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Em Fevereiro de 2024, a corporação da Guarda Civil Municipal de Cotia/SP foi assolada por uma fatalidade. Um guarda civil municipal atirou contra dois agentes durante uma discussão na base da GCM. Dois guardas faleceram e o outro ficou gravemente ferido. Após a tragédia, os GCMs presentes no dia do ocorrido, foram encaminhados, no dia seguinte, para Acolhimento e seguimento do atendimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que foi demandado para a contingência da tragédia. Anteriormente a isso, já era percebido o escalonamento do adoecimento psicológico do efetivo da GCM. O CAPS já atendia funcionários da segurança pública, tanto em atendimento individual quanto em grupos terapêuticos. Coube a equipe do CAPS, montar um plano de contingência de forma emergencial para acolher as vítimas dessa tragédia. Através dos estudos da equipe do CAPS constatamos que existe uma escassez quanto à representação em números estatísticos sobre o adoecimento psíquico entre profissionais da segurança pública no Brasil. Os casos mais graves foram encaminhados para o atendimento psicológico individual semanal com duração de 60minutos. Já os demais casos, foram encaminhados para o grupo terapêutico específico para essa demanda e público, chamado projeto ALMA.
O objetivo do atendimento tanto psicológico individual quanto do projeto ALMA, foi a construção de um plano contingência para um momento de crise na Guarda Municipal de Cotia. Devido a necessidade de olhar a para a Saúde Mental dos Guardas Municipais que vivenciam situações traumáticas, sejam elas nas ruas com a população, em serviço e em âmbito pessoal.
O atendimento psicológico individual contava com atendimentos semanais com duração de 60minutos, tendo como aporte teórico a psicanálise Freudiana. O projeto ALMA, contava com até 15 participantes, uma psicóloga e uma psicanalista voluntária, ocorria toda sexta feiras das 10h00 às 11h30. Os participantes foram orientados a participarem descaracterizados e sem o uso de armamento. O Caps Adulto ofereceu para a GCM Cotia um espaço de escuta e acolhimento com ações terapêuticas voltadas para a Saúde Mental. O atendimento fora oferecido em ambiente sigiloso e profissional, respeitando a demanda individual dos participantes. As atividades no grupo eram diversificadas com temas que tinham o intuito de trabalhar a construção e resgate de identidade e propósito. Tendo como objetivo de reconhecer as emoções reprimidas, os sonhos e desejos, traumas, autoestima, histórias de vida, angústia e inquietações, entre outros. Além do diálogo, foram utilizados recursos como: escrita, arte, leitura, vídeos, entre outros. Priorizando sempre o discurso livre. Além do atendimento psicológico, os participantes também foram integrados no atendimento multidisciplinar, contavam com consultas mensais ou bimensais com psiquiatra nutricionista e práticas integrativas (yoga, auriculoterapia, reike e acupuntura).
A crise que se alastrava no momento da tragédia na corporação, foi amenizada pela oportunidade de terem um espaço de acolhimento e de escuta especializada. Com a continuidade do trabalho, pudemos observar que demandas além do estresse corporativo foram trazidas para o atendimento. Muitos deles reconsideravam a carreira e começaram a vislumbrar outras possibilidades anteriormente esquecidas e abandonadas. Revisitaram seus propósitos e resgataram projetos que faziam parte da sua vida, como trabalhos sociais, produções literárias, empreendedorismo, entre outros. Cabe como exemplo, uma guarda que estava presente no momento da tragédia, após o início do projeto, se inscreveu em um grupo de guardas escritores e apresentou seus livros de poesias no congresso anual. Assim, mostramos a importância de retornar sua energia psíquica para outras atividades para além do trabalho diário. Também pudemos escutar relatos de guardas sobre suas respectivas famílias que percebiam melhora em seus estados emocionais, conseguiram ser mais participativos em casa e se tornaram mais ativos com atividades fora do local de trabalho.
O Projeto ALMA foi construído com o intuito de oferecer um espaço sigiloso e humanizado de escuta e acolhimento para os GCMs, de forma a contribuir para o bem-estar físico e emocional, permitindo aos participantes dispor de recursos terapêuticos para lidarem com as suas emoções e com eventos estressores vivenciados no ambiente de trabalho. Cuidar da saúde mental destes profissionais de forma humanizada e acolhedora, permitiu que ressignificassem seus propósitos de vida e do próprio trabalho. Foi possível com o foco e o cuidado com a saúde mental que os profissionais resgatassem a motivação no trabalho, a autoconfiança, desenvolvem percepção e controle do estresse e do sofrimento emocional. Tanto os guardas que frequentaram o projeto ALMA quanto os que foram acompanhados individualmente, retornaram para a sua função na corporação da Guarda Civil Municipal. A implementação do plano provisório de contingência de crise, reforça a necessidade de valorizar o cuidado a saúde mental dos profissionais de segurança pública e demonstra a urgência de aprimorar e implementar políticas de saúde mental para essa população. Assim, avalia-se que o projeto foi uma experiência assertiva e se concluiu com êxito.
guarda civil saúde mental Stress x porte de arma
BRUNA TIOSSI FRANCISQUINI