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A população em situação de rua exige ações diferenciadas devido às suas necessidades únicas. O Decreto Federal nº 7.053/2009 define esse grupo como heterogêneo, caracterizado pela pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados e ausência de moradia regular. A Atenção Básica é a porta de entrada para o atendimento, sendo o vínculo entre profissionais e usuários essencial para adesão ao tratamento. A Tuberculose, é prevalente entre pessoas vivendo com HIV e representa um risco significativo, sendo 56 vezes mais frequente em pessoas em situação de rua. A assistência multiprofissional no âmbito do CnR é essencial no cuidado de populações em situação de vulnerabilidade, o que inclui gestantes vivendo com HIV e/ou Tuberculose. Essas condições de saúde, associadas a determinantes sociais como a pobreza extrema, a falta de moradia, a violência de gênero, o uso de drogas lícitas e ilícitas, a falta de acesso a serviços de saúde e a discriminação, aumentam o risco de morbimortalidade e potencializam os riscos da transmissão vertical do HIV e outras doenças infectocontagiosas. A experiência, ocorrida entre 12/2023 e 10/2024 na região do CEAGESP/LAPA, envolveu equipes multiprofissionais do CnR e do SAE Lapa, com apoio de assessorias técnicas em IST/Aids, Saúde da Mulher e Vigilâncias de Sífilis, HIV e Tuberculose. A articulação entre diferentes serviços viabilizou acolhimento, cuidado contínuo e estratégias para melhoria da saúde materno-infantil e redução de riscos.
Relatar os esforços e estratégias utilizados para o acompanhamento do pré-natal compartilhado, visando o controle das infecções maternas.
ACS, 38 anos, mulher preta, em situação de rua na região da Lapa/CEAGESP desde 05/2021, usuária de crack e cocaína, egressa do sistema prisional e não possuía documento de identificação e nem benefícios socioassistenciais por recusa própria. Diagnosticada com HIV em 2011, com acompanhamento irregular no SAE. Há cerca de 4 anos em situação de rua. Se alimentava através de doações e sua higiene era realizada dentro do atendimento diário emergencial Vila Leopoldina 5. Em 06/2023, retomou contato com a equipe do CnR após pneumonia, relatando violências físicas, sexuais e verbais do companheiro. Apesar da reaproximação, ela não aderiu ao acompanhamento e tratamento do HIV, negou os suportes oferecidos como: transporte para ir às consultas, administração dos medicamentos, acompanhamento semanal e oferta de métodos contraceptivos. Encaminhada à Casa da Mulher Brasileira e Centro de Acolhida, mas retornou às ruas. Em 12/2023, diagnosticada com Tuberculose e iniciado tratamento. Em 05/2024, testou positivo para gravidez, com 22 semanas gestacional, CV de 8.460 cópias/ml e sífilis reagente (tratada). Em 07/2024, relatou dificuldades com a medicação e a CV subiu para 31.100 cópias/ml. Foi ajustado o esquema de ARV, com administração supervisionada. Em 08/2024, as equipes de saúde planejaram o parto e reforçaram os cuidados. A CV reduziu para 137 cópias/ml em 09/2024. Em 17/09/2024, foi encaminhada via SAMU à maternidade. De 2023 a 10/2024, realizou 10 exames de sangue, 1 colpocitologia,
1.Redução da Carga Viral Materna: A gestante apresentou uma redução de 99% na carga viral, passando de 485.000 cópias para 137 cópias em um período de 4 meses, por meio de intervenções multiprofissionais e administração assistida dos medicamentos antirretrovirais. 2.Nascimento do RN exposto ao HIV com Carga Viral Indetectável, exposto a sífilis e sem tuberculose congênita: Além da assistência pré-natal o parto Cesário ocorreu com todos os cuidados preconizados para criança exposta ao HIV, com o uso de antirretrovirais para a gestante antes do parto e para o recém-nascido nas primeiras horas de vida, assim como a substituição do aleitamento materno por fórmulas láctea. A primeira carga viral do RN coletada ao nascer teve o resultado Indetectável, mantendo-se indetectável aos 14 dias de vida e nas demais coletas preconizadas pelo protocolo da criança exposta ao HIV. Os exames de investigação para Sífilis e Tuberculose Congênita, também concluíram que a criança não nasceu com Sífilis e nem Tuberculose. 3. Garantia dos Cuidados Pós-Nascimento: Devido às condições de vulnerabilidade da genitora, o RN denominado de B.S. foi encaminhado para um abrigo. A partir desse momento, iniciou-se um processo de aproximação com a avó materna para assumir a guarda da criança. Mensalmente B.S. passa em consulta com a infecto pediatra no SAE Lapa e pediatra da Unidade Básica de Saúde do território.
Após o nascimento da criança, foi realizada uma reunião on-line com todos os envolvidos para avaliar e apreciar as ações de assistência e vigilância desenvolvidas. Consideramos que apesar da gestante viver em situação de vulnerabilidade, os objetivos foram alcançados devido à abordagem humanizada e ativa da equipe do CnR. Essa abordagem precisa ser mantida pelas equipes de saúde nos contextos de rua e ampliada para abrigos ou comunidades, através das articulações com outros setores e instituições tecendo a rede do cuidado. A equipe do CnR desempenhou um papel chave na superação dos desafios, garantindo a continuidade do cuidado e da adesão aos tratamentos. A comunicação assertiva e simplificada, promoveu um ambiente de confiança e acolhimento. As intervenções realizadas durante o pré-natal, parto e pós-parto, bem como o uso contínuo da TARV (Terapia Antirretroviral), foram determinantes na redução da transmissão vertical do HIV e da sífilis. Esses resultados só foram possíveis pelo suporte do SAE, que ajustou as medicações, e à atuação do CnR, que garantiu a administração diária.
vulnerabilidade social, imunodeficiência humana
FLAVIA AMADEI RAFFAELLI, JULIANA FLORIANO MACHADO DE ARAUJO ASSIS, MARIA HELENA LÓPEZ DE CAMPOS ISAAC, MARIA DE FATIMA CHERON PIRES, MARIANA SANTOS, MARINA PEREIRA SANTOS STAGNI, ANA CAROLINA AMED HINNIGER, VIVIANE CRISTINA MENDONÇA