Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Neste trabalho apresentamos parte do percurso no qual se criou uma ferramenta para apoiar as equipes de Saúde Mental de Atibaia na reorganização do apoio matricial a partir de mudanças na gestão da Secretaria de Saúde com consequente reinvestimento nas redes de saúde, da retomada das reuniões da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) municipal após a pandemia, da realização da I Conferência Municipal de Saúde Mental e da elaboração da Linha de Cuidado de Saúde Mental. A RAPS do município podia ser caracterizada em 2022 como fragmentada, com serviços especializados de Saúde Mental fechados em suas dinâmicas de trabalho, dificultando o acesso da população, o cuidado compartilhado e seu relacionamento com outros pontos das redes intra e intersetorial. Na Atenção Primária à Saúde (APS), predominantemente, o cuidado se dava por consulta médica e prescrição medicamentosa, havendo pouco investimento no cuidado integral dos usuários e um elevado número de encaminhamentos. O apoio matricial se dava de forma fragmentada, sem a participação sistematizada de todos os equipamentos de saúde. Com a rede de saúde fortalecida com mais profissionais e serviços, passaram a ser realizados esforços para a reorganização da RAPS. Durante esse processo, foram identificadas dificuldades relativas ao matriciamento, devido a divergências entre trabalhadores e equipes em termos de concepção, compreensão, objetivos e métodos. Nesse contexto propôs-se a oficina de matriciamento com o uso do jogo REDE-MOINHO.
Considerando os esforços realizados nos diferentes espaços de diálogo sobre Saúde Mental e a dificuldade para se conseguir aprofundar o tema e fomentar a (co)responsabilização das equipes envolvidas e a operacionalização de medidas que promovessem o cuidado compartilhado, integral e no território, buscou-se criar recursos por meio das reuniões da RAPS e sobre a Linha de Cuidado de Saúde Mental para que o matriciamento fosse recolocado como instrumento para o fortalecimento da APS, conforme estabelecido pelo Ministério da Saúde, tendo a sua finalidade ampliada para além de encaminhamentos e discussões sobre queixa e conduta a serem conduzidas pela especialidade. O jogo REDE-MOINHO foi criado como ferramenta para ser usada, inicialmente, em um espaço de formação denominado como oficina, que teve como propósitos proporcionar reflexões, trocas e alinhamentos e estabelecer uma base teórica comum de atuação para nortear as equipes de SM nas ações de apoio matricial.
Entre junho/2022 e janeiro/2024 foram realizadas cerca de 19 reuniões da RAPS e 5 reuniões sobre a Linha de Cuidado de SM. O número de participantes e os participantes variaram, sendo que apenas uma minoria participou de forma contínua ao longo desse período. Participaram representantes da Atenção Especializada (AE), da APS e da rede intersetorial. Em setembro de 2023, o grupo responsável pela Linha de Cuidado, que vinha trabalhando um documento que descrevia fluxos e protocolos, constatou que por aquele modelo de trabalho não estava atingindo o seu objetivo, pois parte do que estava em jogo dizia respeito ao pouco conhecimento das diretrizes do trabalho em saúde mental no SUS. Tendo relevo nisto, concepções e práticas sobre matriciamento em SM. A partir disso, foi elaborada uma oficina para os profissionais de saúde mental da AE como espaço de formação sobre apoio matricial e Saúde Mental na APS, foram utilizados como recursos uma apresentação expositiva e uma partida do jogo, seguidas por uma roda de conversa. O REDE-Moinho constitui-se em um jogo no qual trabalhadores agrupados em torno de casos fictícios utilizam cartas que representam pontos da RAPS e da rede intersetorial para a criação de uma oferta de cuidado. A proposta é a de buscar promover o (re)conhecimento e o debate acerca dos recursos existentes no território, além de reflexões sobre cuidado integral, determinantes de saúde, limites e possibilidades de atuação e colaboração, protagonismo e autonomia.
A oficina sobre apoio matricial aconteceu em outubro/2023 e contou com a presença de quase 50 trabalhadores e gestores dos seguintes serviços: e-Multi, CAPSII, CAPSad, CAPSij, Ambulatório de Saúde Mental e APAE, além de gestores centrais responsáveis pela APS e pela AE. Tratou-se de um encontro potente, que mobilizou forças ao propor que trabalhadores de diferentes unidades se reunissem para uma tarefa comum. O REDE-Moinho foi jogado por seis grupos e cada um deles se comportou de uma maneira, alguns com amplos debates ainda na fase de compreender e executar os passos do jogo. Durante o compartilhamento das experiências vividas, ficaram nítidas ideias conflitantes, por exemplo, sobre a necessidade de instituições fechadas (como as Comunidades Terapêuticas) ou sobre o papel de determinado equipamento (como o Consultório na Rua, inexistente no município). Ficou marcado pelos próprios participantes da oficina seu desconhecimento acerca dos pontos de atenção das redes intra e intersetorial, além do modo de funcionamento e fluxos dos mesmos. Foi bastante apontada também a escassez de espaços garantidos para encontros presenciais e processos de educação permanente. A oficina foi encerrada com a apresentação de uma nova proposta de operacionalização do apoio matricial, a ser implementada a partir do mês seguinte, abrangendo todas as 18 UBS/USF do município, com encontros bimensais entre as equipes de referência (APS) e representantes de todos os serviços especializados de SM.
O jogo se mostrou promissor na medida em que gerou fissuras na percepção dos participantes sobre rede por meio das cartas e das trocas, foi possível a (re)descoberta de alguns serviços, viabilizando novos olhares para os recursos disponíveis para o cuidado. Houve momentos de tensão entre os participantes, repetindo-se ali as posturas de resistência e insegurança comuns nas relações. Surgiram também dúvidas e confusões quanto ao jogo, que levaram a sugestões de aprimoramento das regras e das cartas. O percurso descrito constitui uma mostra de um processo coletivo criativo gerado no encontro de percepções sobre problemas comuns a todos os envolvidos. Diante da necessidade constante de fortalecer a RAPS, de modo articulado com a rede intersetorial e demais recursos do território, destacou-se a importância do apoio matricial em saúde mental. Obstáculos foram reconhecidos e respostas para o seu enfrentamento nasceram. O objetivo final – o tecimento da rede – realiza-se e renova-se cotidianamente, uma vez que a rede não existe em si e, sim, no encontro entre pessoas – usuários, trabalhadores e gestores. Seguir implementando o SUS, a RAPS e a luta antimanicomial requer composições que não se eximem de tensionamentos e demandam diálogo.
Apoio matricial; Saúde mental; Jogo REDE-Moinho
Daniel Henrique de Souza Firmino, Angela Yuri Koketsu, Fernando Augusto Vaquero dos Santos, Juliana de Oliveira Figueiredo, Eva Talita Candido, Deise da Mota Pimenta, Grazielle Cristina dos Santos Bertolini