Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A atenção psicossocial enfrenta desafios no cuidado em saúde mental de pessoas idosas no nível da Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que se refere ao isolamento social, sofrimento emocional e escassez de dispositivos terapêuticos grupais no território. Nesse sentido, estratégias coletivas e expressivas têm se mostrado potentes para o fortalecimento de vínculos, promoção do protagonismo e ampliação das redes de apoio, como o uso de atividades manuais que podem favorecer a expressão simbólica, ressignificação de experiências e a construção de sentidos compartilhados. Assim, o presente estudo justifica-se pela necessidade de desenvolver práticas integrativas e inovadoras na APS, alinhadas aos princípios do SUS, descrevendo a experiência do “Ateliê dos Sentimentos – Os Nós da Vida”, que utilizou o macramê como ferramenta terapêutica para promover saúde mental, socialização e autonomia de pessoas idosas em uma Unidade Básica de Saúde de Jundiaí (SP), uma estratégia de baixo custo, replicável no SUS e alinhada aos princípios da integralidade e participação social.
Descrever e avaliar o processo de implementação do “Ateliê dos Sentimentos – Os Nós da Vida”, realizado em uma Unidade Básica de Saúde em Jundiaí (SP), que utilizou o macramê como ferramenta terapêutica para promover a saúde mental de idosos, analisando seus efeitos na socialização, expressão afetiva e fortalecimento dos vínculos comunitários, ampliando o protagonismo das participantes no cuidado de si.
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo, na modalidade relato de experiência, iniciado no mês de Janeiro de 2025,, em uma Unidade Básica de Saúde do município de Jundiaí-SP. A intervenção ocorreu em encontros grupais semanais, com duração de 1h30, conduzidos por psicóloga, nos quais as participantes desenvolveram atividades manuais em macramê associadas a rodas de conversa, leituras compartilhadas e dinâmicas reflexivas. O macramê, enquanto técnica artesanal baseada na construção de nós e tramas, foi utilizado como recurso terapêutico-metafórico, articulado a uma abordagem fenomenológica, favorecendo a conscientização, a expressão emocional e a ressignificação de vivências pessoais e sociais. Metáforas como “nós da vida” e “moldes impostos” foram empregadas como dispositivos de ampliação da percepção sobre limites, potencialidades e experiências de vida. Perguntas disparadoras como “qual o maior nó da sua vida?” e “quais moldes você repete em sua vida?” foram utilizadas para identificação e ressignificação de desafios pessoais. Os dados foram produzidos por meio de registros em diário de campo da facilitadora e observação participante, considerando aspectos de participação, vínculos, expressão emocional e interações grupais.
A intervenção favoreceu a construção de um espaço grupal de convivência, fortalecendo vínculos sociais e o sentimento de pertencimento entre as participantes. Foi observada a ampliação da expressão emocional, com maior verbalização de sentimentos, memórias e desafios pessoais relacionados ao envelhecimento, perdas e relações familiares. O macramê, enquanto dispositivo terapêutico-metafórico, possibilitou a externalização simbólica de vivências, facilitando processos de conscientização e ressignificação. As metáforas dos “nós da vida” e dos “moldes impostos” estimularam reflexões sobre autonomia, limites, papéis sociais e possibilidades de mudança. Relatos espontâneos indicaram aumento da autoestima, percepção de competência, redução de sentimentos de solidão e ansiedade e fortalecimento do protagonismo das participantes. Identificou-se ainda que a atividade manual promoveu estímulo cognitivo, criatividade e aquisição de novas habilidades manuais. A consolidação do grupo resultou na produção contínua de peças artesanais, parte comercializada como estratégia de geração de renda e parte destinada à doação para organizações sociais, ampliando o impacto comunitário. As produções também foram utilizadas na UBS como dispositivos de sensibilização para ações temáticas no território, fortalecendo o vínculo com a comunidade. O grupo consolidou-se como dispositivo de cuidado psicossocial na APS, contribuindo para a promoção da saúde mental, clínica ampliada e fortalecimento de redes.
A experiência do “Ateliê dos Sentimentos – Os Nós da Vida” evidenciou o potencial do macramê como tecnologia leve de cuidado na Atenção Primária à Saúde, articulando produção manual, expressão simbólica e construção coletiva de sentidos. A abordagem fenomenológica permitiu valorizar a experiência vivida das participantes, favorecendo processos de conscientização, ressignificação e fortalecimento do protagonismo no cuidado em saúde mental, em consonância com os princípios da Política Nacional de Humanização. A intervenção contribuiu para a ampliação dos vínculos comunitários, redução do isolamento social e fortalecimento de redes de apoio no território, alinhando-se às diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial e às políticas de envelhecimento ativo. O grupo configurou-se como dispositivo de clínica ampliada, promovendo cuidado integral, autonomia e participação social.
Atenção Básica, Envelhecimento,Terapia Comunitária
MARIA FERNANDA MARTINS SAVIOLI