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Existem na literatura inúmeros estudos que relacionam a atividade física com vários outros aspectos de saúde. Podemos citar alguns como Ferreira et al (2015) que buscava investigar os efeitos do exercício físico sobre a memória, a capacidade de concentração, percepção relativa de esforço e estado de humor. Ou então Santos (1994) que estudava a conexão entre atividade física e a liberação de certas substâncias ligadas ao prazer, bem-estar e relaxamento, como a endorfina, por exemplo. Houve, no entanto, um crescimento grande quando falamos do uso de atividade física no processo de cessação do consumo de substâncias psicoativas, tabaco e álcool. Podemos citar os estudos de Mialik, Fracasso e Sahd (2007), que nos dão um exemplo de como a atividade física substitui as substâncias de escolha dos indivíduos: elas suprem no organismo as sensações de bem estar físico e mental e de prazer. São elas também que fornecem novos laços sociais, trabalhando a reintegração do indivíduo ao convívio de seus pares e promovendo uma rede de apoio e novos laços afetivos. Dessa forma, podemos ver que a oferta de atividades físicas ou práticas corporais têm uma influência muito importante nos resultados dos tratamentos. Assim, podemos ver que ofertas aos usuários do serviços de saúde mental possibilidades de atividade física, seja lazer ou esporte, como ferramenta de auto regulação, pode ser muito vantajosa.
O principal objetivo deste relato é registrar a vivência de um profissional de Educação Física em um serviço de saúde mental como forma de compartilhar as contribuições que a Educação Física pode trazer no processo de reabilitação do usuário enquanto estratégia da política de redução de danos ou mesmo no despertar da vontade e do gosto por uma atividade nova. Este trabalho busca, especificamente, relatar as percepções do autor quanto à importância da participação de um profissional especialista em atividades físicas e lazer, em um ambiente onde o prazer do usuário se torna dependente de uma substância, assim como identificar se e como as atividades lúdicas aplicadas podem ser uma maneira de reintroduzir o prazer em forma de movimento corporal para os usuários. Também foi objetivo registrar a experiência do residente profissional de educação física em um serviço especializado em saúde mental (CAPS AD).
Foi escolhida uma atividade que favoreça a ludicidade como ponto principal e que tenha outras características que possam ser trabalhadas. O malabares foi escolhido como atividade a ser desenvolvida, baseada nos estudos de Bortoletto (2010) de que essa atividade vem de uma gama de habilidades que apresentam grande ludicidade, e a possibilidade de uso de diferentes materiais. Foi decidido então por realizar uma oficina de malabares, envolvendo a manipulação e a confecção dos malabares. O ensino e confecção de malabares não demandam grandes espaços ou estruturas tornando, assim, o malabares uma atividade de fácil aplicação. Os materiais também são simples e de baixo custo, facilitando a aquisição e confecção. A oficina era aberta a todos os usuários do CAPS AD, estivessem eles em estadia única, permanência dia ou mesmo como usuários dos leitos, de forma que todos os presentes no momento do início das atividades eram convidados a participarem. Foram ensinadas duas habilidades relacionadas aos malabares, a manipulação e a confecção, divididas em três tipos de atividades diferentes, sendo: atividade 1 – o ensino inicial da habilidade; atividade 2 – a confecção dos equipamentos (bolinhas e claves); atividade 3 – o ensino de outras modalidades de malabares (flag, swing poy e aros). As atividades ocorreram de 03/2023 a 12/2023.
Incentivar a aprendizagem no início, se mostrou difícil, pelo público do local se mostrar meio receoso, envergonhado e tímido. Houve um trabalho de persistência, uma conversa sobre as necessidades terapêuticas, onde foram explicadas as intencionalidades, inclusive que eles soubessem lidar com esses fatores (receio, desinteresse, pensamento de frustração, intenção de conhecer novas atividades). Sobre a atividade 1, o ensino inicial, o que mais podemos avaliar foi que pela atividade ser lúdica e pelas falas dos oficiantes de que “não existe jeito certo ou errado”houve um interesse grande dos usuários. Para o autor, apresentar possibilidades de uso e execução do malabares foi o ponto central dessa primeira parte da oficina, e criar um vínculo que se tornaria importante para as próximas etapas do processo terapêutico. Já a 2° atividade teve uma importância em incentivar os usuários a produzirem algo, pelo estigma de que os usuários de Substâncias Psicoativas (SPA) não são capazes de produzir nada, e reverter essa visão. Dessa forma os usuários demonstram de forma geral, uma interação acima do esperado, ajudando uns aos outros, criando novas ideias de finalização, decoração e uso e demonstrando uma relação maior entre eles. Na 3° atividade, o resultado foi dado como positivo, quando o autor percebeu a forma como os usuários viam os malabares haviam se alterado. Deixou de ser apenas uma brincadeira, ou até mesmo uma habilidade de outro mundo, para se tornar parte da realidade deles
A busca do prazer se torna uma questão de importância para o indivíduo devido a uma mudança de visão da função do corpo, que deixa de ser apenas uma máquina, para se tornar um meio de obtenção de prazer, e a conexão entre saúde, atividade física e prazer está cada vez mais forte. O circo traz essa possibilidade sem perder a efetividade como atividade física. Uma conclusão, do ponto de vista pessoal, é que a escolha das atividades para qualquer intervenção devem espelhar os usuários, ou minimamente terem uma relação que se relacione de alguma maneira com eles. A Educação Física traz em sua formação áreas de estudos que focam em atividades lúdicas, sejam para lazer, ensino ou saúde. Incorporar um profissional de Educação Física nos serviços de saúde é qualificar todo e qualquer tipo de atendimento/intervenção. Apesar de considerar a oficina como uma experiência bem sucedida no que se propôs, ainda afirma-se a necessidade de mais ações como essa, em outros serviços para podermos, de fato, considerar as atividades físicas lúdicas, e dentre elas incluímos as atividades circenses, como recurso potente dentro dos equipamentos públicos de saúde.
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SEITI HOCAMA JUNIOR