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Diante da realidade do paradigma psiquiátrico hospitalocêntrico e medicalizador, a ideia do cuidado psíquico como especialidade isolada e o contexto da contrarreforma refletiram no desmonte dos serviços substitutivos territoriais de caráter comunitário, levando as pessoas a procurarem cuidado prioritariamente em serviços de urgência e emergência. Angústias do cotidiano pós-pandêmico, como ansiedades, lutos e depressões leves, resultaram no aumento da demanda nos serviços de acolhimento e pronto atendimento. Para promover um cuidado baseado na Atenção Psicossocial como ética territorial, propôs-se o rastreio dos casos que acessam os serviços municipais de urgência e emergência, a fim de ofertar e referenciar o cuidado realizado nos dispositivos comunitários substitutivos do território, tanto na Atenção Primária quanto nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Esse rastreio permite o levantamento e tratamento de dados, traçando o perfil epidemiológico e territorial dessas demandas, subsidiando ações de promoção e prevenção em saúde mental mais efetivas.
Estabelecer o redirecionamento do fluxo de cuidado de transtornos mentais comuns para a porta de entrada da Atenção Primária à Saúde, por meio da reorientação do paradigma da Atenção Psicossocial. Objetiva, ainda, desenhar em rede a diferenciação entre crise, casos agudos e emergências psiquiátricas, reforçando a responsabilidade sanitária da Atenção Primária à Saúde e combatendo vazios assistenciais de casos que acessam exclusivamente a urgência.
Por meio de formulário eletrônico, os serviços de urgência notificam todos os casos com queixas de saúde mental que acessam o atendimento. Os dados coletados são sistematizados pelo método Kanban e, mediante solicitação de redirecionamento, ocorre a busca ativa desses munícipes no território, com o objetivo de compreender a queixa, referenciá-la ao serviço de Atenção Primária e produzir itinerários terapêuticos com desfechos mais resolutivos nos diferentes pontos de atenção.
A utilização do rastreio como metodologia de notificação em rede produziu os seguintes resultados: •Redução do fenômeno da “porta giratória” nos serviços de urgência e emergência para casos de saúde mental que poderiam ser acolhidos em outros pontos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS); •Construção e organização de banco de dados estruturado pelo método Kanban, permitindo acompanhamento e registro mais efetivo dos desfechos construídos pela rede; •Levantamento de dados para construção de perfil epidemiológico em saúde mental dos usuários que acessaram os serviços de urgência e emergência municipais, considerando porta de entrada, território e organização temporal; •Impacto na redução de óbitos por suicídio, diminuição do consumo de medicação psiquiátrica e construção de série histórica territorial da epidemiologia em saúde mental no município.
Um ponto relevante decorrente dessa experiência foi a possibilidade de identificar concepções equivocadas acerca do cuidado em saúde mental no ambiente hospitalar como sendo mais efetivo e especializado, decorrentes da fetichização da especialidade, do ambiente hospitalar e do tratamento exclusivamente medicamentoso. Essas concepções são percebidas tanto na análise das informações epidemiológicas quanto no contato com usuários que acessam a urgência e emergência. A identificação dessa realidade possibilita maior efetividade nas ações de promoção da saúde e no fortalecimento de estratégias na Atenção Primária, ampliando espaços de educação em saúde e participação popular.
Saúde mental e Atenção Primária à Saúde
ANTONIELLA SANTOS VIEIRA, BÁRBARA BELLA URBAN, ERIVANDA BATISTA DE HOLANDA, SHEILA PITUBA DE OLIVEIRA