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Os hábitos da humanidade mudaram radicalmente com a industrialização e a vida moderna, tanto em rotinas alimentares como dos modos de viver, esse fato ocasiona prejuízos para uma saúde plena. A jornada de trabalho dos pais, a segurança pública, a facilidade de acesso aos alimentos industrializados com sua praticidade e, a informatização das brincadeiras vem trazendo problemas de saúde com precocidade1. O relatório público do Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional2, com dados dos usuários de saúde da Atenção Primária à Saúde, aponta que, até meados de setembro de 2022, mais de 340 mil crianças no Brasil, entre 5 a 10 anos de idade tiveram o diagnóstico de obesidade, em seus diversos graus. Além disso, existe a previsão de até um terço das crianças e adolescentes serem obesos no Brasil até 2035, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 20233. Nesse mesmo documento, em 2020 existiam cerca de 12,5% das meninas e 18% dos meninos eram obesos, e é estimado que em 12 anos, cerca de 23% das meninas e 33% dos meninos serão obesos no país. Em 2018 o Ministério da Saúde a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança4 que considera a importância do brincar e das atividades físicas para a criança, em especial para condições complexas como obesidade e outras doenças crônicas, agravos psicossociais e de dinâmica familiar.
O objetivo principal é o controle da obesidade e divulgação de resultados para conscientização local em crianças e adolescentes que são assistidos pela Atenção Primária à Saúde em Ilhabela. Os objetivos específicos são: Promover e proteger a saúde das crianças e adolescentes; Estabelecer vínculos entre as crianças e adolescentes com seus responsáveis e também destes com os profissionais da saúde; Qualificar as práticas do cuidado, mediante soluções criativas e lúdicas para os problemas reais vividos no processo de obesidade; Inserir hábitos saudáveis de atividade física e alimentação no cotidiano das crianças e adolescentes; Conscientizar a família da necessidade de mudança de hábitos e; Promover, através de brincadeiras tradicionais, o retorno de práticas saudáveis para o público de crianças e adolescentes.
O Projeto Viva Leve Kids e Teens se inicia com a equipe multidisciplinar da Academia da Saúde de Ilhabela na integração com as Unidades de Saúde da Família voltado para crianças e adolescentes com Índice de Massa Corporal (IMC) com alterações. A identificação desse público feita pela Atenção Básica foram convidados a participar do programa com duração de 90 dias. O início do projeto contou com 20 crianças e 12 adolescentes que realizaram exames laboratoriais, avaliação física e nutricional, seus dados foram arquivados para futura análise. Na abertura do projeto, responsáveis e o público alvo assistiram apresentações sobre o desenvolvimento do projeto presencialmente no paço municipal e, tiveram continuidade em uma palestra on-line sobre a importância da aprendizagem significativa com uma psicopedagoga voluntária com diversas pós graduações na área. As atividades propõem ações esportivas e lúdicas de acordo com as faixas etárias, duas vezes por semana, o projeto contou com o apoio da Secretaria de Esportes em práticas de natação, atletismo e futebol. A nutricionista da Saúde orienta sobre reeducação alimentar evidenciando rotinas de uma dieta saudável, rotineiramente. Os usuários com alterações em exames laboratoriais, tem a repetição após três meses e são encaminhados para o acolhimento da equipe de Saúde da Família. Os participantes são avaliados mensalmente em pesos e medidas, assim como, são oferecidas atividades para a família, como trilhas e percursos na praia.
O Projeto Viva Leve Kids e Teens acolheu o acesso equânime nas ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação da saúde, por meio da efetivação de um programa voltado para hábitos sadios e harmoniosos. O projeto induziu a formação de uma política para populações vulneráveis, em condição de iniquidades em saúde, por meio da integração entre profissionais da Academia da Saúde e Atenção Básica, em parcerias intersetoriais com as Secretarias de Educação e Esportes em ambientes extramuros. O determinante da participação ativa dos responsáveis nas atividades aos finais de semana criou vínculos e afetividades. As aprendizagens de brincadeiras tradicionais e regras de esportes como basquete e futebol, tanto dos participantes como dos profissionais envolvidos, formataram novos conhecimentos de participação coletiva, estimulando a transversalidade e a grupalidade, criando uma relação indissociável entre a atenção e cuidado em saúde pelos profissionais da saúde. Ainda como resultados, estes muito esperados, a redução no peso corporal e medidas, reeducação alimentar e consciência sobre os males causados por alimentos industrializados em excesso foram contemplados, dos 32 usuários inscritos, 24 concluíram o projeto e todos avançaram em pesos, medidas e condições de exames laboratoriais, 8 adolescentes desistiram pelo caminho. A inserção de uma criança com TEA e duas TDHA em uma socialização e inclusão, brindou o projeto com um adicional inesperado e um algo a mais.
O projeto comprovou a necessidade de ações envolvendo a família para o melhor desenvolvimento e participação das crianças, e criou caminhos para formação de uma política pública em saúde na cidade. As crianças tiveram uma participação mais ativa e mostravam maior potencial de interesse em qualquer tipo de atividade proposta. Os adolescentes têm preferência em esportes coletivos e competitivos. Entretanto, diversos adolescentes continuaram atividades físicas com a coordenadora em ginástica tipo funcional. O projeto buscou qualificar as práticas do cuidado, mediante soluções concretas para os problemas reais vividos no processo de produção de saúde, de forma criativa e inclusiva, com acolhimento, defesa dos direitos dos usuários e ambiência, estabelecimento de vínculos solidários com a valorização das diferentes condições de vida, buscando a corresponsabilidade entre usuários, em redes de cooperação e a participação coletiva. Com essa experiência, formatou-se uma política pública em Ilhabela com a ciência e concordância da gestão em saúde, indicando o enfrentamento das iniquidades com linhas de cuidado em suas dimensões educativas, intersetoriais, multidisciplinares e sustentável.
Obesidade; Saúde da Criança; Alimentação;
DANIELA GÓES DE ABREU