Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A Atenção Primária à Saúde (APS), como ordenadora das redes e coordenadora do cuidado no SUS, exige que as equipes compreendam o território como um espaço vivo, produtor de saúde, sofrimento e resistência. Nesse contexto, a escuta qualificada torna-se eixo fundamental, pois permite captar as necessidades reais das pessoas e coletivos. Quando sistematizada, transforma-se em potente ferramenta de vigilância e planejamento em ato. Associada à cogestão e à participação social, fortalece o cuidado compartilhado, amplia vínculos e reconhece o protagonismo do território. Em Guarulhos/SP, a equipe da UBS Continental vem implementando, ao longo de 2025, uma proposta que valoriza a escuta ativa como tecnologia leve e estratégica, articulando-a com o cotidiano do trabalho em saúde. Esta experiência se justifica pela necessidade de reorganizar práticas, superar barreiras de acesso, identificar demandas invisíveis e consolidar um SUS mais responsivo, democrático e centrado na vida real das pessoas.
Apresentar a experiência da UBS Continental, em Guarulhos/SP, que adota a escuta ativa como tecnologia leve e estratégica para reorganizar o processo de trabalho na Atenção Primária à Saúde. A proposta busca qualificar o cuidado por meio da escuta cotidiana das necessidades dos usuários, identificar demandas ocultas do território, ampliar a participação social e fortalecer a corresponsabilização entre equipe e comunidade. Ao sistematizar as escutas e integrá-las aos espaços de cogestão e ao Conselho Gestor, pretende-se consolidar um modelo de planejamento em ato, sensível às singularidades locais e alinhado aos princípios da integralidade, da equidade e da democracia no SUS.
Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa e descritiva, realizado pela equipe da UBS Continental, em Guarulhos/SP, ao longo do ano de 2025. A escuta ativa foi incorporada como prática transversal da atenção e do planejamento, operacionalizada em diversos dispositivos: acolhimento com classificação de risco, visitas domiciliares, reuniões de equipe, grupos temáticos (saúde mental, gestantes, doenças crônicas, puericultura), rodas de conversa e escutas abertas com usuários e lideranças locais. As narrativas emergentes são sistematizadas em espaços de cogestão e levadas ao Conselho Gestor da unidade, ampliando a escuta institucionalizada e comunitária. O estudo baseia-se nos princípios da clínica ampliada, da territorialização e do trabalho vivo em ato, e busca construir uma prática contínua de planejamento compartilhado e responsivo às realidades do território.
A escuta ativa tem revelado demandas invisibilizadas, como sofrimento psíquico, barreiras de acesso, violências e desinformação. Com base nas escutas sistematizadas, a equipe iniciou ajustes no processo de trabalho: reorganização de horários de acolhimento, criação de fluxos específicos para saúde mental, reestruturação de grupos, ampliação das visitas domiciliares e articulações com escolas e equipamentos públicos do território. As decisões estão sendo pactuadas internamente e com o Conselho Gestor, o que fortalece o protagonismo local. A proposta também estimulou maior participação da comunidade nas ações da UBS e nos espaços de controle social. Embora em andamento, os efeitos da iniciativa já são perceptíveis na melhoria do vínculo com os usuários, na identificação precoce de situações de vulnerabilidade e na construção de um cuidado mais integral, humanizado e compartilhado.
A experiência demonstra que a escuta ativa pode ser mais do que um dispositivo clínico: ela é um eixo estruturante da atenção e do planejamento em saúde. Ao reconhecer o território como sujeito político e parceiro no cuidado, a proposta fortalece vínculos, promove corresponsabilidade e qualifica as práticas da APS. Mesmo em fase de implementação, a ação tem potencial de replicabilidade e inspira novas formas de fazer saúde com e no território. Ouvir o território é, sobretudo, reconhecer sua potência transformadora. Trata-se de uma prática que inspira, conecta e cuida — reafirmando um SUS vivo, democrático e atento às necessidades reais da população.
Escuta ativa; APS; Planejamento; Território; SUS
MARIA VICTÓRIA FERREIRA DE SOUZA VIEIRA DA CUNHA, MARIA CAROLINA MARCO ALDRIGHI NUNES, CLAUDIA DENIZ ROMANZINI, RODRIGO ALMADA DE ARAUJO