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Segundo o Instituto Brasileiro de Direito da Família há atualmente no Brasil cerca de 33.500 crianças e adolescentes em acolhimento institucional e familiar (2024). A maioria delas por motivos como negligência, violência, abandono, abuso sexual, carência de recursos e vivência nas ruas. A dependência química por álcool e drogas por parte dos pais é a segunda maior causa desse acolhimento. As mães usuárias fogem do padrão esperado e são estigmatizadas socialmente e julgadas como promíscuas, egoístas e incapazes. As experiências dessas mães nos serviços não são boas, pois são cheias de julgamentos negativos e reações hostis. São cobrados delas hábitos higienistas e de provimento. No entanto, para elas o cuidado inclui o amor materno insubstituível. Essas mães lutam, a sua maneira, para resgatar a guarda de seus filhos. Suas histórias de vida são marcadas por dor, culpa, medo, solidão e esperança. O CAPS AD de Assis desde sua inauguração em 03/04/2024, vem esbarrando nessa realidade: mães usuárias com filhos acolhidos. Essas mães vêm buscando orientações jurídicas, sociais e de saúde para terem seus filhos de volta. Pensando em organizar essa demanda surgiu a Oficina Tecendo Sentidos, que é ministrada por uma Educadora Social, formada em direito, com a finalidade de através da execução de trabalhos de arte que remetem a maternidade, ofertar um espaço de conversa e orientações para que essas mães possam refazer ou manter a vinculação com os filhos acolhidos e talvez reavê- los.
Através da execução de atividades artísticas que remetem a maternidade, rodas de conversa e orientações jurídicas, sociais e de saúde tentamos estimular a vinculação das mães usuárias com seus filhos acolhidos por meio de visitas supervisionadas e outros meios ( ligações, cartas, desenhos, etc.) , estimular essas mães ao retorno às atividades estudantis e mercado de trabalho, estimular o cuidado em saúde tendo a redução de danos como primórdio, facilitar a aproximação e vinculação com outros serviços da rede ( CRAS, CREAS, CT, Escolas e Casa de Acolhida), promovendo a independência dessas mães e posterior guarda de seus filhos.
As Oficinas são realizadas semanalmente, às quartas feiras das 8:30 às 10:00 horas nas dependências da sala de artes do CAPS AD de Assis. É conduzida por uma Educadora Social na área de artes e formada em Direito. Durante a oficina são confeccionados desenhos que remetem a maternidade e aos personagens infantis que os filhos tinham afinidade. Durante esse tempo as mães perguntam sobre as dúvidas comuns da vida, o porquê dos filhos terem sido acolhidos, como funciona o processo de acolhimento. Conversam sobre as mudanças de estilo de vida e comportamento que são cobrados e sobre as visitas aos seus filhos. Recebem orientações sobre cursos profissionalizantes, mercado de trabalho, renda social, documentações, moradia, convívio social e independência financeira.
Com o acompanhamento próximo das mães usuárias de AD que tem seus filhos acolhidos ou em eminência de acolhimento, percebemos que as mesmas têm uma resistência a frequentar os serviços de saúde durante os períodos de gestação e puerpério, devido ao medo de serem julgadas e perderem a guarda de seus filhos. Percebemos que os serviços sociais e de saúde não estão devidamente preparados para essa demanda e que reproduzem julgamentos negativos e reações hostis, o que dificulta a vinculação e possibilidades de cuidado. Observamos que as mães se preocupam muito com a provisão de necessidades da prole e cuidados de higiene e aparência como uma padronização social. Observamos a culpa e relação com o uso de álcool e drogas. Para elas a criança ver a mãe em uso de substâncias é considerado inadequado, porém não se sentem acolhidas em serviços para diminuir ou cessar esse uso. Percebemos que a perda do vínculo com os filhos acolhidos é motivo de sofrimento devido a culpa e a preocupação sobre os filhos sofrerem maus tratos nas casas de acolhimento ou famílias substitutas. Relatam e responsabilizam a justiça, as instituições e o Estado pelo rompimento de relações com seus filhos. Percebemos o interesse de reorganização de vida. E finalmente observamos o interesse em retornar a vinculação com seus filhos através do retorno das visitas supervisionadas e o bom relacionamento com a casa de acolhimento através das mudanças de vida das mesmas.
Através da Oficina Tecendo Sentidos percebemos como a realidade socio econômica, os limites de acesso de bens e serviços, os julgamentos por famílias pobres e pelo uso de drogas das mães, afeta a condição de poder de decisão pelo acolhimento ou não das crianças e adolescentes, tendo em vista o tipo de exigência institucional de padronização de cuidados exigido. Percebemos um impasse entre a vinculação da manutenção guarda dos filhos com a vinculação e obrigação a um tratamento de saúde: para algumas isso funciona, para outras a obrigação piora sua situação, e chegam a abandonar o tratamento vendo a impossibilidade de guarda de seus filhos. Percebemos o quanto os serviços de saúde, assistência social e jurídico precisam se alinhar e conversar sobre a individualidade de cada caso e traçar metas possíveis e de baixa complexidade para que essas mães sejam devidamente acolhidas e amparadas por cada serviço e através disso possibilitar a retomada de vínculo com seus filhos, pois o que as mães mais desejam é ter seus filhos no seu colo, no seu abraço, sob seu olhar, sentir seu cheiro e retomar seu cuidado de novo.
Mães, filhos, acolhimento judicial
CARMEM REGINA BRANCO MONTORO MARTINS, BEATRIZ BELAVENUTTI DELANTONIA, JULIANA SOARES DE SÁ CAVINA, MAYARA APARECIDA SERAFIM CAMPOS, JAQUELINE APARECIDA DOS SANTOS, LUDMILA OBERLAITNER RODRIGUES