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A Atenção Primária à Saúde (APS) ocupa posição estratégica no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável pela coordenação do cuidado e pela concretização dos princípios da universalidade, integralidade e equidade no território. Os indicadores de qualidade do Ministério da Saúde, vinculados ao componente de qualidade do cofinanciamento federal da APS, constituem importante referência para avaliação das boas práticas assistenciais. Contudo, seu uso tradicionalmente ocorre de forma retrospectiva, após o encerramento oficial dos ciclos avaliativos, restringindo seu potencial como instrumento de gestão em tempo oportuno. No município de Marília (SP), observou-se que as equipes apresentavam baixa familiaridade com o uso sistemático dos indicadores como ferramenta estruturante de planejamento e qualificação do cuidado. Em 21 de maio de 2025, com a publicação das Notas Técnicas que definiram os novos indicadores e as boas práticas da APS, a gestão municipal iniciou movimento de antecipação estratégica. Em junho de 2025, mesmo antes da divulgação oficial da metodologia completa de cálculo, foi implantado painel municipal de monitoramento contínuo, alimentado por extração diária da produção assistencial registrada nos sistemas oficiais de informação. A iniciativa aproximou os indicadores do cotidiano das equipes e implantou novo padrão de gestão baseada em evidências no SUS municipal.
Implantar e consolidar o uso contínuo dos indicadores de qualidade do Ministério da Saúde como instrumento estruturante da gestão da Atenção Primária à Saúde em Marília, por meio da extração diária da produção assistencial, democratização do acesso às informações e qualificação das equipes para sua utilização. Especificamente, buscou-se ampliar a capacidade das equipes de interpretar e utilizar os indicadores de boas práticas; permitir acompanhamento em tempo real antes do fechamento oficial; apoiar o planejamento local das ações; fortalecer o cuidado longitudinal; e ampliar a resolutividade da APS.
A experiência estruturou-se a partir da criação de um painel municipal de indicadores, coordenado pelos integrantes da Gestão da Atenção Primária à Saúde do município, com base nas metodologias ministeriais e nas boas práticas definidas nas Notas Técnicas publicadas em maio de 2025. O painel foi disponibilizado já em junho, mesmo antes da divulgação oficial dos cálculos ministeriais, sendo posteriormente ajustado conforme as definições metodológicas oficiais. Os dados passaram a ser alimentados por extração diária da produção assistencial registrada nos sistemas oficiais de informação, processados pelo Núcleo de Informações e disponibilizados via intranet a todas as unidades da APS. Os indicadores foram organizados de forma visual, objetiva e acessível, contemplando equipes de Saúde da Família, com foco no acompanhamento de grupos prioritários e na indução de boas práticas. Diante da baixa familiaridade prévia com o uso de indicadores, estruturou-se processo contínuo de educação permanente e apoio institucional, incluindo encontros formativos, reuniões sistemáticas de análise, acompanhamento das equipes multiprofissionais e visitas técnicas às unidades. Instituiu-se, assim, rotina permanente de monitoramento, análise crítica e intervenção antes do fechamento oficial dos ciclos avaliativos.
A implantação do painel transformou o monitoramento da Atenção Primária municipal, convertendo indicadores retrospectivos em instrumento ativo de gestão e qualificação do cuidado. A média geral das unidades evoluiu de 5,63 no primeiro quadrimestre para 5,97 no terceiro, representando crescimento absoluto de 0,33 pontos e incremento percentual de 5,95% no desempenho global da rede. Paralelamente à evolução da média, observou-se qualificação expressiva do registro assistencial. Durante as capacitações, profissionais relataram desconhecimento quanto ao correto registro das ações vinculadas às boas práticas. Com o monitoramento contínuo, houve aprimoramento dos registros, correção de inconsistências e ampliação da identificação de cidadãos ainda não vinculados pelos agentes comunitários de saúde, fortalecendo a territorialização e a fidedignidade dos dados. Os indicadores passaram a identificar nominalmente pessoas fora das boas práticas preconizadas, como crianças sem puericultura regular, gestantes com seguimento incompleto e idosos sem atendimento anual, permitindo busca ativa direcionada, reorganização de agendas e fortalecimento do cuidado longitudinal. Consolidou-se cultura institucional de monitoramento permanente, intervenção precoce e responsabilidade sanitária sobre a população adscrita.
A experiência evidencia que o uso estratégico e contínuo dos indicadores de qualidade, associado à extração diária da produção assistencial e à coordenação institucional da APS, constitui ferramenta estruturante para qualificar a gestão e o cuidado no SUS municipal. Ao antecipar o uso dos dados e traduzi-los em situações concretas de cuidado, foi possível fortalecer a corresponsabilização das equipes, promover intervenções mais oportunas e induzir cultura permanente de gestão baseada em evidências. O monitoramento contínuo consolidou-se como prática institucional da gestão da APS em Marília, configurando modelo replicável para municípios que buscam qualificar o cuidado por meio do uso inteligente dos dados oficiais.
Gestão da Atenção Primária, Indicadores de Saúde.
VIVIAN MARTINELLI FUNAI, JULIANA CARVALHO BORTOLETTO GOMES, PRISCILA PERES TRASKINI MOURÃO, HUDISON SOARES BEZERRA