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A Equipe de Consultório na Rua (eCnaR) faz parte da Atenção Primária à Saúde e é específica para a população em situação de rua, visando ampliar o acesso à saúde para este grupo populacional, que devido sua condição de vida tem potencializado fatores de vulnerabilidade influenciando diretamente demandas importantes de saúde. Questões biopsicossociais devem ser consideradas, já que em grande parte possuem os vínculos familiares rompidos e apresentam necessidades de clínica geral que contribuem diretamente no adoecimento mental na rua. O uso de substância psicoativa (SPA) também é bastante frequente e acelera o adoecimento da pessoa estando em situação de rua, culminando em episódios de risco para si (o paciente), assim como para outras pessoas. Com isto, é necessário que a equipe realize a identificação e a avaliação de risco desses casos a fim de se definir uma conduta de modo mais eficaz e integrada com a rede, tentando minimizar os danos gerados e possíveis violações de direito ao paciente.
Relatar o caso de uma pessoa em situação de rua que devido sua condição de saúde clínica e mental foi necessária a articulação entre as equipes do Consultório na Rua, SAMU e Guarda Civil Municipal (GCM) viabilizando sua avaliação e internação involuntária considerando o risco iminente para si mesma devido quadro psicótico.
D.A.C, mulher, 35 anos, vínculos familiares rompidos, em situação de rua por tempo indeterminado, uso de crack e outras drogas, histórico de internação psiquiátrica anterior no hospital do Santa Tereza e diagnóstico de transtorno bipolar com sintomas psicóticos. Frequentava as imediações das praças da região central da cidade, bastante conhecida pelos comerciantes locais que costumavam ajudá-la com dinheiro e alimentação. A paciente não aceitava vincular-se à Equipe de Consultório na Rua e adotava uma atitude evasiva quando os profissionais de saúde tentavam aproximar-se. Visivelmente vinha emagrecendo e tendo o autocuidado cada vez mais precário, nem tampouco demonstrava mais entendimento (insight) em suprir sua própria alimentação. A partir da avaliação em relação aos prós e contras de se adotar uma medida coercitiva, houve a articulação pela equipe de Consultório na Rua, junto às equipes do SAMU e profissionais da GCM da região central, que já conheciam o caso de D.A.C, devido sua presença constante na região e o seu adoecimento que era visível aos olhos de todos. Importante destacar que devido a condição clínica da paciente qualquer medida judicial (processo de avaliação/internação compulsória) não supriria a urgência demandada naquele momento. A GCM auxiliou na localização e monitoramento da paciente até a chegada do SAMU, assim como para evitar qualquer tipo de comoção popular em apoio das equipes de saúde na realização da conduta.
A Equipe de Consultório na Rua a partir da proximidade com o campo, vínculo com as pessoas em situação de rua e comerciantes locais, identificou que a paciente D.A.C possuía várias vulnerabilidades que se sobrepunham. Em situação de rua, com diagnóstico anterior de transtorno bipolar com sintomas psicóticos, bastante emagrecida e sem condições psicológicas para suprir a própria alimentação e a inexistência de autocuidado em relação à sua higiene. Com relatório elaborado pelo médico da eCnaR e auxílio das equipes do SAMU e GCM a paciente foi encaminhada involuntariamente para a UPA Oeste com o intuito de passar por avaliação psiquiátrica. Foi necessário a sua contenção sob supervisão da GCM preservando a qualidade do trabalho e a integridade das equipes de saúde devido risco de comoção popular. A paciente ficou internada na UPA por aproximadamente 2 semanas para estabilizar a parte clínica. Foi encaminhada para o CAPS IV, onde esteve internada por mais 2 semanas até ser internada no hospital psiquiátrico Santa Tereza. Mesmo após o tempo em que esteve na UPA e no CAPS IV, ainda chegou para a internação no Santa Tereza com sintomas psicóticos e sem conseguir suprir sua própria alimentação e autocuidado, sendo necessário o uso de sonda. A eCnaR passa então a articular com a Secretaria de Assistência Social (SEMAS) qual seria o equipamento de acolhimento mais adequado, projetando a alta da paciente, já que a busca por familiar que tivesse um vínculo protetivo não houve sucesso.
Após 6 meses de internação a paciente teve alta do Santa Tereza, referenciada para o CAPS ad como egressa de internação psiquiátrica e acolhida na casa de passagem feminina Projeto Esperança. Assim, a eCnaR segue acompanhado o caso desta paciente e prestando o auxílio necessário em relação ao acesso à saúde. A existência de um transtorno mental ou neurológico, associado ao uso de SPA pode favorecer que o indivíduo esteja em situação de rua e amplifique as dificuldades de acesso à rede pública de saúde e assistência contribuindo para agravos importantes. A equipe de Consultório na Rua tem a função de aproximação com o território e com as pessoas em situação de rua, elaboração de projetos terapêuticos adaptados a realidade da rua e servindo como “fio condutor” entre as diversas instâncias de cuidado em que diversas vezes é necessário que os pacientes seguidos pela equipe passem com o intuito de sairem de quadros agudos de saúde e serem acolhidos e re-inseridos socialmente.
Pessoa em situação de rua, saúde mental
Tatiana Maria Coelho Veloso, Valdir Leite Machado Júnior, Daise Cristina Alves de Paula, Juliana Cristina Dias, Márcia da Silva Paulino, Maria Menezes Ferreira, Aecio Freitas Souza