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A dengue permanece como um dos principais desafios da Vigilância Epidemiológica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente diante da fragmentação, inconsistência e baixa oportunidade dos dados registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Embora o sistema constitua a base oficial para monitoramento dos agravos, a efetividade da resposta em saúde pública depende da qualidade da informação produzida e tratada no nível local, influenciando diretamente o planejamento, a alocação de recursos e a adoção de medidas oportunas de controle. No Município de Jaboticabal, a análise das rotinas da Vigilância Epidemiológica evidenciou fragilidades operacionais, como notificações em aberto por períodos prolongados, duplicidades de registros, inconsistências no preenchimento das fichas e ausência de padronização territorial. Tais limitações comprometiam a leitura fidedigna do cenário epidemiológico e dificultavam a implementação de uma vigilância baseada em evidências. Nesse contexto, a inserção do Médico-Veterinário Residente configurou-se como oportunidade estratégica para reorganização do processo de trabalho, promovendo inovação social de caráter incremental, orientada pela governança da informação em saúde e pela qualificação do fluxo de notificação da dengue como instrumento de inteligência aplicada ao território.
A reorganização do processo de trabalho, especialmente em um ano marcado por desafios institucionais como rotatividade de profissionais e necessidade contínua de qualificação das equipes envolvidas, evidencia avanço técnico e compromisso com uma gestão orientada por evidências. Nesse cenário, o presente relato tem como objetivo descrever e analisar a implementação de inovação de processos na Vigilância Epidemiológica da dengue, a partir da atuação do Médico-Veterinário Residente, com foco na reorganização do fluxo de notificação, na qualificação da informação em saúde e no fortalecimento da governança de dados no âmbito do SUS. Busca-se, adicionalmente, evidenciar os impactos da intervenção na melhoria da completude, consistência e oportunidade das notificações registradas no SINAN, bem como discutir sua contribuição para a consolidação de uma vigilância baseada em evidências, com potencial de replicabilidade em outros contextos municipais.
Trata-se de um relato de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e quantitativa descritiva, estruturado como sistematização de experiência em saúde pública. A intervenção foi desenvolvida na Vigilância Epidemiológica municipal de Jaboticabal, no contexto da formação em serviço do Médico-Veterinário Residente, com foco na qualificação do fluxo de notificação da dengue no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Realizou-se diagnóstico situacional por meio de observação participante, análise documental e extração de bases do SINAN, examinando indicadores de completude, consistência e oportunidade das notificações. Foram identificadas fragilidades como duplicidades, notificações em aberto, inconsistências no preenchimento e atraso na consolidação por Semana Epidemiológica. A partir desse diagnóstico, implementou-se reorganização do processo de trabalho, incluindo padronização da extração semanal de dados, formalização de Procedimento Operacional Padrão (POP), rotina sistemática de limpeza de base, fluxo estruturado de importação de casos notificados por outros municípios e institucionalização da produção regular de boletins epidemiológicos. A análise integrou comparação de indicadores antes e após a intervenção, associada à avaliação qualitativa das mudanças na governança da informação. A experiência foi classificada segundo os Níveis de Maturidade Tecnológica (TRL), caracterizando maturidade.
A reorganização do fluxo operacional promoveu redução significativa de notificações em aberto, aumento da proporção de casos encerrados oportunamente e maior regularidade na emissão de boletins epidemiológicos semanais, conferindo maior estabilidade ao monitoramento da situação epidemiológica. Observou-se também melhora na consistência dos registros e na consolidação tempestiva das informações por Semana Epidemiológica. A implementação de rotina sistemática de identificação de duplicidades resultou em base de dados mais limpa e fidedigna, reduzindo distorções nos indicadores e qualificando a leitura do cenário epidemiológico. O fluxo estruturado de retorno permitiu identificar com maior agilidade residentes notificados em outros municípios, fortalecendo a articulação com o Controle de Zoonoses para bloqueios oportunos de transmissão. A padronização territorial via “SINAN Localidade” ampliou o potencial de análise espacial e planejamento direcionado das ações. A formalização de Procedimento Operacional Padrão (POP) contribuiu para maior estabilidade do processo frente à rotatividade de profissionais. A experiência foi classificada entre TRL 6 e 8, evidenciando inovação testada, validada e incorporada à rotina institucional no âmbito do Sistema Único de Saúde.
A experiência demonstra que a reorganização do processo de trabalho, mesmo sem incorporação de novas tecnologias digitais, pode produzir impactos relevantes na qualidade da informação epidemiológica e na capacidade de resposta do SUS. A atuação do Médico-Veterinário Residente evidenciou o potencial da formação em serviço como indutora de inovação incremental e fortalecimento institucional. A consolidação de fluxos padronizados, a qualificação da base de dados e a institucionalização da produção de boletins epidemiológicos contribuíram para a transição de um modelo reativo para uma gestão baseada em evidências. Trata-se de iniciativa sustentável, de baixo custo e com potencial de replicabilidade em outros municípios, reforçando a importância da governança da informação como eixo estruturante da Vigilância em Saúde.
Governança e Vigilância Epidemiológica
RENAN HENRIQUE FERNANDES, MARIELA FONSECA TOSCANO, JUAN CARLOS GERMAN, JULIANA KETLEN BARROS LOMAR, LUANA BONON, ROSA MARIA KEFFLER WAGMOCHER, WÂYNI BARBOZA TEIXEIRA, GIOVANA ALMEIDA REIS, LIGIA MENEZES DE FREITAS, JOSÉ CARLOS DOS SANTOS, DIEGO CÁSSIO RAFAEL BRAULINO NOGUEIRA, KARINA PAES BÜRGER