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A experiência foi desenvolvida na UBS Paulo Maneta, localizada no distrito do Cipó, no município de Embu-Guaçu (SP). O distrito conta com três UBS, sendo a Paulo Maneta a maior, com quatro equipes de Estratégia Saúde da Família. A unidade enfrentava elevada pressão assistencial, baixa articulação de grupos terapêuticos e dificuldades de integração intersetorial, além de desassistência relativa da rede secundária e distância geográfica do centro municipal, onde se concentram equipamentos como o CAPS. Observa-se na APS aumento expressivo de manifestações de sofrimento psíquico, frequentemente apresentadas por meio de sintomas somáticos, dor crônica e queixas inespecíficas, exigindo que a equipe se aproprie de estratégias territoriais resolutivas. O grupo “Mente Serena” surgiu como resposta à necessidade de ampliar acesso, implantar PICS (inexistentes até então na unidade) e estruturar cuidado em saúde mental que não dependesse do deslocamento para outros serviços, preservando vínculo, longitudinalidade e coordenação do cuidado no próprio território.
Mapear pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental no território adscrito; ofertar cuidado estruturado, multiprofissional e longitudinal; ampliar o acesso e contribuir para redução da pressão sobre a agenda médica; descentralizar o cuidado da lógica exclusivamente ambulatorial médico-psicológica; implantar e consolidar a oferta de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) como tecnologia estruturante do cuidado na APS.
Inicialmente foi estruturada a equipe multiprofissional (médica de família e comunidade (MFC), psicólogas, enfermeira, assistente social, agente comunitária de saúde e administrativo). Realizou-se edição piloto do grupo destinada aos profissionais da unidade, estratégia de tradução do conhecimento e engajamento por pares, permitindo apropriação do modelo e adesão da equipe. Definiu-se frequência semanal, com duração de três horas: uma hora de atividade coletiva temática e duas horas destinadas à triagem e atendimentos individuais. As atividades coletivas foram organizadas em blocos mensais: manifestações corporais do sofrimento mental e integração mente-corpo (agosto); sofrimento mental livre de preconceitos (setembro); formação da consciência e desenvolvimento humano (outubro); técnicas de relaxamento (novembro); encerramento e elaboração simbólica (dezembro); organização e planejamento de vida (janeiro e fevereiro). Na primeira participação, realiza-se triagem com aferição de sinais vitais, dados antropométricos, anamnese simplificada e aplicação dos instrumentos PHQ-9, GAD-7 e GDS. Conforme estratificação, ofertam-se cuidados em grupo, PICS (auriculoterapia, aromaterapia, cranioacupuntura, ventosa, entre outras), consultas individuais (MFC, psicologia, enfermagem, serviço social), ajustes medicamentosos, solicitação de exames, agulhamento seco e encaminhamentos quando necessários. O plano é pactuado e registrado, com reavaliação das escalas a cada seis meses.
No período analisado (26 encontros), participaram aproximadamente 70 usuários. A média de participação foi de 4–5 encontros por participante (mediana de 3). Observou-se predomínio feminino (85–90%), com média etária estimada entre 55–60 anos e mediana na faixa de 58–60 anos, configurando perfil majoritário de mulheres adultas maduras e idosas, frequentemente com multimorbidades. A maior proporção racial registrada foi branca, com importante sub-registro nos formulários. Os escores iniciais indicaram sofrimento relevante: PHQ-9 com média entre 9–12 pontos (variação 0–22), perfil predominante de depressão leve a moderada; GAD-7 com média entre 10–12 pontos (variação 0–21), sugerindo ansiedade moderada; GDS com média de 3–5 pontos, com casos ≥6. Portanto, não se trata de grupo de sofrimento leve exclusivamente, havendo casos moderados e graves. Foram registradas 623 intervenções PICS, 72 intervenções biomédicas tradicionais, 53 atendimentos individuais formais e 71 outras ações. As PICS representaram mais de 70% das ofertas, sendo auriculoterapia e aromaterapia as mais frequentes. Participantes que receberam PICS apresentaram média de frequência de 2,79 encontros, enquanto aqueles que não receberam tiveram média de 1,00, sugerindo forte associação entre oferta de PICS e retenção. A MFC foi a profissional com maior número de atendimentos individuais (23), seguida por psicologia (15) e assistência social (12).
O grupo transformou a lógica do cuidado em saúde mental na UBS, deslocando o modelo de atendimento ambulatorial fragmentado para uma estratégia territorial estruturada na APS. Implantou com sucesso as PICS na unidade e consolidou fluxo multiprofissional resolutivo, servindo como modelo para expansão de grupos temáticos no município. Observou-se maior retenção de mulheres adultas e idosas com multimorbidades; participantes que compareceram apenas uma vez eram, em média, mais jovens e predominantemente homens. A correlação entre oferta de PICS e maior frequência sugere seu papel estratégico na vinculação. Recomenda-se intensificar oferta qualificada de PICS no primeiro encontro, realizar busca ativa precoce para frequência única e fortalecer participação dos ACS. Não se propõe alterar o foco etário prioritário, mas avaliar estratégias complementares para públicos mais jovens. A experiência reafirma a potência organizadora da APS na saúde mental territorial.
Atenção Primária à Saúde; Saúde Mental; Acesso
SANNI SILVINO PARENTE, NATASHA SCOLARI TAVEIRA DE MAGALHÃES, YURI JEFF MARTINS DA SILVA, SARA MENDES DE MATOS, JADERLINA FERNANDES MARQUES, JANE DE SOUZA DOMINGUES, ALICE MOREIRA NEVES PEDRÃO, ELIANE ALVES FARIA, HASLLA NATALIE DE BARROS OLIVEIRA