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As dores na coluna vertebral representam uma condição crônica, de alta prevalência e, apesar das restrições que possam surgir e apesar de não ser considerado risco de vida imediato, caracterizam-se como importante problema de saúde pública com relevantes repercussões físicas, funcionais, econômicas e sociais, conferindo uma condição elegível para manejo no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS; BATISTA et. al., 2023; CARVALHO, et. al. 2020). Definida como porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), a APS tem como atribuição a organização e coordenação do cuidado, ampliada pela implementação das equipes Multidisciplinares (e-Multi), conferindo o ordenamento e integralidade da rede, com a premissa de resolubilidade com competência de cuidado e articulada com outros pontos de atenção à saúde (POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO BÁSICA, 2017). E, nesse sentido, a inserção da Fisioterapia neste contexto reforça as ações de promoção à saúde e prevenção dos agravos, avaliação, tratamento e recuperação da função (BIM et al., 2021). Portanto, considerando as condições crônicas voltadas aos problemas na coluna vertebral, a Fisioterapia tem como responsabilidade a gestão do cuidado estabelecendo fluxos internos focados no fortalecimento das ações da APS que podem envolver desde o estímulo à mudança de hábitos, atendimentos individuais, inserção em grupos terapêuticos até a reabilitação física especializada, se necessário (SCHMITT et al., 2020; LOPES et al., 2019).
Relatar um ano de condução do processo de trabalho da Fisioterapia no âmbito da APS nos problemas da coluna vertebral.
Trata-se do relato da condução do processo de trabalho da Fisioterapia estabelecido nas UBS Cumbica, Cummins e SOIMCO. Os dados aqui apresentados foram levantados por meio do controle interno de registro do serviço que estabelece o fluxo de trabalho da Fisioterapia. Foram incluídos os dados dos encaminhamentos clínicos com diagnósticos relacionados à dor/disfunção na coluna vertebral no ano de 2023. O processo consistiu em avaliar a condição cinética, dolorosa e funcional individualmente e, após a definição dos diagnósticos fisioterapêuticos, o delineamento da conduta adotada. A partir desse primeiro contato, a condução terapêutica consistiu em: (i) retornos individuais para orientações específicas, quando necessário, sobre manejos da dor e da disfunção por meio de cartilhas informativas e indicação de recursos de baixa complexidade; ou (ii) inserção nos Grupos Cinesioterapêuticos semanais na UBS focados no condicionamento e reequilíbrio musculoesquelético e consequente redução álgica e incremento da função; ou (iii) encaminhamentos qualificados para a rede de especialidade; ou (iv) alta orientada do acompanhamento e continuidade do cuidado na APS. Esses dados foram analisados e expressos em frequência e porcentagens.
Essa análise teve como período referencial de janeiro a dezembro de 2023, baseado nos encaminhamentos clínicos direcionados à Fisioterapia das UBS Cumbica, Cummins e SOIMCO. Em 2023, a Fisioterapia recebeu 281 novos casos totais sendo que 46% (n=129) desses encaminhamentos possuíam a CID-10 relacionada à dor/disfunção da coluna vertebral. A base de encaminhamento contou com 59% (n=77) da UBS Cumbica, 24% (n=32) da UBS Soimco e 15% (n=20) da UBS Cummins, respectivamente, provindos das reuniões de Matriciamento bem como de outros pontos de atenção à saúde. Como processo de trabalho, os pacientes foram agendados individualmente na UBS Cummins e 72% (n=92) deles compareceram à avaliação inicial. Na avaliação,os condicionantes Força e Flexibilidade Muscular, Sinais Neurológicos, Aspectos Funcionais e Testes Especiais foram verificados resultando em 70% (n=65) direcionados aos Grupos Cinesioterapêuticos voltados à Saúde da Coluna de forma semanal, 20% (n=18) mantidos em acompanhamento individual com retornos agendados, 5% (n=5) receberam alta após a primeira avaliação dado a característica funcional e 4% (n=4) foram encaminhamentos para a rede de especialidade considerando a característica da condição clínica. Portanto, como desfecho, a Fisioterapia na APS reteve 96% (n=88) dos encaminhamentos relacionados à dor/disfunção da coluna vertebral e, até o final de dezembro, 88% (n=81) pacientes tinham recebido alta terapêutica, mantendo 12% (n=11) em acompanhamento previsto para 2024.
Esse relato apresentou a efetividade e resolubilidade do processo de trabalho da Fisioterapia no âmbito da APS.As debilidades da coluna vertebral representam um importante problema de saúde pública que impactam sobre o acesso e qualidade dos serviços, além de representar ao indivíduo impacto sobre suas capacidades físicas, mentais, sociais e laborais. O retrato apontado aqui reflete a autonomia da APS, quando instrumentalizada, na condução de uma condição clínica crônica que pode refletir sobre a funcionalidade do indivíduo com manejos de baixa complexidade, com alta resolutividade e garantia de equidade. O recorte de 12 meses de atuação evidenciou a relevância da Fisioterapia, especificamente compondo as e-Multi, mas também da presença da Residência Multiprofissional em Saúde como potencializador das ações, condição presente nessas UBS referenciadas. Vale ressaltar que para o estabelecimento desse processo houve a necessidade de análise crítica da demanda e estratégias de manejo da categoria, respaldo da gestão local, recursos e infraestrutura adequados para seu desenvolvimento e qualidade. Considera-se que essa foi uma prática exitosa, sendo possível seu desenvolvimento por haver condicionantes locais que permitiram tal feito.
Atenção Básica, Fisioterapia, Coluna Vertebral.
BIANCA SANTIAGO MENEZES, WILLIAM AKIRA LIMA SHIMIZU