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O cuidado em saúde mental requer abordagens que contemplem os múltiplos aspectos do indivíduo, como suas emoções e afetos, para que este processo torne-se ainda mais enriquecedor, considera-se o envolvimento de práticas institucionalizadas através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (PNPIC) em 2006, levando em consideração uma visão ampliada do processo saúde e doença, com a possibilidade de um cuidado integral ao ser humano. Nesse sentido, a meditação compreendida como uma prática milenar e reconhecida como um dos Recursos Terapêuticos no Sistema Único de Saúde (SUS) promove a focalização da atenção, diminuição do pensamento repetitivo e a reorientação cognitiva, além de alterações favoráveis no humor. Deste modo, a proposta se desenvolveu no CAPS III Praça Chile, com a intenção de criar um ambiente acolhedor e propício para a autorreflexão, utilizando contos da mitologia grega, mitologia africana e literatura brasileira, como ferramenta para introduzir temas emocionais e despertar o imaginário coletivo. A justificativa baseia-se na necessidade de ampliar a diversidade terapêutica do CAPS, oferecendo práticas reconhecidas pela PNPIC que promovam relaxamento, autoconhecimento e fortalecimento psíquico em um espaço seguro e culturalmente enriquecido.
Promover a autorreflexão e o autoconhecimento por meio de narrativas mitológicas e literárias, bem como facilitar a compreensão dos limites do ego e o reconhecimento das emoções e afetos. Nesta perspectiva os processos meditativos, busca estimular práticas de relaxamento e equilíbrio emocional criando um espaço acolhedor e culturalmente rico, que estimule a auto regulação emocional dos usuários do CAPS, integrando narrativas de diferentes tradições culturais, reforçando a pluralidade e o respeito à diversidade.
A experiência dos processos meditativos fora estruturada em três etapas: Ambientação Inicial com contos, contação de histórias baseadas na mitologia grega, africana e literatura brasileira, e discussão coletiva sobre os temas apresentados, com foco em emoções, afetos e questões de identidade, com a leitura do mito de Narciso (limites do ego), histórias yorubás sobre transformação, o mito de sísifos, poema de Smália, e os contos de Machado de Assis, (memórias de Brás Cubas), abordando conflitos internos. Posterior, transaciona para processo meditativo propriamente dito, onde os usuários são conduzidos a exercícios de respiração e relaxamento progressivo, com sons musicais e luzes suaves (ambiente), criando um ambiente imersivo e relaxante, onde o facilitador guia os usuários participantes através da meditação baseada nos temas discutidos, incentivando visualizações e introspecção, no espaço seguro para expressões emocionais espontâneas. As sessões ocorrem semanalmente, com duração de 90minutos, e contam com a participação de usuários do CAPS.
Qualitativamente a iniciativa apresentou impactos positivos nos aspectos emocionais e relacionais dos participantes. Observou-se que há maior abertura dos usuários para refletirem sobre suas experiências emocionais no gerenciamento do estresse e no autocontrole diante de situações desafiadoras, bem como a ampliação do repertório simbólico e cultural dos participantes, além, de estabelecer vínculos mais profundos entre usuários e equipe, a partir de discussões empáticas. Relatos de maior clareza mental e sensação de paz interior após as práticas meditativas. Um dos pontos de destaque foi a ressignificação de narrativas pessoais através da identificação com os personagens dos contos. Os mitos atuaram como espelhos para experiências de vida, onde surgiram demandas antes não verbalizadas pelos usuários e após alguns encontros, trouxeram sobre suas histórias, e as violências vivenciadas, enquanto a meditação reforçou o papel do relaxamento e equilíbrio emocional. Atualmente o grupo de meditação contempla usuários de diferentes diagnósticos e faixa etária, com a assiduidade de oito pessoas.
A integração entre literatura, mitologia e meditação revelou-se uma estratégia poderosa no cuidado em saúde mental. A experiência no CAPS III Praça Chile demonstrou que o uso de contos para introduzir práticas meditativas possibilita o diálogo entre a cultura e a subjetividade, promovendo reflexões profundas e transformadoras. A continuidade da prática depende do fortalecimento de parcerias com profissionais de diferentes áreas, além do incentivo à capacitação dos facilitadores. Estudos futuros podem ampliar o impacto dessa abordagem, especialmente em grupos com necessidades específicas. A experiência reforça o papel das artes e da cultura como caminhos terapêuticos para a saúde global do usuário.
Práticas integrativas, Recursos terapêuticos
ANTONIO DE SOUSA E SILVA, BRUNA BADOLATO