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A população em situação de rua (PSR) tem crescido de forma significativa no Brasil, alcançando cerca de 327.925 pessoas em dezembro de 2024, segundo o OBPopRua/UFMG. A Região Sudeste concentra a maior parte desse contingente, com destaque para o estado de São Paulo (43%). Em Ribeirão Preto, estimativas apontam a existência de aproximadamente 1.800 pessoas em situação de rua, realidade que evidencia as contradições locais: município de forte economia, mas com população vulnerável marcada pela exclusão social e por barreiras de acesso aos serviços públicos. O SUS prevê a garantia do direito à saúde para todos, inclusive à PSR. Nesse contexto, o Consultório na Rua (CnaR) atua como estratégia fundamental para ampliar o cuidado integral, promover ações de redução de danos e articular o acesso à rede de saúde. Apesar dos avanços, a literatura e a experiência prática apontam lacunas persistentes: despreparo dos profissionais de saúde, ausência de formação específica, estigmatização e práticas de exclusão. Esses fatores reforçam a necessidade de ações educativas voltadas à sensibilização e à capacitação, com vistas a fortalecer a rede de atenção e promover práticas de cuidado culturalmente sensíveis e humanizadas. Assim, a realização de um encontro municipal voltado à formação e sensibilização de profissionais de saúde buscou responder a essas demandas, promovendo troca de experiências, reflexão crítica e fortalecimento da articulação intersetorial no município.
Relatar a experiência do evento “1º Encontro Municipal de Saúde da População em Situação de Rua de Ribeirão Preto”, organizado pela Secretaria Municipal de Saúde em parceria com o Consultório na Rua.
A experiência teve uma comissão organizadora, em que foram definidas responsabilidades relacionadas à coordenação geral, contato com palestrantes e autoridades, logística das inscrições, infraestrutura e elaboração de materiais pedagógicos. A inscrição ocorreu por meio de formulário eletrônico (Google Forms) e a divulgação utilizou comunicados institucionais, e-mails e convites eletrônicos enviados em grupos de WhatsApp. O encontro aconteceu em um auditório equipado com recursos multimídia e participaram profissionais das UBS, UPA, CAPS, hospitais do SUS, gestores e estudantes de saúde. O início da programação ocorreu com a leitura do poema “Esse tipo de Gente”, como recurso de mobilização afetiva e de reflexão. Na sequência, realizou-se a mesa de abertura, com a participação de gestores. Aplicou-se uma atividade interativa por meio da plataforma Mentimeter, sobre perguntas disparadoras sobre desafios no atendimento à PSR, estimulando o debate coletivo. O ponto central da programação foi composto pelas palestras temáticas, conduzidas por profissionais com trajetória diretamente vinculada ao cuidado da população em situação de rua. Esses convidados trouxeram relatos de experiências práticas, com reflexões sobre os obstáculos enfrentados na rede e apresentaram propostas de fortalecimento do cuidado intersetorial. Essa combinação de estratégias, sensibilização, escuta interativa, contextualização política e troca de experiências possibilitou um ambiente de aprendizagem coletiva.
Foram registradas 128 inscrições, reuniu médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, agentes comunitários de saúde, gestores e estudantes universitários. O poema “Esse tipo de Gente” sensibilizou o público, provocando reflexões sobre estigma e invisibilidade da PSR. A atividade interativa com o Mentimeter revelou percepções de despreparo, dificuldades relacionadas ao acolhimento, ausência de fluxos claros e desafios de articulação com a rede intersetorial. As palestras reforçaram a importância da escuta qualificada, da humanização do atendimento e da necessidade de superar práticas fragmentadas. Os participantes demonstraram engajamento, com falas críticas sobre os obstáculos enfrentados e propostas de estratégias coletivas, como: ampliação de formação continuada, fortalecimento da comunicação entre serviços, criação de protocolos intersetoriais e valorização da equipe do Consultório na Rua como referência técnica. O evento impactou positivamente nas dimensões cognitiva, atitudinal e organizacional.
A experiência demonstrou que ações educativas voltadas à sensibilização e capacitação de profissionais de saúde são fundamentais para enfrentar barreiras de acesso e reduzir desigualdades no atendimento à população em situação de rua. O encontro possibilitou reflexão crítica, troca de experiências e engajamento de diferentes categorias profissionais, fortalecendo a rede de saúde municipal. O aprendizado obtido reforça a importância da educação permanente como estratégia para consolidar práticas de cuidado humanizadas, integrais e equânimes. Recomenda-se a continuidade de iniciativas semelhantes, com ampliação do público-alvo, periodicidade regular e aprofundamento das discussões intersetoriais. A experiência reafirma o compromisso do SUS com a equidade e a universalidade, destacando a relevância de investir na formação dos trabalhadores da saúde como ferramenta essencial para a efetivação do direito à saúde da população em situação de rua.
Consultório na rua, educação permanente
PAMELA VIDAL MENDONÇA, JULIANA CRISTINA DIAS, MYLENA SOUSA PIANTAMAR, ADRIANA CRUZ DE LIMA, TATIANA MARIA COELHO VELOSO, MÁRCIA DA SILVA PAULINO, TATIANE CRISTINA FARIA DA SILVA, FABIO MEIRELLES ALVES