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A obesidade infantil é uma condição multifatorial que tem crescido de forma preocupante, gerando impactos negativos à saúde física, emocional e social de crianças e adolescentes. Considerada um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, exige ações articuladas que vão além da prescrição de dietas e medicamentos. Em resposta a essa realidade, foi desenvolvido em Guarulhos, a partir de agosto de 2024, o Programa Bem Cuidar – uma iniciativa multiprofissional voltada ao cuidado integral da criança e do adolescente com obesidade na atenção especializada. A proposta nasceu da experiência prática dos profissionais do ambulatório da criança e foi fundamentada no Protocolo de Atendimento da Criança e do Adolescente com Sobrepeso e Obesidade na Atenção Ambulatorial Especializada, elaborado por nutricionistas da equipe e apresentado à Rede de Doenças Crônicas da Secretaria Municipal da Saúde, atualmente em análise para parecer técnico. A experiência se destaca por valorizar a participação ativa dos usuários, por meio de encontros mensais em grupo e acompanhamento clínico individualizado. O programa busca promover mudanças de comportamento sustentáveis, utilizando metodologias educativas, lúdicas e sensíveis às necessidades reais das famílias atendidas.
Promover o cuidado integral e multiprofissional à criança e ao adolescente com obesidade grave, por meio de atendimentos individuais e encontros em grupo que incentivem mudanças sustentáveis nos hábitos de vida e favoreçam a melhoria da qualidade de vida. Objetivos específicos: •Criar um espaço acolhedor e participativo para o cuidado da obesidade infantil no âmbito especializado. •Incentivar escolhas alimentares saudáveis e promoção da atividade física com abordagem prática e lúdica. •Sensibilizar pacientes e familiares sobre comorbidades associadas à obesidade. •Estimular o autocuidado, o reconhecimento do comer emocional, a escuta ativa e a corresponsabilidade no tratamento. •Fortalecer o vínculo com a rede SUS e ampliar a compreensão sobre alimentação, saúde bucal, sono e bem-estar.
O programa foi executado entre agosto de 2024 e junho de 2025, no Ambulatório da Criança de Guarulhos, com foco em crianças (6 a 11 anos) e adolescentes (12 a 17 anos) com obesidade. As atividades foram organizadas em dez encontros mensais por faixa etária, além de atendimentos clínicos individuais com nutricionista, endocrinologista, psicóloga (durante parte do período) e outros especialistas, conforme demanda. Cada encontro em grupo abordou um tema-chave relacionado ao cuidado da obesidade, utilizando estratégias de educação em saúde com base em metodologias ativas, como jogos, dinâmicas, degustações, rodas de conversa, atividades motoras, quizzes e uso de materiais visuais. As temáticas incluíram alimentação saudável, rótulos, lancheira escolar, comer emocional, imagem corporal, mitos alimentares, saúde bucal, sono e atividade física. A escuta ativa dos participantes foi garantida por meio de espaços para sugestões, como a dinâmica do post-it com temas de interesse, além de interações contínuas com os profissionais da equipe. Ao final do ciclo, aplicou-se um formulário digital com questões fechadas e abertas sobre a vivência no grupo e percepção de mudanças no cotidiano, como forma de avaliação qualitativa.
O programa alcançou uma expressiva adesão, com presença regular das crianças, adolescentes e seus responsáveis nos encontros mensais. O ambiente lúdico e acolhedor favoreceu a participação ativa e a construção coletiva do cuidado. Observou-se envolvimento crescente dos participantes e mudanças relatadas nas rotinas familiares, principalmente em relação à alimentação, atividade física, sono e entendimento sobre o comer emocional. A análise do formulário de avaliação, respondido de forma voluntária ao final do ciclo, revelou percepções positivas: grande parte dos participantes relatou melhora na qualidade de vida, maior interesse por escolhas alimentares saudáveis e aumento da prática de atividades físicas. Frases como “estou me alimentando melhor”, “aprendi a beber mais água e dormir mais cedo”, “estou conseguindo me movimentar mais” ilustram o impacto subjetivo da proposta. Além disso, a equipe notou maior vínculo com os serviços de saúde e corresponsabilização das famílias no cuidado. O planejamento flexível e centrado nos sujeitos, aliado à escuta ativa e à abordagem interprofissional, foram fundamentais para o sucesso da experiência.
A experiência vivenciada com o Programa Bem Cuidar evidenciou que o enfrentamento da obesidade infantil pode ser mais eficaz quando realizado de forma integrada, humanizada e participativa. Ao privilegiar o diálogo com os usuários e a valorização dos seus saberes, foi possível construir um espaço seguro para a expressão de dificuldades, acolhimento das demandas e desenvolvimento de estratégias realistas e aplicáveis. A participação ativa das crianças, adolescentes e familiares – desde a escolha de temas até a avaliação da experiência – fortaleceu o protagonismo dos sujeitos no cuidado, alinhando-se aos princípios da integralidade e do controle social no SUS. A ausência de dados clínicos objetivos sistematizados nesta etapa não comprometeu a relevância da vivência, que se sustentou na escuta qualificada e no acompanhamento longitudinal dos casos. Para o próximo ciclo, pretende-se avançar na construção de indicadores clínicos, laboratoriais e antropométricos que complementem os aspectos subjetivos da experiência. O modelo pode ser replicado em outros territórios, adaptado às realidades locais e incorporado como estratégia permanente no cuidado à obesidade na infância e adolescência.
Obesidade Infantil, Grupo Terapêutico, SUS
GILBERTO DE ALMEIDA GOMES, DAYANE THAIS TRONCOZO VILLCA, MÁRCIO FERNANDO DA SILVA, MÁRCIA MARIA MARIANO PEREIRA FREZ, CLAUDIA JUNGER SANTOS, LUCIANA ACOSTA E SILVA