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Cineclubes são espaços para discussão saudável e resistência, desenvolvimento de pensamento crítico e a aproximação entre os membros de uma mesma comunidade. A proposta, visa colaborar na construção de ambiente mais dinâmico e despojado aos usuários fazendo com que se sintam pertencentes, em que podem executar a escuta ativa como exercício de raciocínio e empatia, compartilhar de suas visões de mundo e expandi-las. A Constituição Federal de 1988, prevê a garantia do lazer e cultura como direitos sociais, criar espaços de convivência que viabilizem a inclusão e democratização do cinema se tornam não apenas necessários como uma ferramenta de trabalho na reabilitação psicossocial. O cinema é dotado de linguagens, o que possibilita ao espectador absorver e ser afetado e as possibilidades interpretativas de um filme podem ser múltiplas, criando atmosfera imersiva, trazendo outras formas de entendimento de dilemas pessoais, auxiliando a externalizar seu mundo interior. Pipocando Ideias busca ser alternativa para sentir, criar e fortalecer vínculos frente aos desafios vividos, através de reflexões individuais e coletivas a respeito dos temas abordados nas obras cinematográficas, enriquecendo vocabulários, que aliado às demais estratégias terapêuticas é espaço seguro para questões emocionais, seja gerada por meio do debate ou da catarse, em que a rede de apoio cria também um espaço motivacional para persistir na singularidade de cada cuidado em saúde mental.
O projeto de ação cineclubista Pipocando Ideias, tem como objetivo central promover espaço de convivência ampliada e qualificada aos usuários do CAPS Vila Vitória. Pretende-se criar um ambiente seguro e acolhedor, no qual as pessoas em acompanhamento possam reconhecer-se como sujeitos pertencentes ao território. Por meio da exibição de filmes e dos debates subsequentes, busca-se favorecer o desenvolvimento da elaboração argumentativa, a melhora da comunicação e o fortalecimento das relações sociais. A proposta visa, ainda, estimular processos de identificação, empatia e expressão subjetiva, possibilitando que os participantes ampliem seus repertórios culturais e compreendam novas perspectivas. Ao compartilhar ideias e vivências, há oportunidade de ser e sentir, fortalecendo protagonismos, autonomias e construindo caminhos de participação social mais ativa e integrada ao contexto comunitário.
A organização metodológica se dá a partir das etapas para a realização do CineCAPS VV. O primeiro momento diz respeito à curadoria de filmes, em que profissionais e usuários debatem e decidem as temáticas e títulos. O Projeto Pipocando Ideias, valorizou a escolha de filmes brasileiros que reforcem a sensação de pertencimento e cultura popular brasileira, a cada duas últimas sessões finais de cada mês foi aberta a votação para a programação do mês seguinte. Destaca-se como de extrema importância a valorização de artistas locais na exibição das obras, assim como a parceria realizada com a Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André e o Festival de Cinema de Paranapiacaba. Com a programação organizada, semanalmente, realizou-se a preparação do espaço físico para exibição, com o objetivo criar atmosfera propícia à imersão e experiência cinematográfica. Isto é, uso do projetor para ampliar o filme, ambiente escuro para melhor qualidade da exibição, distribuição de pipoca e lanches. Após as exibições, são realizadas com a mediação dos bate-papo pós filme com o objetivo de gerar a reflexão e avaliar os atravessamentos que a obra gerou na subjetividade de cada um. Também há discussão com as referências técnicas sobre os temas e como o cineclube têm impactado no processo terapêutico. Participam Diretores, Atores e Profissionais de cinema, referências na área.
Ao avaliarmos o desenvolvimento do CineCAPS VV, verificamos diversas contribuições positivas para os usuários que usufruíram do projeto. O primeiro aspecto à ser notado é o engajamento da comunidade na participação tanto do cinema quanto nas decisões sobre as temáticas e os títulos assistidos. Realizou-se o movimento de divulgação do CineCAPS nas assembleias semanais e durante as rodas de conversa na convivência e, com o próprio movimento dos usuários, consolidou-se a presença de até 20 usuários nas sessões. Em algumas assembleias também foram discutidos os possíveis filmes à serem assistidos, dialogando inclusive com os temas transversais trabalhados na unidade. Pode-se notar o êxito do projeto à partir das discussões que foram geradas nas sessões do cineclube. Um exemplo foi o debate sobre os povos originários à partir da exibição do filme “Xingu”, que mostrou aos usuários uma visão não estereotipada e potente de tal população. À partir da articulação de parcerias com artistas locais, foi possível proporcionar a potente experiência de exibições e debates junto aos diretores e diretoras de filmes. Notou-se, à partir das avaliações das referências técnicas, uma contribuição significativa do Pipocando Ideias ao Projeto Terapêutico Singular dos usuários do serviço.
O Pipocando Ideias demonstrou que o cinema, quando integrado a práticas terapêuticas, pode se tornar um potente catalisador de convivência, expressão e fortalecimento subjetivo. A articulação entre cultura, diálogo e cuidado em saúde mental permitiu aos usuários amplificar sua participação comunitária, construir vínculos significativos e revisitar suas próprias narrativas a partir das experiências cinematográficas. A proposta evidenciou que espaços de troca, escuta e imaginação contribuem para o desenvolvimento de autonomia, autoestima e senso de pertencimento, elementos essenciais no processo de reabilitação psicossocial. Ao promover debates, incentivar a expressão simbólica e valorizar produções culturais brasileiras e locais, o projeto reafirmou o papel transformador da arte como caminho de cuidado integral. Assim, o CineCAPS VV consolida-se como uma prática que amplia horizontes, favorece a elaboração emocional e fortalece trajetórias terapêuticas, reafirmando o cinema como instrumento acessível, democrático e profundamente humano no campo da saúde mental.
Arte, Reabilitação Psicossocial, Protagonismo
HENRIQUE FREITAS, BEATRIZ LUZIA DE CAMPOS MANOCCHI, PATRÍCIA ROMANO TOMÉ