Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
O racismo estrutural afeta profundamente a saúde das populações vulneráveis, especialmente a população negra. A Atenção Primária à Saúde (APS), fundamentada nos princípios do SUS de universalidade, integralidade e equidade, tem a responsabilidade de promover ações que não apenas tratem doenças, mas também abordem os determinantes sociais da saúde. Este trabalho utiliza a educação em saúde para aumentar a conscientização racial e suas implicações. A residência multiprofissional em Atenção Básica/Saúde da Família, promovida pela Secretaria de Saúde de Guarulhos, é crucial na formação de profissionais para enfrentar desafios comunitários. Em novembro de 2023, profissionais residentes realizaram uma roda de conversa em uma Igreja local, no território da USF Cumbica, após uma apresentação do grupo de dança Cumbica Dance, coordenado pela preceptora da residência. O evento propiciou uma reflexão sobre o racismo e o Dia da Consciência Negra, abordando práticas antirracistas e promovendo uma saúde mais inclusiva e equitativa. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – 2017 (PNSIPN) destaca a necessidade de estratégias para promover a equidade e enfrentar disparidades raciais na saúde. A roda de conversa atendeu a essa necessidade, oferecendo um espaço para a troca de experiências sobre racismo. A inclusão de perspectivas de mulheres negras e a participação de residentes e membros da comunidade ressaltam a importância de uma abordagem educacional e reflexiva.
O objetivo principal desta intervenção foi criar um espaço de diálogo e reflexão sobre o preconceito racial, com base no princípio da equidade do SUS, entre as participantes do grupo Cumbica Dance. A partir da contextualização do Dia da Consciência Negra e dos diferentes tipos de racismo, a ação buscou conscientizar as mulheres participantes sobre as formas de racismo que afetam a saúde e a qualidade de vida, enquanto se promovia o fortalecimento da educação antirracista. Outro objetivo foi incentivar a troca de experiências e vivências pessoais, promovendo a ressignificação dessas experiências e empoderando as participantes para que reconheçam seu papel na luta contra o racismo e na promoção da saúde comunitária.
A ação ocorreu em novembro de 2023, no salão de eventos de uma Igreja localizada no território da USF Cumbica, e foi organizada em dois momentos: primeiro, uma atividade de dança com o grupo Cumbica Dance, seguido pela roda de conversa mediada por três mulheres negras profissionais residentes: uma farmacêutica e duas enfermeiras, incluindo a facilitadora. Com base nas diretrizes da Diretrizes de Educação em Saúde (FUNASA, 2007) sobre educação em saúde, a roda de conversa foi pautada pela contextualização histórica do Dia da Consciência Negra, a explicação sobre os diferentes tipos de racismo (estrutural, institucional e interpessoal) e participação ativa das mulheres presentes, sendo estas majoritariamente negras e idosas. Foi adotada a metodologia da escuta ativa, em que cada mulher, seja negra ou não, pôde compartilhar suas experiências com o racismo e suas percepções sobre a importância da educação racial na desconstrução de preconceitos.
A roda de conversa gerou uma discussão rica e diversificada sobre o racismo, com relatos emocionantes e perspicazes das participantes, revelando experiências pessoais significativas sobre preconceito racial e suas consequências, tanto físicas quanto emocionais. Mulheres negras e não negras participaram, compartilhando vivências que muitas vezes haviam sido silenciadas ou pouco discutidas. A intervenção proporcionou uma nova compreensão sobre as várias formas de racismo, em particular o racismo estrutural, que permeia as relações sociais e institucionais. As participantes destacaram a relevância de ações educativas como esta, que contribuem para a promoção da equidade, um princípio fundamental do SUS. Além disso, houve um fortalecimento do vínculo entre as participantes e profissionais residentes, que passaram a se ver como aliadas na luta contra o racismo, reforçando o papel da residência multiprofissional na abordagem de questões sociais e na promoção da equidade em saúde.
A experiência evidenciou que a inserção de debates sobre racismo e educação racial nos espaços de convivência da APS pode ser um poderoso instrumento de transformação social. Com base nos princípios do SUS, especialmente na equidade e integralidade, essa atividade demonstrou a importância de tratar os determinantes sociais da saúde, como o racismo, de forma ativa e educativa. Alinhada aos princípios do SUS e aos documentos norteadores, como a PNSIPN, as “Diretrizes de Educação em Saúde” (2007), e a publicação “Saúde da População Negra” (2012), a ação proporcionou às participantes um espaço de troca, conscientização e empoderamento. As rodas de conversa sobre racismo devem ser replicadas e incentivadas, uma vez que fortalecem as redes de apoio comunitárias e promovem a saúde em sua totalidade, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso a uma atenção integral e equitativa.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE; PRÁTICAS ANTIRRACISTA
BEATRIZ SOARES VICTORINO