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F. chega ao CAPS revelando os efeitos concretos da ausência de rede: vínculos rompidos, crises intensas e uma trajetória marcada por expulsões sucessivas do cuidado e do território. Nosso primeiro encontro ocorreu após tentativa de autoextermínio com a filha nos braços, gesto que denuncia não só sofrimento extremo, mas a falta de amparo em seu cenário de vida. A condução do caso sustenta-se na Clínica Ampliada, que compreende o sujeito para além da sintomatologia e convoca família, território e história como elementos inseparáveis do cuidado. A UBS, presente em diversas discussões, compôs conosco a arquitetura dessa rede viva, reafirmando a corresponsabilidade que a Reforma Psiquiátrica defende. Inspirada pelo Psicodrama, a escuta buscou abrir cenas possíveis para que F. (re)organizasse papéis, revivendo e reelaborando vínculos feridos. No encontro clínico, cada gesto se tornou palco para que ela pudesse experimentar outras formas de existir. Justifica-se este relato porque trajetórias como a de F. são frequentemente tratadas como irrecuperáveis. No entanto, quando o cuidado é ampliado, dramatizado pela presença e politicamente comprometido, a dignidade pode ser reconstruída onde antes havia apenas abandono.
Este relato tem como objetivo apresentar o percurso de cuidado de Fernanda no CAPS, evidenciando como a Clínica Ampliada, a inspiração do Psicodrama e os princípios da Reforma Psiquiátrica, Redução de Danos e Luta Antimanicomial orientaram a construção do PTS. Busca-se demonstrar como a equipe, em articulação constante com a UBS, sustentou o vínculo mesmo diante de internações repetidas, rupturas familiares e períodos de intensa vulnerabilidade social. Pretende-se, também, explicitar como estratégias de cuidado em liberdade foram possíveis a partir da flexibilização do PTS, garantindo alimentação, higiene, manejo de crise e proteção durante o período em situação de rua. Por fim, objetiva-se evidenciar o processo de reconstrução de direitos, autonomia e sentido de vida, incluindo trabalho, pertencimento territorial e a retomada do vínculo com a filha.
A metodologia adotada baseou-se no acompanhamento em referência sustentado pelos princípios da Clínica Ampliada, articulando intervenções individuais, familiares, territoriais e intersetoriais. Desde o primeiro acolhimento, os atendimentos buscaram compreender F. em sua complexidade, integrando dimensões subjetivas, sociais e relacionais. As visitas domiciliares em ambos os territórios revelaram fragilidades familiares e permitiram pactuar manejos compartilhados, sempre em diálogo com a UBS. Quando a usuária rompe definitivamente com os laços familiares e passa a viver em situação de rua, o PTS é reformulado segundo a Redução de Danos: flexibilização de horários, acesso diário à alimentação e banho, ajustes medicamentosos progressivos e manejo de crise mesmo nos finais de semana. A inspiração psicodramática guiou a postura clínica: abrir cena, ampliar vozes, permitir que F. experimentasse novos papéis possíveis — trabalhadora, mãe, cidadã — mesmo antes de consegui-los concretamente. A articulação com CRAS, CREAS e Centro Pop buscou recompor documentos, benefícios e dispositivos de proteção social. Acompanhei F. à Caixa Econômica Federal para investigar o benefício bloqueado, fazendo da própria instituição mais um cenário de cuidado possível. Todo o percurso foi atravessado pela Luta Antimanicomial, que sustenta que o cuidado em liberdade exige presença contínua, coragem política e a recusa radical do abandono.
Os resultados evidenciam que a usuária, antes imersa em crises psicóticas, violência e vulnerabilidade extrema, encontrou um eixo de reorganização sustentado pela presença clínica e pela rede. Com a estabilidade medicamentosa e o cuidado diário, retomou gradualmente o autocuidado, passou a se apresentar mais organizada e ampliou sua circulação no território. A reconstrução do vínculo com a mãe, antes atravessado por conflitos e recusas, foi possível graças ao trabalho contínuo, que ouviu medos, acolheu exaustões e possibilitou novos acordos familiares. O retorno ao lar materno marca não apenas a conquista de um espaço físico, mas a reabertura de um lugar simbólico de pertencimento. F. retomou documentos, buscou trabalho, entregou currículos e reorganizou rotinas. O cuidado à filha, temporariamente transferido ao pai e à avó, tornou-se horizonte possível novamente, fruto de sua reorganização psíquica e social. Mais do que melhora sintomatológica, recuperou dignidade: deixou de ser vista como “caso perdido” e passou a ocupar a cena de seu próprio enredo.
A trajetória da usuária confirma que o cuidado em saúde mental é tecido na frágil, porém fértil, fronteira entre sofrimento e possibilidade. A Clínica Ampliada permitiu que a equipe olhasse para além da crise, reconhecendo o sujeito em sua singularidade e convocando família, território e rede. A inspiração do Psicodrama abriu cenas internas e externas onde F. pôde experimentar novos papéis, reconstruindo sua própria narrativa. Os princípios da Reforma Psiquiátrica, Redução de Danos e Luta Antimanicomial sustentaram cada decisão: cuidar sem aprisionar, insistir sem violentar, acompanhar sem desistir. O CAPS recusou a lógica do abandono e apostou na vida quando tudo ao redor insistia na perda, segue em cuidado regular, com boa adesão e projeto de futuro. Sua história reafirma que, quando o cuidado é ético, humanizado e radicalmente comprometido, a vida encontra sempre uma fresta por onde recomeçar. Frase inspirada em F – “Não foi a ausência de dor que marcou seu caminho, mas a presença de força em cada tentativa de seguir”.
Clínica Ampliada, Protagonismo, Rede Viva
ROSANA APARECIDA CAMILO SIMIONATO, GUSTAVO MAGALHÃES, ELIANA CONCEIÇÃO ZANATTA