
Kelly Cristina Araujo Estrela