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No cuidado em saúde, voltado à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), é necessário reconhecer que a sexualidade também é um fenômeno social, atravessado por valores morais, normas culturais e desigualdades estruturais. Nessa perspectiva, as estratégias de prevenção às ISTs devem ser pensadas levando-se em consideração os determinantes sociais de saúde, que incluem fatores sociais, econômicos, ambientais e relacionados ao trabalho, os quais influenciam comportamentos, percepções de risco e o acesso aos serviços de saúde. Trabalhadores inseridos em contextos de maior vulnerabilidade social, como os catadores de materiais recicláveis, frequentemente vivenciam barreiras no acesso aos equipamentos públicos de saúde. Tais barreiras podem estar associadas tanto ao limitado conhecimentos sobre a importância da prevenção em saúde quanto às condições precárias de trabalho, como jornadas extensas, informalidade, instabilidade econômica e sobrecarga física. Essas questões reforçam as iniquidades em saúde e podem ampliar a exposição às ISTs.
Possibilitar o acesso às estratégias de prevenção combinada e aos tratamentos de infecções sexualmente transmissíveis a catadores de materiais recicláveis.
O trabalho foi realizado em uma cooperativa de materiais recicláveis, localizada em uma comunidade da zona leste de São Paulo. O local emprega pessoas em situação de vulnerabilidade social, com menor chance de inserção no mercado de trabalho formal. Entre os cooperados existem ex-dependentes químicos, mães solos, moradores de áreas livres, egressos do sistema prisional, imigrantes, entre outros. Após articulação local, a equipe do Serviço de Atenção Especializada em IST/Aids (SAE IST/Aids) do território realizou ações extramuros com os cooperados entre 2024 e 2025, oferecendo aconselhamento em saúde, testes rápidos para ISTs (HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C), prescrição de profilaxias pré e pós-exposição ao HIVe distribuição de insumos de prevenção (preservativos externos e internos, gel lubrificante e autotestes para HIV).
Foram realizadas 3 ações de prevenção às ISTs na cooperativa, totalizando 45 atendimentos. Dentre os participantes, 3 trabalhadores (6,6%) relataram histórico prévio de diagnóstico e tratamento para sífilis, motivo pelo qual não foram submetidos à testagem no momento das ações. Dos testes realizados, 14,28% foram reagentes para sífilis e tiveram prescrição imediata de tratamento. Todos realizaram testes rápidos para hepatites B e C e HIV. Nesse período, 6 (15,4%) tiveram resultados reagentes para hepatite C, sendo prontamente encaminhados para acompanhamento e confirmação diagnóstica junto à Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência e 1 cooperado (2,2%) foi diagnosticado com infecção pelo HIV e encaminhado ao SAE para início de tratamento. Ressalta-se que todos os participantes receberam orientações singularizadas acerca das estratégias de prevenção combinada para o HIV e demais ISTs.
A partir dos resultados obtidos, as ações de testagem e de distribuição de insumos de prevenção na comunidade local foram ampliadas por meio de uma unidade móvel na rua da cooperativa. Esse trabalho reforçou a importância de ações em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica. Embora pontuais, os resultados instigam a reflexão de que, em bolsões de pobreza, ainda existem muitos indivíduos que sequer foram testados em algum momento da vida, muito menos tratados ou informados sobre as tecnologias de prevenção existentes. Localmente, esses dados motivaram a intensificação dessas ações em contextos de maior vulnerabilização.
Prevenção, Promoção em Saúde, DSS, Catadores
NATALIA TEIXEIRA HONORATO SOARES