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O alerta para a circulação da febre amarela, emitido no início de 2025, exigiu resposta imediata dos serviços de saúde, especialmente em territórios rurais mais vulneráveis. A UBS Chácara Santo Amaro está localizada no extremo sul do município e abrange área rural de aproximadamente 40 km², com 6.700 habitantes distribuídos em 3.000 famílias residentes em sítios, chácaras e comunidades isoladas. As características do território, como áreas de mata, longas distâncias entre os domicílios e circulação frequente de animais silvestres e domésticos, ampliam o risco para agravos como febre amarela, febre maculosa e raiva. A identificação da circulação do vírus da febre amarela associada à ausência de comprovação vacinal entre parte expressiva da população adulta evidenciou a necessidade de ação imediata, considerando que muitos moradores não possuíam registro vacinal atualizado ou nunca haviam recebido a dose recomendada, aumentando o risco coletivo. Em outubro de 2025, o território apresentou óbito confirmado por raiva em animal de produção, além de outros óbitos suspeitos e relatos de possível exposição humana, caracterizando epizootia e demandando nova resposta organizada. A experiência demonstrou a importância do microplanejamento como ferramenta capaz de sustentar ações em momentos distintos, orientar respostas oportunas e integradas no SUS municipal, beneficiando a população rural e envolvendo equipes da Atenção Básica, Vigilância em Saúde, Zoonoses e unidades de apoio.
Realizar varreduras territoriais para febre amarela e raiva, em momentos distintos, utilizando o microplanejamento como ferramenta para organizar o território, identificar áreas de risco e garantir que a população rural fosse alcançada e protegida frente às epizootias identificadas.
A experiência foi desenvolvida em dois momentos distintos: a varredura para febre amarela, realizada entre janeiro e março de 2025, e a varredura para raiva, realizada em outubro de 2025. Ambas as ações foram organizadas a partir do microplanejamento do território, que orientou o diagnóstico das áreas prioritárias, o planejamento das rotas e a distribuição das equipes conforme o grau de vulnerabilidade e dificuldade de acesso.Participaram das ações profissionais da UBS Chácara Santo Amaro, Agentes Comunitários de Saúde, Vigilância em Saúde, equipe de Zoonoses e equipes de apoio de outras UBS do território da Capela do Socorro. As atividades ocorreram diretamente no território rural, abrangendo sítios, chácaras e comunidades isoladas. O Formulário F12 da planilha de microplanejamento foi utilizado como instrumento de registro e acompanhamento, permitindo o controle dos domicílios visitados, a verificação da situação vacinal dos moradores e, no caso da raiva, o registro da presença e condição vacinal dos animais domésticos e de produção. Foram realizadas visitas domiciliares com busca ativa, conferência de cadernetas e sistemas de informação, aplicação da vacina contra febre amarela quando indicada, identificação de animais não vacinados e orientações às famílias sobre prevenção da febre amarela, febre maculosa e raiva. As situações de risco foram comunicadas à Vigilância em Saúde para as providências necessárias.
Na varredura para febre amarela, foram visitados aproximadamente 2.450 domicílios, com avaliação de 1.980 pessoas e aplicação de 790 doses da vacina, garantindo cobertura completa das microáreas da UBS e redução de bolsões de suscetíveis no território rural.Na varredura para raiva, realizada em outubro de 2025, foram identificadas 594 pessoas elegíveis para vacinação antirrábica humana. Destas, 131 receberam a primeira dose e 191 a segunda dose, alcançando cobertura de 57,37% para D2. Foram registradas 42 recusas e 204 imóveis fechados ou com ausência de moradores no momento da ação. Todas as 67 propriedades com animais de produção foram visitadas, com registro de 49 bovinos, 87 caprinos e ovinos, 157 equinos e 124 suínos. Em relação a cães e gatos, 640 animais encontravam-se vacinados e 160 não vacinados.De forma qualitativa, as ações fortaleceram o vínculo da UBS com as comunidades mais distantes, ampliaram a percepção de risco da população e aprimoraram a vigilância territorial, com aumento de relatos de animais silvestres, suspeitas de exposição e notificações de situações consideradas de risco.
A experiência demonstrou que o microplanejamento é uma estratégia eficaz e sustentável para a organização de ações em territórios rurais de difícil acesso. O uso do mesmo processo de planejamento em momentos distintos, para o enfrentamento de epizootias diferentes, evidenciou sua capacidade de apoiar respostas rápidas, organizadas e integradas entre Atenção Básica, Vigilância em Saúde e Zoonoses. Os principais desafios estiveram relacionados às longas distâncias, às dificuldades de acesso e à ausência de registros vacinais, superados por meio do planejamento territorial, da integração entre equipes e da presença ativa no território. Para a equipe, a experiência contribuiu para o fortalecimento do processo de trabalho e maior domínio das ferramentas de microplanejamento. Para o SUS municipal, ampliou a proteção da população, fortaleceu a vigilância territorial e demonstrou potencial de replicação em outros territórios com características semelhantes.
Microplanejamento, Epizootias, Febre Amarela,Raiva
ROSEMARY APARECIDA DOS SANTOS, ELMALIS DE BRITO GODOI, ALTINO BERNARDO DE MORAIS JUNIOR