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As doenças respiratórias crônicas são a terceira causa de morte no mundo. Um grande desafio é que a DPOC, muitas vezes, é manejada erroneamente como doença aguda: o sistema absorve o paciente nas exacerbações, mas falha no tratamento contínuo. Esse modelo reativo gera internações evitáveis e perda de qualidade de vida. O diagnóstico precoce e a terapêutica correta são divisores de águas para mudar esse desfecho. Ciente disso, Santo André estabeleceu parceria com a Boehringer Ingelheim no Projeto Abraçar. A iniciativa visa romper a fragmentação assistencial e estabelecer as bases técnico-operacionais para a futura implementação da Linha de Cuidado. O foco é migrar do atendimento de crise para um modelo de monitoramento longitudinal, preparando o sistema para um fluxo assistencial eficiente e sustentável na rede municipal de saúde.
Qualificar a rede municipal para o diagnóstico precoce e o tratamento correto da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, visando a interrupção do ciclo de exacerbações e a consequente diminuição da morbimortalidade por DPOC. Capacitar os profissionais da Atenção Primária para o manejo clínico resolutivo e contínuo, superando o modelo de atendimento reativo. Estruturar o suporte diagnóstico e a estratificação de risco como pilares técnicos para a futura implementação da Linha de Cuidado. Otimizar a gestão de fluxos assistenciais, garantindo agilidade no acesso a espirometrias e eficiência no monitoramento das filas de espera.
A estratégia fundamentou-se na reestruturação dos processos assistenciais e na integração da rede, dividida em cinco eixos operacionais: 1.Educação Permanente e Matricial: Realização de capacitações técnicas abrangendo mais de 50% dos médicos da Atenção Primária (APS). Adicionalmente, foram executados 03 ciclos de matriciamento com 18 médicos Responsáveis Técnicos (RTs) das Unidades Básicas de Saúde, fortalecendo a governança clínica local. 2.Suporte Diagnóstico e Estratificação: Oferta de 1.316 espirometrias. Após os exames, os pacientes foram submetidos à estratificação de risco, permitindo um planejamento terapêutico condizente com a gravidade do quadro. 3.Integração Urgência-APS via Busca Ativa: Implementação de um fluxo de monitoramento sistemático para pacientes que acessam as UPAs em quadros de exacerbação sob o CID de DPOC. Estes indivíduos são identificados e convocados ativamente para a realização de espirometria, transformando o episódio agudo em oportunidade de inserção no cuidado longitudinal. 4.Gestão de Casos Complexos: Convocação prioritária de 90 pacientes identificados com risco grave, garantindo agilidade no acesso ao tratamento especializado. 5.Monitoramento e Fluxo: Implementação de indicadores de acompanhamento e monitoramento das filas de espera para garantir a eficiência entre a suspeita clínica e o início do tratamento.
•Os resultados evidenciam um impacto direto e mensurável na rede de saúde de Santo André. Conforme dados do TABNET/DATASUS, a taxa de mortalidade por DPOC, que era de 11,48%, apresentou redução significativa para 9,22%. Esse declínio é acompanhado por uma otimização da ocupação leitos: o tempo médio de internação por causas respiratórias caiu de 7,9 dias (2024) para 7,6 dias (2025). •A eficácia da busca ativa e do manejo contínuo reflete-se, sobretudo, no volume de hospitalizações. O município registrou uma queda drástica nas internações totais por DPOC, reduzindo de 209 casos em 2024 para 141 em 2025. Essa redução de aproximadamente 32% nas internações demonstra que a qualificação da APS e o diagnóstico precoce via espirometria foram eficazes em evitar exacerbações graves. •A consolidação desses indicadores, somada à capacitação de mais de 50% dos médicos da rede e ao matriciamento focado em casos graves, resultou na conquista do Selo Esmeralda do Projeto Abraçar. O reconhecimento valida Santo André como referência na gestão de doenças crônicas, provando que a integração entre Urgência (UPA) e Atenção Primária é o caminho para a eficiência assistencial e a sustentabilidade do SUS local.
A experiência do Projeto Abraçar em Santo André demonstra que a superação do modelo de atenção reativo às crises respiratórias exige uma mudança estrutural na cultura assistencial. Ao identificar o paciente na UPA e vinculá-lo à investigação diagnóstica na APS, o município rompe o ciclo de exacerbações e internações evitáveis, garantindo que o diagnóstico precoce e o tratamento correto sejam, de fato, ferramentas de redução da morbimortalidade por DPOC. O alcance do Selo Esmeralda simboliza não apenas o cumprimento de metas, mas a maturidade de uma gestão que prioriza a integração da rede e a qualificação de seus profissionais. Embora a Linha de Cuidado formal seja o próximo passo, as bases técnico-operacionais estabelecidas — através de protocolos, matriciamentos e ampliação do acesso à espirometria — garantem que Santo André já opere sob a lógica da integralidade. Conclui-se que parcerias que aliam consultoria técnica e capacitação profissional são fundamentais para a sustentabilidade do SUS, transformando a jornada do paciente e promovendo uma assistência respiratória digna, contínua e eficiente.
DPOC, APS, Diagnóstico Precoce
DANYELA CASADEI DONATELLI, ANA PAULA MOINO JANOTI, MARCIO RENEI SILVA SANTOS, VANESSA MARGARIDO DOS SANTOS HENRIQUES