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O município de Fernão, interior do estado de São Paulo, possui 1.656 habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2022. Conta com uma única Unidade de Saúde da Família (USF), que inclui em sua equipe as especialidades de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. O grupo de reabilitação para pacientes com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) foi criado em 2017 e conduzido pela fisioterapeuta como continuidade do cuidado após a reabilitação individual. Ao longo dos anos contou com algumas parcerias. Em 2024, com a inserção da terapeuta ocupacional na equipe, o grupo foi fortalecido e ampliado. Atualmente, as atividades são desenvolvidas exclusivamente por essas profissionais da USF de Fernão. O atendimento coletivo voltado a esse público surgiu da necessidade de garantir a continuidade do cuidado após a reabilitação individual, uma vez que se trata de pacientes com condições crônicas que não podem permanecer sem acompanhamento. Esses usuários apresentam limitações funcionais decorrentes das sequelas neurológicas do AVC, como insegurança para deambular, risco aumentado de quedas, isolamento social e dificuldades na realização das atividades de vida diária (AVDs) e das atividades instrumentais de vida diária (AIVDs), condições que exigem um trabalho contínuo e atento às suas especificidades.
OBJETIVO GERAL Promover a autonomia, independência e participação social de pacientes com sequelas pós-AVC, por meio da reabilitação coletiva interdisciplinar realizada pela fisioterapia e terapia ocupacional. OBJETIVOS ESPECIFICOS •Organizar a linha de cuidado dos usuários com sequelas crônicas pós-AVC por meio da reabilitação coletiva, garantindo continuidade terapêutica. •Ampliar o acesso à reabilitação interdisciplinar, contribuindo para maior equidade no cuidado. •Promover longevidade com qualidade de vida, estimulando a manutenção funcional e prevenção de agravos. •Fortalecer a autoestima, o senso de pertencimento e a participação social dos usuários por meio da vivência coletiva, contribuindo para o bem-estar psicossocial no processo de reabilitação. •Contribuir para que o usuário desenvolva habilidades de autocuidado compatíveis com suas condições pós-AVC, favorecendo a adaptação às sequelas, o fortalecimento da autonomia e a reconstrução de sua identidade e papel social.
O acompanhamento se inicia por meio do atendimento individual nas especialidades. Após essa etapa inicial de reabilitação e diante da estabilização do quadro, com melhora do equilíbrio estático o usuário é inserido no grupo de reabilitação interdisciplinar. Atualmente, o grupo é composto por nove participantes, com idades entre 60 e 78 anos, sendo sete mulheres e dois homens, residentes de área urbana e rural. Para os usuários com maior limitação funcional, a Unidade de Saúde da Família disponibiliza o transporte, garantindo equidade no acesso ao cuidado. Os encontros ocorrem semanalmente, às terças-feiras, com duração mínima de uma hora e trinta minutos, conduzidos pela fisioterapeuta e pela terapeuta ocupacional. Embora realizados em formato coletivo, os atendimentos respeitam a individualidade de cada usuário, com adaptação e graduação das atividades conforme suas necessidades e capacidades. As intervenções integram exercícios motores, como alongamentos, fortalecimento muscular, treino de equilíbrio e de marcha, exercícios de dupla tarefa e circuitos funcionais, associados a atividades de estimulação cognitiva, habilidades de motricidade fina, jogos e dinâmicas. Cada encontro inclui momento de hidratação, diálogo em promoção da saúde e espaço de escuta, favorecendo vínculos e participação social. Também são preparados encontros temáticos, como Carnaval, Festa Junina, Natal e comemorações dos aniversariantes do semestre.
O trabalho desenvolvido tem apresentado resultados positivos na funcionalidade, autonomia e participação social dos usuários acompanhados. É possível observar melhora no equilíbrio e na segurança para deambulação, além da redução de queixas relacionadas a quedas. Os participantes passaram a desempenhar suas Atividades de Vida Diária (AVDs) com pouco ou nenhum suporte físico, evidenciando ganhos importantes no processo de reabilitação e na independência funcional. Do ponto de vista psicossocial, é observada a ampliação do convívio social e construção de vínculos entre os participantes, contribuindo para a redução do isolamento, frequentemente observado pós-AVC. O atendimento coletivo favoreceu o fortalecimento da autoestima, troca de experiências e o desenvolvimento do sentimento de pertencimento e maior adesão ao tratamento. Um exemplo desse impacto é uma paciente que começou a pintar no grupo, descobriu um novo hobby e passou a praticar em casa. O grupo veio como uma estratégia permanente de continuidade terapêutica na linha de cuidado ao paciente crônico pós-AVC no município, ampliando o acesso à reabilitação interdisciplinar no SUS local e promovendo maior equidade. A atuação conjunta da fisioterapia e terapia ocupacional fortaleceu o cuidado integral, possibilitando intervenções alinhadas às necessidades dos usuários e contribuindo para a promoção da longevidade com qualidade de vida.
Após anos de trabalho contínuo com o grupo, é possível concluir que o atendimento coletivo interdisciplinar de fisioterapia e terapia ocupacional é capaz de promover melhorias significativas na saúde, autonomia, adesão ao tratamento e qualidade de vida, preenchendo lacunas antes esquecidas e oferecendo longevidade com dignidade e significado. O grupo surge para devolver sentido à vida, pois após o AVC muitos usuários se percebem dependentes e desmotivados, situação que pode afetar sua saúde mental. Gradativamente, retomam ocupações, redescobrem hobbies, voltam a se sentir capazes e constroem novos vínculos de amizade, fortalecendo a autoestima e participação social. O atendimento coletivo permite ampliar o acesso à reabilitação no território de forma continua e ao mesmo tempo garantir a rotatividade dos atendimentos individuais. Desse modo, o serviço combina o cuidado individual e coletivo fortalecendo a continuidade do acompanhamento e a organização da linha de cuidado no SUS municipal.
AVC; Reabilitação; Atenção Primária; Equidade; SUS
MARIANE COUTO MARTINS, JULIANA FODRA DA SILVA