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As fissuras labiopalatinas estão entre as anomalias congênitas de cabeça e pescoço que mais acometem a face humana. No Brasil estima-se que 1/650 nascimentos são acometidos dessa condição. O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais HRAC- USP, em Bauru, é um centro especializado de excelência na reabilitação desses pacientes, sendo referência no Brasil e no exterior, atendendo pacientes de muitas localizações, inclusive do Litoral Norte (LN) de SP. O tratamento acontece de maneira processual e vai até a fase da maturidade óssea do paciente, envolvendo acompanhamento multidisciplinar, isso implica em aproximadamente três décadas de acompanhamento clínico. O presente estudo mapeou o perfil clínico e socioeconômico dos moradores do LN de SP (Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba) com prontuário no HRAC – USP, e considerando o processo reabilitador na qual o paciente é inserido desse o nascimento até a idade adulta, levanta-se a questão da qualidade e constância do transporte sanitário ofertado pelas municipalidades. Os municípios que integram a região de saúde Litoral Norte, integrante da DRS XVII, possuem logística peculiar, e os pacientes portadores de Anomalias Craniofaciais em acompanhamento no HRAC-USP, enfrentam uma logística complicada, considerando a distância até o serviço de alta complexidade, assim,questiona-se: Até que ponto a qualidade do transporte sanitário impacta no tratamento de pacientes inseridos em processos reabilitadores longos?
Analisar o perfil social dos pacientes residentes no LN de SP, assim como analisar o quantitativo de pacientes que fazem uso do transporte sanitário de responsabilidade municipal para realizar o processo reabilitador que as anomalias craniofaciais requerem dentro das terapias multidisciplinares envolvidas, discutindo assim a importância e responsabilidade do transporte sanitário no tratamento desses pacientes. Mapear o perfil de residentes dos quatro municípios do LN de São Paulo (Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba) que possuam prontuário no HRAC, realizando assim o consolidado geral (dos quatro municípios) e municipal (de cada município individualmente) dos pacientes residentes nesses territórios, identificando: número de cirurgias primárias e secundárias, terciárias, reparadoras de outras intervenções já realizadas no HRAC, tipos de fissuras e avaliação das condições sociais.
Trata-se de um estudo quantitativo, descritivo e exploratório, uma vez que tem como objeto de estudo a epidemiologia que descreve determinantes, ocorrências e descrições situacionais precisas, subsidiando, assim, a formulação de hipóteses significativas. O estudo foi estruturado por meio das seguintes etapas: mapeamento do perfil dos pacientes residentes no LN de São Paulo por meio de coleta de dados em fontes secundárias (prontuários) e análise documental dos mesmos, análise dos dados nas planilhas de agendamento e cancelamento de procedimentos no HRAC nos períodos compreendidos entre janeiro de 2019 a 18 de outubro de 2022, possibilitando a comparação do período pré-pandemia, pandêmico e retomada progressiva das atividades no HRAC. Os locais de estudo foram: Banco de dados do HRAC e a Seção de arquivo de prontuário do HRAC – USP. Após o levantamento dos pacientes do LN em tratamento no HRAC, fiz a busca e análise de manual de cada prontuário, num processo com duração de 6 dias consecutivos, 9 horas por dia, entre análise, digitação e planilhamento dos achados e submissão à análise estatística de todo conteúdo. E isso ocorreu na Seção de arquivo de prontuário do HRAC – USP, em Bauru, o municipio de Ubatuba e seus servidores da Secretaria de Saúde foram fundamentais na realização dessa pesquisa. Aprovado pelo CEP. nº Protocolo nº: 5.326.902. CAEE nº53275221.5.0000.5441
Ubatuba apresentou o maior percentual de pacientes em tratamento no HRAC: 44% (n=46), na sequência: Caraguatatuba com 43% (n=45), São Sebastião 10% (n=11) e Ilhabela com 3% (n=3), totalizando 105 pacientes, São Sebastião expressou a maior média de procedimentos cirúrgicos e ambulatoriais (5,9 procedimentos por paciente). Até a data de 22 de maio de 2022, 429 cirurgias e procedimentos ambulatoriais foram realizados nos pacientes do LN. É importante discutir a situação dos municípios em estudo em relação à dependência de outros municípios para a oferta de serviços de saúde. Os municípios que compõem o LN de SP apresentam Índice de Dependência Regional em 20%, ou seja, o percentual de evasões do território em busca de integralidade em saúde, onde o município redireciona o olhar para o grau de suficiência de cada região, Considera-se notório o fato de que 35% dos pacientes chegaram ao HRAC – USP com idade de 0 a 3 meses. A inserção precoce do paciente ao tratamento é um ganho pois a cirurgia reparadora primária é a primeira etapa terapêutica do processo de reabilitação. Identificamos que 96% dos pacientes têm o SUS como o principal recurso para acompanhamento/tratamento dessas condições específicas e 71% usam transporte sanitário municipal para realizar o tratamento no HRAC-USP, esse número é bem expressivo, na análise comparativa, constatou-se que o maior percentual de faltas a consultas e procedimentos registrou-se no ano de 2019, onde 11% da população agendada não compareceu.
O transporte sanitário municipal, além de garantir o acesso aos serviços de saúde, precisa ser de qualidade e resolutivo, refletindo diretamente na adesão ao tratamento. Esse dado é crucial, pois uma das maiores taxas de faltas a consultas muitas vezes resulta de dificuldades operacionais e logísticas relacionados ao transporte sanitário. Esse fato traz a luz a importância de um sistema de transporte eficiente, que facilite o deslocamento dos pacientes e reduza os índices de ausência, colaborando para o sucesso do processo reabilitador. Portanto, investir na qualidade do transporte sanitário é fundamental para o êxito das políticas de saúde pública e a efetividade dos princípios doutrinários da equidade, universalidade e integralidade do SUS, o acompanhamento longitudinal é imprescindível para que o paciente com essas condições tão específicas, possa alcançar a plenitude da vida. Essa pesquisa traz uma relevante provocação aos municípios do Brasil: O olhar para o transporte sanitário deve ser humanizado, considerado e valorizado, pois ele está e segue presente na defesa da vida, da equidade, da universalidade e integralidade do cuidado. É a materialização da capilaridade do SUS.
USP, Anomalias craniofaciais, Transporte sanitario
MARIA OLIVIA PIMENTEL SAMERSLA, PROFº DRº CARLOS FERREIRA DOS SANTOS