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Sabor, saúde e sustento (SSS) intitula a oficina de trabalho de culinária, dentre as nove do Projeto Tear. A SSS é fruto de uma ação intersetorial de trabalhadores da RAPS, de 2013, com um projeto de construção de uma cozinha, e, em 2014, recebeu financiamentos de chamadas públicas e assessoria. Em março 2015, houve transição para um empreendimento econômico solidário (Antunes, 2016). Já em 2016, com a infraestrutura da cozinha entregue, as atividades de prestação de serviços com buffet e kit lanches, doces e salgados artesanais passaram a ser mantidas como oficina de trabalho por participantes e técnicos do Tear. O coletivo atua sob a lógica da economia solidária, coletivizando e democratizando os processos, desde o planejamento, passando pela produção, até a comercialização de forma justa. Justifica-se por promover reabilitação psicossocial com geração de trabalho e renda, conforme pautado explicitamente no art. 12 da portaria nº 3.088/2011, que institui a RAPS. A oficina passou por reestruturações. Desde novembro de 2024, enfatiza-se uma proposta fundada no princípio de sustentabilidade, priorizando a perspectiva agroecológica, contando com parcerias de coletivos do território, em articulação intersetorial, fomentando reflexão crítica e educação sobre a intencionalidade na ação do cozinhar, dos ingredientes selecionados e produções comercializadas, considerando aspectos culturais, segurança alimentar e escolha dos alimentos consumidos e produzidos.
Pretende-se fortalecer, expandir e viabilizar o projeto de produção agroecológica culinária, promovendo reabilitação psicossocial com a sustentabilidade no bojo dos processos econômicos solidários. Dentre os objetivos específicos, destacam-se: 1- potencializar a geração de renda; 2- composição do Projeto Terapêutico Singular dos participantes; 3- coletivização dos processos de trabalho; 4- respeito aos direitos humanos e fortalecimento de protagonismo; 5- autonomia grupal/autogestão nos processos de produção, organização e comercialização; 6- convivência interpessoal e relações cotidianas no contexto de trabalho; 7- aguçamento sensorial e criatividade através da realização das receitas e manejo culinário; 8- educação política, social e cultural relacionados ao contexto da culinária, nutricional, agroecológico na economia solidária; 9- articulação intersetorial e ampliação da rede de parceiros do território; 10- corresponder a alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A Economia Solidária, a Atenção Psicossocial e o viés agroecológico são as principais metodologias que apoiam a oficina. A partir dos pressupostos de ambas, em reuniões com todos os participantes, foram identificados diferentes núcleos que interligados compõem a oficina: 1- protocolos de boas práticas na cozinha e manutenção de organização, 2- produção incluindo etapa de montagem da praça, montagem da receita, finalização e embalo e, 3- comercialização, que integra articulação territorial, precificação, comunicação, venda, controle financeiro e planejamento. O eixo de educação permanente acompanha todos os processos da oficina. Singer (2002) e Tygel (2017) para embasamento sobre Economia Solidária, Brasil (2001; 2011) e Amarante (2021) para substanciar a lógica da Atenção Psicossocial e a Reforma Psiquiátrica, Katz e Greiner (2005; 2015) e Foucault (2023) para respaldo em relação ao entendimento da centralidade do corpo no território, e Marupá (2022) e Mesa Brasil – Sesc (2016) para auxiliar nas discussões sobre a agroecologia e a logística reversa culinária. Desde janeiro de 2025, enfatiza-se uma abordagem fundada no princípio de sustentabilidade, com a parceria de pequenos agricultores locais e outros agentes do território, fomentando reflexão crítica sobre a intencionalidade dos alimentos escolhidos e produções comercializadas, considerando aspectos culturais e segurança alimentar.
1-impacto nos hábitos alimentares dos participantes em direção à segurança alimentar; 2-fortalecimento da articulação de rede intersetorial com atuação em parceria com agentes do território; 3-percentual da geração de renda através de prestação de serviços para cortes de legumes e verduras agroecológicos; 4-aumento de 102% no fundo comum da oficina em 6 meses; 5-ampliação das ações de cuidado no comparativo entre janeiro e junho de 2025, com aumento de 15% na promoção da contratualidade, 53% no fortalecimento de protagonismo e 18% nas ações de reabilitação psicossocial; 6-projeção orçamentária semestral promissora; 7-produção de livro de receitas culinárias com ênfase em produtos agroecológicos; 8-parceria entre oficinas do Tear e a de culinária; 9-seleção para formação e financiamento na Chamada de seleção de propostas de projetos/coletivos de geração de trabalho associativo e da cooperação na perspectiva da economia popular e solidária no âmbito da RAPS: reabilitação psicossocial como cidadania (Fiocruz/DESMAD), de 2025.
Apesar de desafios quanto à logística para articulação de rede e ao custo de uma produção agroecológica, os resultados indicam potencialidades do projeto, relacionadas à coerência entre os princípios da economia solidária, da RAPS e agroecologia, apresentados pelo aumento das ações de cuidado, promoção de segurança alimentar e contemplação com chamada pública para incentivo do projeto.
RAPS; agroecologia; economia solidária.
MARCELLA DE OLIVEIRA, ICARO PIO OLIVEIRA