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A saúde mental é um dos maiores desafios da atualidade. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde mental se refere a uma rede de fatores que envolve um estado de bem-estar vivido pelo indivíduo, que possibilita o desenvolvimento de suas habilidades pessoais para responder aos desafios da vida e contribuir com a comunidade. Houve um período em que os transtornos psiquiátricos eram tratados em manicômios, com os pacientes privados do seu direito de cidadania e liberdade, por vezes em condições sub-humanas. Com a desinstitucionalização, em consequência de uma percepção de que o cuidado deve ser feito em liberdade, surgiu um novo desafio: O que fazer com os pacientes que estavam internados e não tinham mais vínculos familiares, nem condições de cuidarem sozinhos de si? Frente a essa dificuldade, foram criados os Serviços de Residência Terapêutica, como alternativa de moradia para os pacientes que teriam alta dos Hospitais Psiquiátricos. Os Serviços de Residência Terapêutica(SRT) devem ser um ambiente acolhedor, promovendo o pertencimento dos moradores ao seu novo lar, e lá os moradores devem ser reinseridos à sociedade, ao direito de ir e vir, de ter desejos, poder de compra e escolha. Antes de mais nada, deve ser um ambiente saudável, leve e alegre. Um dos grandes desafios foi sensibilizar a equipe para um cuidado humanizado, para essas pessoas que por tanto tempo foram privadas dos seus direitos básicos pelo simples fato de terem algum transtorno psiquiátrico.
Promover assistência humanizada aos moradores do Serviço de Residência Terapêutica, sensibilizando os trabalhadores sobre a importância de ações de reinserção social.
Foi realizada a programação anual de festas e passeios, onde os moradores dos dois Serviços de Residência Terapêutica do município de Cotia interagiam mensalmente, em uma das duas casas ou em ambiente externo. Além da comemoração dos aniversariantes do mês, foi feito o planejamento de uma festa de carnaval, festa junina, festa de Halloween, Natal e passeio ao Zoológico de Sorocaba. A programação era discutida com os moradores, que decidiam em qual das duas casas seria a festa, saiam para comprar as decorações, decidiam quais seriam as comidas e bebidas servidas na festa, e por vezes, convidavam os funcionários do CAPS para participar das festas.
Houve melhora da interação social entre os moradores dos dois SRTs. Os moradores demonstravam grande satisfação, cantavam, dançavam e comiam alimentos diferentes do que estavam acostumados a comer no dia a dia. Era algo que movimentava toda a casa. Os funcionários, em sua maioria da enfermagem, estranhavam um pouco as festividades, mas ao longo do tempo, começaram a se divertir junto com os moradores, desenvolvendo um olhar mais humano, percebendo que os moradores ficavam muito felizes com tão pouco. Em atividades externas, percebíamos atitude colaborativa das pessoas, que interagiam e tinham carinho pelos moradores dos SRTs. Alguns moradores apresentavam certa dificuldade de interação e não gostavam de participar das festas, mas com a rotina mensal de comemorações e passeios, eles passaram a ficar na expectativa das próximas festas, colaborando nos preparativos, escolhendo quais seriam os alimentos servidos e participando da decoração da casa. Acessavam memórias da infância e juventude relacionadas ao carnaval, festa junina, natal, ano novo, aniversário, dentre outras. Os familiares dos moradores também eram convidados para participar da festa, no intuito de fortalecer o vínculo familiar, muitas vezes fragilizado. O passeio ao Zoológico de Sorocaba foi uma iniciativa dos próprios moradores. Alguns deles nunca tinham ido a um Zoológico antes. Foi muito proveitoso, desde a viagem, de Cotia à Sorocaba, o reconhecimento dos animais e a interação durante o piquenique.
Concluímos que atividades lúdicas, festas e passeios podem ser utilizados como instrumento de sensibilização e descontração dos profissionais de saúde. Ao serem estimulados, os moradores dos Serviços de Residência Terapêutica se tornam mais empoderados, tendo maior ciência dos seus direitos, expondo suas vontades e desejos, percebendo que têm o direito de ser cidadãos pertencentes a comunidade em que vivem. Percebemos também que apesar de todas as limitações, os moradores têm o direito à dignidade e felicidade, e que pra isso, poucos esforços precisam ser feitos por parte dos profissionais envolvidos.
Ações Estratégicas Residências terapeuticas
ISABEL CRISTINA SILVA