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A violência interpessoal constitui fenômeno complexo e persistente, com repercussões sanitárias, sociais e econômicas relevantes para o Sistema Único de Saúde (SUS). No âmbito municipal, a Atenção Primária à Saúde (APS) é estratégica para identificação precoce, notificação compulsória e coordenação do cuidado. Tradicionalmente centrada no procedimento clínico, a saúde bucal ainda é pouco reconhecida como ponto estratégico na vigilância das violências, embora grande parte das agressões físicas envolva a região orofacial. Nesse contexto, os Auxiliares de Saúde Bucal (ASB) ocupam posição singular no processo de cuidado, por sua proximidade com os usuários, atuação no acolhimento inicial e permanência durante o atendimento odontológico. A experiência foi desenvolvida no município de Marília/SP, na rede de APS, a partir de outubro de 2025, permanecendo em curso. Foi conduzida pelo Núcleo de Prevenção e Cuidado às Pessoas em Situação de Violência (PREVIO), em articulação com a coordenação de saúde bucal, tendo como público direto os Auxiliares de Saúde Bucal das Unidades de Saúde da Família. A proposta reposiciona o ASB como ator estratégico na vigilância das violências, incorporando a Comunicação Não Violenta (CNV) como ferramenta estruturante de humanização, escuta qualificada e proteção no território.
Reposicionar os Auxiliares de Saúde Bucal da Atenção Primária à Saúde como atores estratégicos na vigilância, identificação e cuidado às pessoas em situação de violência, incorporando de forma estruturada a Comunicação Não Violenta à sua prática cotidiana, a fim de qualificar o acolhimento, ampliar a detecção precoce de sinais orofaciais e comportamentais sugestivos de violência, integrar formalmente o ASB à linha municipal de cuidado às violências e fortalecer sua segurança técnica nos processos de registro, notificação e encaminhamento.
Trata-se de relato de experiência estruturado como estratégia de inovação organizacional na APS de Marília/SP, com foco exclusivo nos Auxiliares de Saúde Bucal. A condução ocorreu por meio do PREVIO, em parceria com a coordenação de saúde bucal. Foram realizados encontros formativos direcionados aos ASB das unidades de APS. As atividades contemplaram: abordagem conceitual sobre violência como agravo de notificação compulsória; aplicação prática dos quatro componentes da Comunicação Não Violenta; discussão de situações reais vivenciadas pelos ASB no acolhimento e na rotina do consultório odontológico; identificação de sinais clínicos orofaciais e comportamentais sugestivos de violência; e orientação sobre registro adequado, notificação no SINAN e fluxos de encaminhamento à rede de proteção. A iniciativa consolidou o reconhecimento do ASB como elo estratégico entre usuário, equipe de saúde bucal, APS e PREVIO, incorporando a temática da violência como eixo transversal da prática auxiliar.
A experiência produziu fortalecimento do papel dos Auxiliares de Saúde Bucal na vigilância das violências no território, ampliando sua percepção sobre responsabilidade sanitária e proteção social. Observou-se maior segurança na abordagem inicial de situações sensíveis, qualificação da escuta e postura mais empática no contato direto com usuários. Os ASB relataram maior capacidade de reconhecer sinais físicos e comportamentais sugestivos de violência e de comunicar à equipe de forma técnica e ética. Institucionalmente, houve fortalecimento da integração entre ASB, equipes de APS e PREVIO, qualificando fluxos de notificação e reduzindo fragmentação assistencial. Qualitativamente, verificou-se valorização do papel do ASB como agente ativo na integralidade do cuidado, ampliando sua inserção na linha municipal de vigilância das violências.
A experiência evidencia que os Auxiliares de Saúde Bucal podem ocupar papel estratégico na vigilância e prevenção das violências na Atenção Primária à Saúde. Ao incorporar a Comunicação Não Violenta como tecnologia relacional, o ASB fortalece o acolhimento humanizado, amplia a capacidade de identificação precoce e contribui de forma efetiva para a proteção das pessoas em situação de violência. A consolidação dessa abordagem representa avanço na valorização da categoria e na qualificação da APS como coordenadora da rede de cuidado. Como desafios, destacam-se a necessidade de institucionalização permanente das ações formativas e a ampliação do protagonismo do ASB nas políticas municipais de vigilância das violências.
Violência; Saúde Bucal; Atenção Primária a Saúde.
FABIANA MARTINS, ANDREA UCHIDA, MARCOS ANTONIO GIROTTO, ELIANA PEREIRA DA SILVA, ELISABETE APARECIDA CAETANO FERREIRA