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A Atenção Domiciliar (AD) é componente estratégico da Rede de Atenção à Saúde por favorecer desospitalização, continuidade do cuidado e redução de complicações associadas à internação prolongada. Em Rancharia-SP, o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD), com equipe multiprofissional de Atenção Domiciliar (EMAD) e Equipe Multiprofissional de Apoio (EMAP), foi implantado em 12/2023, habilitado no Programa Melhor em Casa. No início, embora a equipe ingressasse nos domicílios e na intimidade dos usuários, o cuidado era marcado por abordagem mais tecnicista, pouca escuta e baixa integração com a Atenção Básica e o hospital, o que limitava a construção de vínculo, a corresponsabilização com as famílias e o reconhecimento do serviço pela rede. Em 2025, a Secretaria Municipal de Saúde decidiu priorizar a reestruturação do EMAD/EMAP, compreendendo que a AD exige não apenas procedimentos no domicílio, mas uma postura de acolhimento, diálogo e respeito ao modo de vida de cada família. Foram beneficiados principalmente usuários restritos ao leito ou ao lar, em cuidados paliativos, reabilitação, pós-operatório e com lesões crônicas de difícil cicatrização, bem como seus cuidadores, que passaram a contar com uma equipe mais presente, acessível e sensível às suas necessidades. A experiência busca qualificar o cuidado, reduzir internações evitáveis e garantir maior segurança e humanização nas transições entre hospital, UBS e casa.
Descrever a experiência de reestruturação do Serviço de Atenção Domiciliar em Rancharia, ao longo de 2025, evidenciando como a reorganização da equipe EMAD/EMAP, a implantação de protocolo municipal, a produção de materiais de apoio, a aproximação com as equipes de Estratégia Saúde da Família e a integração com o hospital, incluindo visitas domiciliares pré-altas, contribuíram para ampliar e qualificar o acesso aos atendimentos domiciliares, ordenar os fluxos entre AD1, AD2 e AD3, fortalecer o cuidado acolhedor e centrado na pessoa no domicílio, reduzir o tempo de recuperação clínica de pacientes acompanhados e aumentar a segurança do paciente e de seus cuidadores nas diferentes etapas da trajetória assistencial.
Trata-se de relato de experiência da gestão municipal e da equipe EMAD/EMAP na reestruturação da Atenção Domiciliar em Rancharia ao longo de 2025, apoiado em análise descritiva de dados secundários. Foram utilizados o Protocolo de Serviço de Atenção Domiciliar EMAD/EMAP, o Manual Rápido do EMAD e relatórios oficiais de “Atendimento domiciliar – série histórica” do Ministério da Saúde, referentes ao período de 01/01/2025 a 30/09/2025, da equipe 0002410370 – UBS EMAD. As ações incluíram: elaboração e aprovação do protocolo municipal, detalhando modalidades AD1, AD2 e AD3, composição de equipe, fluxos intra e extra-hospitalares, instrumentos e indicadores; produção e divulgação de manual rápido com critérios práticos de elegibilidade e uso do IAEC-AD; reorganização da equipe, com 3 técnicos de enfermagem, enfermeira, médico e EMAP com psicologia, nutrição, fonoaudiologia, serviço social e fisioterapia. Realizaram-se reuniões com ESFs para apresentação do serviço, discussão de casos e pactuação de fluxos, além de implantação de consultorias para lesões crônicas complexas. Com o hospital, estruturou-se comunicação rotineira e visitas domiciliares pré-altas, para avaliar domicílio e orientar cuidadores antes do retorno do paciente para casa.
Entre janeiro e setembro de 2025, a equipe EMAD de Rancharia registrou 3.596 atendimentos domiciliares, segundo série histórica do Ministério da Saúde. Houve crescimento progressivo: 888 atendimentos no 1º trimestre (227 em jan, 324 em fev, 337 em mar), 1.151 no 2º trimestre (420 em abr, 322 em mai, 409 em jun) e 1.557 no 3º trimestre (479 em jul, 457 em ago, 621 em set). O aumento de cerca de 75% entre o 1º e o 3º trimestre coincidiu com a consolidação da nova equipe, o funcionamento efetivo do EMAP e a implantação dos fluxos previstos no protocolo. Mais do que o aumento numérico, a reestruturação trouxe mudança na forma de cuidar. A nova equipe passou a investir em escuta qualificada, explicação de condutas, respeito ao tempo das famílias e construção de planos de cuidado compartilhados. A inclusão de enfermeira estomaterapeuta e as consultorias em lesões crônicas ampliaram a capacidade de manejo de feridas complexas e estomias, com uso mais adequado de insumos e acompanhamento mais próximo, refletindo-se em redução do tempo de recuperação clínica, especialmente em pós-operatórios e feridas crônicas. A integração com o hospital, por meio de visitas domiciliares pré-altas, favoreceu altas mais seguras, nas quais a família já conhecia a equipe que a acompanharia em casa. Relatos de usuários e cuidadores apontam maior sensação de acolhimento, confiança e apoio, contrastando com a percepção anterior de um cuidado mais distante e centrado apenas em procedimentos.
A experiência de Rancharia mostra que a consolidação da Atenção Domiciliar depende de investimento em equipe multiprofissional estável, clareza de fluxos e integração real com a rede, mas também de uma mudança de postura no modo de estar na casa do outro. A reestruturação de 2025, com protocolo municipal, manual rápido, reorganização do trabalho e aproximação de ESFs e hospital, resultou em aumento expressivo da produção de atendimentos domiciliares, qualificação do cuidado a casos complexos, redução do tempo de recuperação de pacientes acompanhados e maior segurança nas transições entre hospital e domicílio, sem perder de vista o acolhimento e o respeito às singularidades de cada família. A presença da enfermeira estomaterapeuta e das consultorias em lesões crônicas evidenciou o potencial do EMAD para atuar tanto em cuidado direto quanto em apoio matricial à Atenção Básica, valorizando o diálogo e a construção compartilhada de planos terapêuticos. Como desafios, permanecem o monitoramento sistemático de desfechos (reinternações, mortalidade, satisfação), o fortalecimento de indicadores próprios da AD e a continuidade da educação permanente, para sustentar uma prática tecnicamente qualificada, sendo humana e centrada na pessoa.
REGULAÇÃO E REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE (RAS)
AMANDA DE ARAÚJO FONTES, LARISSA GALINDO CASÇÃO DAS FLORES