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As pessoas em situação de rua (PSR) constituem um grupo heterogêneo, que tem em comum a inexistência de moradia convencional regular, a utilização de espaços públicos ou unidades de acolhimento como moradia, a pobreza extrema e vínculos familiares interrompidos ou fragilizados. Esse grupo populacional apresenta vulnerabilidades e particularidades, necessitando de uma equipe de Atenção Primária à Saúde (APS) específica que os acolha e favoreça o seu acesso à rede de saúde, sendo esta a principal função da equipe de Consultório na Rua. Em Ribeirão Preto, desde 2022, a equipe integra a rede da APS. As particularidades dessa população sinalizavam a necessidade de a equipe contar com apoio para pensar algumas questões de saúde recorrentes, como transtornos mentais crônicos, violência contra a mulher, adesão ao tratamento de tuberculose, além de necessidade de maior diálogo com a rede de saúde e intersetorial. Havia o receio da equipe técnica estar muito envolvida no caso, sentindo por vezes que não conseguia colaborar para ampliação do olhar nas discussões. Frente à necessidade identificada pela equipe de qualificação foi articulado um espaço de formação, a partir da perspectiva da Educação Permanente em Saúde (EPS). A mesma pode ser entendida como uma prática de ensino-aprendizagem com produção de conhecimentos a partir da realidade vivida pelos atores envolvidos, tendo como aspecto essencial o questionamento crítico das experiências vividas no cotidiano.
Relatar a experiência de Educação Permanente em Saúde de equipes de Consultório na Rua em parceria com a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP).
Os ciclos educacionais, denominados Cursos de Extensão, discutiram os principais aspectos que caracterizam a APS e a Estratégia Saúde da Família no SUS, além de refletir acerca das práticas realizadas e as que poderiam ser incluídas ou aprimoradas no cotidiano da equipe de Consultório na Rua. Também houve a identificação de situações problema, buscando estratégias a fim de superá-las através do trabalho colaborativo interprofissional. Houve a caracterização da pessoa em situação de rua, identificação e manejo das situações envolvendo violência, conceitos referentes a direitos humanos, comunicação com o usuário e entre os profissionais e o trabalho em rede, com os desafios para fortalecer o diálogo intersetorial. A metodologia dos cursos foi rodas de conversa, fomentando as discussões entre os próprios trabalhadores sobre o trabalho da equipe, com leitura de referências bibliográficas. Além disso, atualmente, os momentos remotos também são utilizados para que os profissionais escrevam a respeito de experiências de trabalho que foram relevantes para si e que os afetaram nos momentos dos atendimentos realizados em campo, para além do âmbito profissional. Esses relatos são então compartilhados com o grupo, a partir da leitura e da posterior discussão dos temas levantados. De forma pontual, também foram utilizados recursos de áudio/visual e aplicativos de interação educacional. A previsão de horas dos três cursos somados totalizam 150 horas entre encontros presenciais e remotos.
As equipes refletiram acerca de temas que permeiam o cotidiano das atividades na rua, resgataram conceitos basilares, trabalharam questões de comunicação, processos de trabalho e particularidades da atuação “sem paredes”. Foi oportuno repensar as singularidades da relação do profissional com o paciente, a partir da escuta curiosa e a valorização de diferentes saberes, as diversas formas de violência que eles sofrem e como a equipe sente a violência consigo também. Pensaram sobre o diálogo intrasetorial, com as dificuldades e parcerias na rede de saúde, ampliando o mesmo para outros setores a partir da perspectiva de direitos humanos. Os participantes sinalizaram que gostaram dos cursos por ser um momento de reflexão e crítica da prática profissional, a partir da pertinência dos temas, mas também por ter sido uma abordagem metodológica de escuta e valorização das experiências, estimulando a participação e o engajamento. Isso permitiu um aprendizado significativo, aliado à vivência de acolhimento, alívio de angústia e frustração, sendo identificado como ferramenta importante para manejo do sofrimento psíquico do profissional que lida com populações de alta vulnerabilidade. Por fim, tem sido uma oportunidade de alinhar práticas entre as duas equipes de Consultório na Rua, de identificar e estimular meios para lidar com os limites profissionais, dos pacientes e da rede, gerando sensação de pertencimento e identificação com a finalidade da equipe.
A articulação entre ensino e trabalho se mostrou muito potente para o propósito de fortalecer as equipes a partir de reflexão do cotidiano, alinhamento de condutas e acolhimento da dimensão subjetiva dos profissionais de saúde. Faz-se necessário pensar como as equipes do município, a partir de suas particularidades, poderiam incluir e/ou garantir espaços de formação na perspectiva da Educação Permanente. Para os próximos cursos, as equipes sinalizaram que desejam discutir mais as questões referentes ao impacto do racismo no cotidiano das PSR e nas práticas de saúde, as mudanças climáticas, estratégia de redução de danos e maior discussão acerca das políticas proibicionistas, bem como particularidades no atendimento à população LGBT.
Educação permanente em saúde
TATIANA MARIA COELHO VELOSO, JULIANA CRISTINA DIAS, ADRIANA CRUZ DE LIMA, MÁRCIA DA SILVA PAULINO, PAMELA VIDAL MENDONÇA, TATIANE CRISTINA FARIA DA SILVA, MYLENA SOUSA PIANTAMAR