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A Rede de Atenção às Urgências (RUE) em Bragança Paulista-SP passou por uma reestruturação estratégica motivada pelo descontentamento com o modelo de Organização Social de Saúde (OSS). A experiência anterior revelou limitações: custos elevados, resultados aquém das metas e a rigidez do chamamento público, que impede a seleção por expertise ou inserção locorregional. Diante desse cenário, a gestão municipal buscou alternativas para garantir a qualidade e a segurança necessária aos serviços de urgência e emergência, optando pelo Convênio com a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos Santa Casa de Misericórdia, instituição centenária e inserida no contexto local. A transição pautou-se na busca por uma entidade com sanidade financeira e domínio de metodologias inovadoras como o programa Lean nas Emergências e a Gestão da Qualidade. A parceria integra as duas Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24 horas) do município, o SAMU 192 e o Transporte Sanitário e Agendado, fortalecendo a gestão ampliada das portas. Ao assumir, a Santa Casa — que já opera a retaguarda hospitalar do município há décadas — unifica a regulação local e elimina a fragmentação assistencial, minimizando a insuficiência de leitos e tornando o fluxo de transferências mais ágil. Pautada na humanização, na competência técnica e na economicidade permitida pelo Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS), a experiência resgata a vocação dos serviços pela eficiência do cuidado ao usuário.
O propósito central desta experiência é estabelecer a parceria entre o ente público e a iniciativa privada filantrópica para a Gestão, Operacionalização e Execução de Ações e Serviços de Saúde em Urgência e Emergência, bem como do Transporte Sanitário e Agendado em Bragança Paulista-SP. Os objetivos específicos compreendem: 1. Garantir a continuidade e a qualificação da assistência nas duas UPAs 24 horas e no SAMU 192; 2. Promover a qualidade e a segurança necessária aos serviços e a integração da RUE por meio de uma gestão sistêmica; 3. Otimizar a regulação de leitos e a logística de Transporte Sanitário e Agendado, agilizando o fluxo de transferência de pacientes entre as portas de entrada e a retaguarda hospitalar; 4. Assegurar a eficiência operacional e a sustentabilidade financeira, utilizando a competência técnica e as isenções do ente filantrópico; 5.Implementar melhorias em infraestrutura e tecnologia nas unidades, garantindo a transparência e o controle social em saúde (CSS).
A experiência baseia-se na implementação de uma gestão compartilhada e sistêmica, operacionalizada por convênio e estruturada em etapas: 1. Planejamento e Legitimidade: Iniciou-se com estudos de viabilidade para a transição do modelo de OSS para entidade filantrópica. A proposta foi apreciada pelos Poderes Legislativo e CSS, garantindo segurança jurídica e transparência à escolha. 2. Construção Coletiva: A estruturação foi fruto de processo coletivo entre gestores, equipes técnicas e a conveniada, assegurando o alinhamento de expectativas. Foram estabelecidos Comitês de Transição e Governança para elaborar e operacionalizar o Plano Operativo Anual (POA). 3. Integração e Padronização: Implementaram-se protocolos e indicadores unificados entre as UPAs, SAMU, transporte e hospital, sob supervisão de equipe interprofissional. O foco na qualidade, a segurança necessária aos serviços e a resolutividade na RUE se deu pelo matriciamento e fluxos de contrarreferência, além de visitas técnicas e auditorias assistenciais. 4. Investimento e Eficiência: Além do custeio, o Plano de Melhorias incorporado ao convênio prevê investimentos em infraestrutura e tecnologia. A metodologia foca na otimização de custos baseada na eficiência da entidade e no benefício do CEBAS. 5. Monitoramento e Avaliação: Acompanhamento mensal e avaliação quadrimestral por comissão paritária com participação do CSS, para assegurar a transparência, a resolutividade e o uso devido do recurso público.
Os resultados, embora preliminares, demonstram uma evolução gradual e consistente na RUE de Bragança Paulista-SP: 1. A integração das duas UPAs, SAMU, Transporte Sanitário e Hospital da Conveniada sob gestão unificada iniciou a reversão da fragmentação assistencial. A comunicação direta entre as unidades e a retaguarda agilizou a regulação interna e otimizou o fluxo de transferências e agendamentos. 2. A introdução progressiva de protocolos e da filosofia Lean nas UPAs tem permitido identificar “gargalos” e qualificar o pronto atendimento. A capacidade técnica da conveniada reflete-se na organização das escalas e no início da padronização assistencial e dos fluxos de remoção. 3. O Plano de Melhorias apresenta resultados imediatos na infraestrutura, com adequação de áreas críticas e início da renovação do parque tecnológico, do mobiliário e da frota. Esses investimentos preliminares já impactam na segurança das equipes e na percepção de acolhimento pelos usuários. 4. A economicidade do modelo filantrópico (CEBAS) traduz-se em maior “fôlego” financeiro para investir em melhorias, confirmando expectativas de eficiência na gestão. O monitoramento mensal e avaliação quadrimestral pela Comissão Paritária assegura que o processo ocorra sob o crivo do CSS. A experiência indica que a gestão por convênio é um caminho para a resolutividade, embora o pleno amadurecimento seja um processo contínuo.
A transição do modelo de gestão na RUE de Bragança Paulista-SP reafirma que a escolha por parcerias com instituições filantrópicas locais, pautada na segurança e qualidade, é uma estratégia efetiva para superar a fragmentação do SUS municipal. A superação das limitações observadas no modelo anterior de OSS demonstra que a inserção locorregional e a sanidade financeira da Santa Casa, integradas à competência técnica, que envolve metodologias inovadoras, são capazes de entregar maior resolutividade e economicidade. Embora os resultados sejam graduais, a experiência evidencia que o convênio, sustentado por uma construção coletiva e controle rigoroso, resgata a vocação pública dos serviços. A integração logística do transporte sanitário com as portas de entrada e a retaguarda hospitalar estabelece um novo paradigma de governança, focado na continuidade do cuidado e na dignidade do atendimento. Conclui-se assim que o santo de casa de fato faz milagre ao ser valorizado e inserido em uma gestão sistêmica, fortalecendo a rede assistencial e garantindo a sustentabilidade do sistema, servindo de base sólida para a futura expansão da gestão compartilhada por convênios com filantrópicos às demais áreas da saúde municipal.
Rede de Atenção às Urgências, Convênio, Gestão.
LISAMARA DIAS DE OLIVEIRA NEGRINI, CARMEM SILVIA GUARIENTE, VIVIANE MARIA PENITENTE RIBEIRO LEME