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O Centro de Atenção Psicossocial Adulto II, adota o modelo de cuidado psicossocial, interdisciplinar que tem como princípios o cuidado em liberdade, autonomia e protagonismo dos usuários(as) no seu processo de reabilitação, o que tem se mostrado eficaz na melhora do bem estar e qualidade de vida. Nesse sentido, a intervenção com grupos e rodas de conversa de mulheres tem se destacado como uma importante ferramenta, surgindo como um espaço privilegiado para promover a saúde mental a partir da construção do diálogo e trocas de experiências. A saúde mental das mulheres é de extrema importância, e muitos dos sintomas presentes nos transtornos mentais muito além da questão biológica, estão associados aos fatores ambientais, sociais e culturais, sendo relevante um cuidado que requer análise a partir da interseccionalidade, ou seja, reconhecendo que as experiências de saúde mental não são homogêneas, mas determinadas por marcadores sociais que se sobrepõem (gênero, raça, classe, sexualidade) e se expressam na desigualdade social nos acessos às políticas públicas, violência de gênero(doméstica, sexual), racismo, e outras questões que levam a um adoecimento psíquico e impactos psicossociais. A iniciativa de iniciar o grupo de mulheres surge para que cuidado ofertado considere as múltiplas formas de opressão que impactam a saúde mental permitindo que as intervenções possam ser desenvolvidas para atender às necessidades das mulheres que frequentam o serviço.
A criação do grupo de mulheres em formato de roda de conversa teve alguns objetivos: ser um espaço democrático de construção do cuidado em saúde mental, que possa promover a conscientização sobre a importância do cuidado das mulheres na perspectiva da integralidade e interseccionalidade, e proporcionar um espaço seguro para que possam compartilhar suas experiências e desafios cotidianos bem como discutir, refletir sobre estratégias para lidar com sofrimentos gerados; oferecer estratégias e recursos práticos para melhorar a saúde mental das mulheres; auxiliar na desconstrução estigma e em torno da saúde mental feminina e encorajar a busca de ajuda e apoio, contribuindo para a despatologização. O grupo valoriza a subjetividade, e objetiva estimular o empoderamento feminino, interação social, comunicação e criação de redes de apoio comunitária no território onde residem, a fim de estimular autonomia para o cuidado.
A metodologia utilizada na perspectiva de Paulo Freire, tem o espaço democrático e dialógico, onde todos as participantes são consideradas sujeitos ativos no processo de construção do conhecimento e do cuidado. Para a organização e condução da roda, estão envolvidos 2 técnicos. Como parte do tratamento, é necessário que seja usuária do serviço e tenha um projeto terapêutico singular. O grupo As Marias realiza seus encontros todas as segundas-feiras, com duração de 1h30, tanto nas dependências do serviço quanto em locais externos. Os são construídos coletivamente entre profissionais e usuárias, com temas previamente estabelecidos ou espontâneos. Por meio de técnicas de dinâmicas de grupo, exercícios reflexivos e atividades expressivas (utilizando-se salas com mesa e cadeiras ou espaços externos, materiais criados no momento com papelarias diversas, vídeos educativos, filmes curtos, leituras, músicas, meditação guiada), as mulheres são incentivadas a compartilhar suas experiências, expressar suas emoções e desenvolver habilidades de enfrentamento.
As atividades tiveram início em 26 de junho de 2023 e, até 9 de setembro de 2024, foram realizados 46 encontros, com um limite máximo de 18 mulheres por grupo. Quanto ao perfil das mulheres, a faixa etária média é de 40 anos, sendo a participante mais jovem com 20 anos e a mais idosa com 61 anos. Até o presente momento, diversos temas foram abordados, como autoestima, relacionamentos, saúde sexual e reprodutiva (maternidade, aborto, sexualidade, ISTs), violência de gênero, preconceitos (racismo, transtornos mentais), tratamento, uso de substâncias psicoativas, luto, suicídio, trabalho, além de perspectivas para o futuro. Durante os encontros, é percebida a interação entre as usuárias, bem como a identificação com pares, seja por semelhanças quanto aos problemas apresentados, pelas ideias e opiniões sobre algum tema, ou pela afinidade com o diagnóstico e/ou tratamento (desafios para segui-lo corretamente). A interação também se dá pelos sentimentos e afetos formados, que geram apoio mútuo, como na ideia de criar o grupo das Marias no WhatsApp, destinado exclusivamente às usuárias, com uma responsável pela gestão. Além desse grupo, também chegaram a marcar encontros em dupla para atividades, demonstrando autonomia, maior consciência sobre questões relacionadas à sua saúde, adquirindo novos repertórios de enfrentamento e desenvolvendo estratégias para lidar com os desafios do cotidiano, fortalecendo vínculos, configurando-se como uma estratégia de empoderamento das mulheres
A roda de conversa As Marias, realizada no CAPS Adulto, se configura como uma prática fundamental para o cuidado em saúde mental de mulheres, alinhada com os princípios do SUS, da Reforma Psiquiátrica e Humanização. A adoção da interseccionalidade como perspectiva central possibilita uma abordagem mais inclusiva, considerando as diferentes formas de opressão que impactam a saúde mental das mulheres, como o racismo, a violência de gênero e as desigualdades sociais. O grupo cria um espaço seguro para o compartilhamento de experiências e construção de estratégias coletivas, promovendo não apenas o cuidado, mas também o empoderamento feminino. Isso é refletido na participação ativa nas decisões do grupo e na criação de uma rede de apoio comunitária, que se estende para além do ambiente do CAPS, evidenciando o desenvolvimento da autonomia. Ao incentivar a troca entre as participantes, a roda de conversa promove um cuidado integral e humanizado, contribuindo para a desconstrução de estigmas sobre a saúde mental e fortalecendo as relações sociais como parte do processo terapêutico. Dessa forma, iniciativas como essa reforçam a importância de políticas públicas que valorizem o empoderamento e o protagonismo feminino na saúde mental.
mulheres, cuidado em saúde mental, empoderamento
KATIA KARINA GONÇALVES FERREIRA DE JESUS, LUCIANE APARECIDA NOGUEIRA DA SILVA