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A produção de saúde se dá em grande parte numa relação assimétrica de saber e de poder, fundamentadas em lógicas fragmentadas entre saberes/práticas, requerendo outros modos de operar o cuidado de forma mais inclusiva. Essa assimetria nas relações, impacta diretamente na assistência ao pré-natal e ao parto da mulher indígena, pois anteriormente o parto acontecia na própria comunidade com apoio da parteira e de suas redes social-afetiva e familiar. Nesta dimensão, os apoiadores da Política Estadual de Atenção Básica e de Humanização, provocados por todas as questões que permeiam os modos de gestar e de parir, foram se aproximando do território indígena do município das Terras de Araribá no município de Avaí e da Maternidade Santa Isabel do município de Bauru para pensarem numa construção coletiva de uma proposta de plano de parto, visando um melhor Acolhimento com inclusão dessas mulheres, respeitando sua cultura, autonomia e protagonismo no processo parturitivo. Incluir a gestante, significa incluir a vida e sua rede social-afetiva-familiar, uma vez que a gestação é uma parte desta vida e não a vida toda, fazendo-se necessário considerar aspectos relacionados à subjetividade e singularidade de cada uma. Sendo assim, o presente trabalho justifica-se pela intensidade e pela mobilização dos diferentes atores, através das várias rodas de conversa que efetivamente produziram um comum, uma proposta de plano de parto indígena.
Aproximar equipes multidisciplinares de saúde indígena do município de Avaí com a Maternidade Santa Isabel de Bauru. Construir coletivamente uma proposta de plano de parto que contribua com a mudança de modelo de assistência envolvendo profissionais das equipes multidisciplinares de saúde indígena do município de Avaí e da Maternidade Santa Isabel de Bauru, tendo a gestante como autônoma e protagonista do próprio plano de cuidado.
Inicialmente foi realizada uma visita técnica pelos apoiadores da Política de Atenção Básica e Humanização do Estado de São Paulo, a comunidade indígena visando uma aproximação e vinculação com a equipe multidisciplinar que atua nas aldeias. Nesta aproximação, foi compartilhado a proposta de apoio, reconhecendo as necessidades do território com participação da equipe multidisciplinar, caciques e lideranças das 4 aldeias das Terras de Araribá do Município de Avaí (Ekeruá, Kopenoty, Nimuendajú e Tereguá), sendo pontuado pelos participantes a importância do respeito à cultura desde o nascimento dos bebês que se dá na Maternidade Santa Isabel de Bauru. Desta forma, foram oportunizadas algumas rodas de conversas, promovidas pelos apoiadores, envolvendo as duas equipes para construção coletiva de uma proposta de plano de parto, como sendo um dispositivo que visa melhor acolhimento à mulher no processo parturitivo, respeitando suas crenças, autonomia, protagonismo, cultura e desejos. Após essa etapa, foi realizado um evento na comunidade, convidando os profissionais das duas equipes (Maternidade e Saúde Indígena), Distrito Sanitário Especial Indígena Litoral Sul (DSEI) caciques, lideranças, gestantes, puérperas e seus cônjuges para compartilhar o produto construído, para análise e aprovação do plano de parto.
A função apoio contribuiu com a mudança dos modelos de atenção e de gestão nos modos de cuidar das gestantes indígenas e de seus bebês, respeitando a mulher como sujeito agente, protagonista e autônoma do próprio cuidado, tendo o plano de parto como dispositivo. O plano de parto, foi construído de forma artesanal e participativa, possibilitando dar voz a gestão, aos profissionais e usuários, fomentando a importância dessa tríplice inclusão. Os efeitos que foram produzidos são imensuráveis, na medida que o processo se dá em redes vivas que territorializa, desterritorializa e reterritorializa a todo momento. A população que antes era invisível, passa a ter visibilidade o plano de parto deixa de ser um instrumento burocrático e passa a operar mudanças nas formas de cuidar e de acolher essas mulheres, seus bebês, respeitando suas crenças e seus desejos. Um outro elemento importante, foi a ampliação de pessoas que podem acompanhar essas mulheres durante todos os períodos da evolução do trabalho de parto, pois além do intérprete da língua indígena, a parturiente tem o direito a um acompanhante de sua livre escolha, com abertura para pajelança, inclusive na UTI neonatal.
Como observa-se no decorrer do trabalho, é perceptível a importância da função apoio na mudança nos modos de gerir e de cuidar. A assistência ao parto indígena, influenciada pelo modelo biomédico, também vem sofrendo alterações, pois anteriormente, o parto que ocorria nas aldeias por mão das parteiras e com apoio da pajelança e rede social-afetiva-familiar, atualmente migraram para a atenção hospitalar. Isso fez com que os apoiadores, promovessem uma integração com aproximação e vinculação entre as equipes de saúde indígena e Maternidade, objetivando uma construção coletiva de uma proposta de plano de parto que contribuíssem com melhor acolhimento a essas mulheres, enquanto sujeito e protagonista do próprio cuidado no processo parturitivo. Sendo assim, o plano de parto pode favorecer a ressignificação de práticas que impactam na produção do cuidado compartilhado, devendo ser colocado em análise permanentemente os efeitos que produz na gestão, nos profissionais, nos usuários e nos serviços.
saúde da mulher indígena, processo apoiador
Marta Peixoto Duarte Ernica, Bruno Wesley Rodrigues