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Este relato de experiência trata da forma de estabelecer o CAPS II de Osasco como um serviço portas abertas, conforme as diretrizes desta política pública. Um dos principais requisitos para efetivar o regime de portas abertas é o entendimento de que qualquer membro da equipe deve ser um terapeuta. Para assegurar que o equipamento CAPS esteja em regime de portas abertas”, tanto no sentido literal quanto no simbólico, é fundamental que seus processos de trabalho sejam estruturados de maneira a garantir esta diretriz, isso envolve a implementação de práticas de acolhimento humanizado, respeitando sua singularidade e contextos de vida, promovendo um ambiente seguro e empático para que as pessoas se sintam respeitadas e valorizadas. É imprescindível que a escuta seja qualificada, que vai além do ouvir a demanda e o sintoma, buscando compreender as necessidades, as experiências e os desejos do usuário, com atenção e sensibilidade. Tais práticas não apenas favorecem o vínculo de confiança entre o usuário e a equipe de saúde, mas também garantem que os cuidados oferecidos sejam eficazes, respeitando a singularidade de cada pessoa, promovendo um cuidado integral. Neste sentido, atuar em regime de demanda espontânea em um CAPS com abrangência territorial do município de Osasco, é um desafio que exige ações de transdisciplinaridade, promovendo uma compreensão mais abrangente do sofrimento psíquico e das necessidades dos usuários, garantindo um cuidado mais integrado e eficaz.
Evidenciar estratégias que garantam o regime de portas abertas do CAPS Osasco através da construção e efetivação de uma equipe transdisciplinar. Traçar estratégias que envolvam as relações entre os profissionais da equipe, as relações com os usuários e a formação contínua de todos os profissionais, visto que é uma clínica baseada na subjetividade humana e no sofrimento psíquico. Estimular outras equipes de saúde mental a promover a construção de um espaço de reflexão que ultrapasse as fronteiras disciplinares. Isso implica valorizar a pluralidade de perspectivas e a interação entre diferentes saberes, o que é fundamental para abordar as questões complexas e multifatoriais que envolvem a saúde mental. Demonstrar a importância das reuniões de equipe, juntamente com as discussões de caso, visando ações que contemplem uma clínica ampliada.
Trata-se de um relato de experiência que articula as questões de capacitação da equipe e a garantia da universalidade no cuidado à saúde mental. Como referência teórica, utiliza-se dos saberes de formação em saúde, atenção psicossocial e diretrizes do SUS, bem como as contribuições do Paradigma Psicossocial como ferramenta de atuação. Utilizamos como referência também os dados indicadores de atendimentos no serviço, sendo eles as escutas iniciais/ acolhimento inicial por demanda espontânea, bem como a inserção dos munícipes em tratamento no CAPS. Evidenciamos uma média de 300 atendimentos por mês de escuta inicial por demanda espontânea, sendo inseridos em tratamento no serviço cerca de 160 usuários, os demais foram referenciados para os serviços de saúde que melhor contemplavam o perfil do munícipe. Identificamos uma importante evolução no número de atendimentos a partir da construção deste processo de trabalho, sendo que anteriormente os pacientes acolhidos na unidade não passavam de 130 por mês, incluindo os referenciados para outros serviços. A partir destes dados foi possível perceber um impacto positivo sobre as ações realizadas no serviço, sendo realizada então uma observação detalhada das principais estratégias e fluxo de trabalho adotados e implementados para possibilitar o cumprimento do regime de “portas abertas”.
Como resultados há dois pontos principais: a escuta inicial de toda população que comparece ao CAPS, sejam já usuários do serviço ou não, e as reuniões de equipe, que envolve todos os profissionais que atuam no CAPS. A escuta inicial é feita por todos, independentemente da formação do profissional, todos estão capacitados para ouvir, reconhecer sinais e sintomas de risco em saúde mental, bem como estabelecimento de uma escuta qualificada. Esta ação, apresenta-se como uma ferramenta eficaz, uma vez que os profissionais podem sair de suas especificidades e agir de forma mais integrada com o resto da equipe, possibilitando atender em demanda espontânea a todos os usuários que procuram o serviço. O espaço de reunião da equipe permite uma ampliação no conhecimento, no manejo e no direcionamento dos casos atendidos no CAPS, favorecendo uma compreensão mais abrangente do processo saúde-doença. Além disso, contribui para garantir a integralidade no cuidado em saúde mental, assegurando que as diferentes perspectivas e abordagens sejam consideradas no atendimento aos usuários. Essa organização está construída através de plantão técnico de nível superior e de enfermagem, sendo que no período de funcionamento do serviço, há uma equipe destinada para dar escuta a qualquer munícipe, sendo referenciado para o serviço mais apropriado ou dando início ao tratamento. Além disso os pacientes em tratamento no CAPS podem buscar escuta e acolhimento em qualquer momento que sentirem necessidade.
São muitos os desafios para a construção de uma equipe transdisciplinar, que integre saberes e que se proponha a borrar as fronteiras do conhecimento. A ideia de transdisciplinaridade está profundamente vinculada à crítica das formas tradicionais de produção de conhecimento, que frequentemente fragmentam essa produção em disciplinas isoladas. Essa fragmentação dificulta a compreensão integral dos fenômenos complexos que marcam a existência humana e os desafios sociais contemporâneos. No campo da saúde mental, a transdisciplinaridade aparece como uma necessidade metodológica e epistemológica para superar modelos hegemônicos que reduzem o sofrimento psíquico a categorias biomédicas ou exclusivamente psicológicas. É pensada uma abordagem que integre dimensões biológicas, psicológicas, sociais, históricas e culturais, valorizando a interdisciplinaridade e as práticas concretas que emergem da interação entre diferentes saberes.
CAPS, Portas Abertas, Acolhimento, Humanização
ANDREIA LUZIO RAZIONALE, SILEINE REGINA PINHO