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O processo de transição da adolescência para a idade adulta compreende evento repleto de singularidades, que sofre interferência de um imaginário social e expectativas sociais, familiares e individuais; maior atribuição de autonomia em curso com responsabilidades, bem como o estabelecimento de novas posições sociais. (GUIMARÃES, 2023) Nesse sentido, a chegada de um jovem adulto em sofrimento psíquico no espaço terapêutico do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS Adulto é permeada por dificuldades e desconfortos no reconhecimento do espaço de cuidado: aspectos como estigmas sociais e diferenças geracionais podem tornar o processo de acolhimento e desenvolvimento de projeto terapêutico singular (PTS) desafiador para este jovem, fragilizado pela ocorrência de uma possível primeira crise psíquica e suas consequentes transformações, afastamentos e prejuízos no convívio social. (MILHOMENS e MARTIN, 2017; APS REDES, 2024) Frente à dificuldade observada pela equipe em relação a vinculação de jovens aos cuidados e espaços terapêuticos em CAPS Adulto, emerge a necessidade de criação de espaços terapêuticos e de convivência para tratar de questões que cursam em paralelo, e por vezes se entrelaçam: o ingressar à vida adulta, e a compreensão e lida sobre seu sofrimento mental. (APS REDES, 2024) Nessa perspectiva, em abril de 2024 foi criado o grupo de jovens adultos no CAPS II -Bem Viver, posteriormente nomeado ReCAPStulando.
O objetivo geral proposto é ser um grupo facilitador de acesso a estratégias terapêuticas e informações em saúde voltadas a jovens adultos de 18 a 35 anos, em sofrimento psíquico, acompanhados no centro de atenção psicossocial, com ênfase nos aspectos geracionais e desta faixa etária. Os objetivos específicos do grupo são: ● Permitir a expressão de ideias e sentimentos, a troca de experiências e a identificação de aspectos em comum, a partir de anseios específicos de sua faixa etária e de sua geração; ● Promover o processo de autoconhecimento e fortalecer a adesão ao tratamento em saúde mental; ● Exercitar a participação social, a circulação e o acesso ao trabalho, ao lazer, à participação político-social, à cultura e à cidadania. Por sua vez, o objetivo da escrita deste trabalho é divulgar a experiência considerada exitosa formulada no Centro de Atenção Psicossocial II – Bem Viver do município de Jundiaí-SP.
A proposta compreende grupo aberto, destinado a usuários de 18 a 35 anos em cuidados no CAPS II do município de Jundiaí-SP. As reuniões se dão em frequência semanal, com duração de uma hora. O grupo é conduzido por enfermeira e técnica de enfermagem da equipe técnica do CAPS, com eventual participação de demais técnicos, como psicólogo, assistente social e farmacêutica. A abrangência da faixa etária se deu a partir de marcos definidos por alguns autores que compreendem que a adultez jovem pode se estender até os 35 anos (FIORINI, MORÉ e BARDAGI,2017 apud ERIKSON, 1976), a partir de características como viver com os pais e estar solteiro, entre outros. (DEBERT, 2010) As condutoras iniciam o acolhimento de novos participantes, contextualizando-os sobre a finalidade e proposta do grupo, sobre combinados do funcionamento (respeito nas relações, sigilo sobre aspectos da vida particular que são partilhados, entre outros) e a facilitação no processo de apresentar-se, promovendo possíveis identificações entre usuários. A reunião se inicia com tema disparador, que pode se dar a partir de palavra, música, texto, notícia, atividade, ou fato que tenha sido compartilhado por integrante. As condutoras incentivam e promovem a governabilidade do grupo pelos usuários, solicitando que elaborem temas que considerem relevantes, que participem da organização de reuniões e eventos promovidos pela rede de atenção psicossocial; e que integrem espaços de representatividade, como a assembleia do CAPS.
Inicialmente, o grupo elencou temas que emergiram a partir de perguntas disparadoras, como na atividade intitulada “o que me crisa?” onde cada usuário pode partilhar algum aspecto de sua vida que lhe causa angústia, sofrimento ou ansiedade, abrangendo temas como conflitos em família, dificuldades no trabalho, estudo e formação, uso de substâncias psicoativas, relacionamentos, cobranças e responsabilidades, laudo psiquiátrico, dificuldades financeiras, entre outros. Nas reuniões subsequentes, os usuários eram incentivados a partilhar um pouco sobre si e sobre sua semana. No prosseguimento a discussão sobre algum tema de interesse do grupo, utilizou-se de palavras disparadoras, como ‘trabalho’, ‘dinheiro’; poemas, prosas e crônicas, como “Somos um mar de foguinhos”, de Eduardo Galeano; músicas como “Apenas um rapaz latino americano”, de Belchior, e “Ouro de Tolo”, de Raul Seixas. Houve também a participação de outros profissionais em reuniões do grupo, como a reunião junto à farmacêutica, em que o objetivo foi promover espaço para tirar dúvidas sobre uso de psicofármacos, utilidade, cuidados no uso e efeitos colaterais, bem como refletir a função do tratamento medicamentoso na saúde mental. A escolha do nome do grupo compreendeu a construção coletiva. A partir do movimento de recapitulação dos temas disparadores nos relatos de cada indivíduo, elegeu-se o nome “ReCAPStulando”, junto da imagem de um sol nascente, representando a renovação.
O grupo terapêutico voltado à população de jovens adultos tem se mostrado estratégia que possibilita a reflexão de cuidado ampliado em saúde: o grupo trata da complexidade e do olhar integral para o indivíduo e seu meio, sua família, sua comunidade. Compreende que o fortalecimento da autonomia está associado à valorização e facilitação do acesso à cultura, ao lazer, ao trabalho, à educação e à cidadania, permitindo catalisar as potencialidades das construções dos projetos de vida. Reitera-se o convite ao usuário a colocar-se na posição ativa de seu cuidado: a partir do engajamento na construção de seu projeto terapêutico; no reconhecimento de suas demandas pela partilha de seus sentimentos, preocupações, vivências, sofrimentos e na reflexão sobre as pressões sociais normativas sobre o ser adulto. O empoderamento sobre sua saúde balizado por este reposicionamento, amplia a percepção da dimensão de seu cuidado, voltando-os para ações de participação social, e instigando-os a refletir a importância da atuação política e da necessidade de posicionar-se criticamente quanto ao fortalecimento do cuidado em saúde mental em liberdade.
Juventudes, Autonomia, Grupo terapêutico
ANA CAROLINA BENTO, MARIA CLARA MIRRA MEIRELLES, VANESSA CRISTINA DIAS BOBBO