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A atividade foi desenvolvida no CAPS Infanto Juvenil de Diadema durante as oficinas do grupo Elementos do hip-hop, realizadas em novembro de 2024. As oficinas terapêuticas de arte ocorrem desde março de 2024, coordenado pelos oficineiros em conjunto com a equipe de enfermagem. O encontro ocorre às segundas-feiras, das 9h às 10h30. A iniciativa surgiu da necessidade de fortalecer práticas de saúde mental voltadas para a população negra, que enfrenta desafios relevantes no Brasil, intensificados por questões como o racismo estrutural, desigualdades sociais e econômicas, e o estigma ligado à saúde mental. O objetivo foi refletir sobre a territorialidade, uma vez que segundo dados do Censo de 2022 do IBGE, Diadema está entre as 10 cidades mais negras do estado de São Paulo. Inspirado nas pesquisas da historiadora Beatriz Nascimento, que relaciona quilombos e favelas, afirmando que os corpos negros continuam a construir espaços de resistência, desse modo, esses espaços seriam teritórios negros ancestrais e contemporâneo. Essa abordagem visou incentivar a identificação e o pertencimento territorial, além de ressaltar a histórica resistência negra. Foram confeccionados mapas das periferias de Diadema e de quilombos históricos. Através de uma prática artística, buscou-se promover um diálogo sobre a relação do sujeito com o espaço, que formam territórios, identidades, manifestações e produções simbólicas, que representam resistência e liberdade.
Os objetivos gerais das oficinas foram: ●Promover a conscientização da discriminação racial para prevenção em Saúde Mental; ●Incentivar possibilidades de criação de estratégias preventivas; ●Fomentar a conscientização do respeito à diversidade étnica.
As atividades foram realizadas com o grupo da oficina “Elementos do hip-hop” que ocorre às segundas-feiras no CAPS IJ, das 9h às 10h30, no espaço da convivência da unidade. Cerca de 10 crianças e adolescentes participaram da oficina. As atividades foram coordenadas pela oficineira Caroline, com o apoio da técnica Ângela. A tecnologia artística utilizada na execução das oficinas tem origem na cultura Hip-Hop, amálgama de manifestações artísticas negras que inclui o stencil como uma de suas partes. Portanto, para pensar em uma cartografia geográfica, social e cultural, foi utilizado a técnica de stencil na confecção de mapas das periferias da cidade de Diadema e de quilombos históricos. A proposta foi desenvolvida em três oficinas distintas para garantir maior alcance dos resultados. A primeira etapa consistiu na criação de mapas em stencil; a segunda, na aplicação de grafite com stencil; e a terceira, na exposição dos resultados no espaço de convivência da unidade. Foram utilizados materiais como tinta spray, mapas impressos e mesa de luz. Além disso, para enriquecer o debate e explorar o repertório social dos participantes, foi incorporado o material educativo Intersecções – Negros(as), Indígenas e Periféricos(as), do Museu da Cidade de São Paulo. Este conteúdo retrata cenas cotidianas das periferias de São Paulo, como campos de várzea e bailes funk, para conectar-se com a experiência dos usuários.
Observou-se um desconhecimento generalizado dos usuários sobre os territórios em que vivem. A maioria conhece apenas o nome da rua e o número da residência, mas não consegue identificar o bairro. Crianças e adolescentes em acolhimento institucional, por exemplo, costumam se referir ao seu território de pertencimento como Casa 1, Casa 2, Casa 3 e Casa 4, sem reconhecer os locais de forma precisa. Quando questionados, muitos afirmam não ter vínculos com as comunidades onde moram, transitando entre o CAPS, a escola e a residência, sendo que alguns, com dificuldades de permanência escolar, se restringem ao movimento entre a casa e o CAPS. Durante as oficinas, o debate possibilitou que os usuários reconhecessem que seus bairros têm uma concentração significativa de moradores negros. O que gerou uma sensibilização em relação aos referenciais de pessoas negras, que os participantes admiravam, promovendo o respeito e a afirmação da identidade negra. O trabalho também abordou a resistência negra desde os quilombos, reforçando o orgulho e a importância de se valorizar a cultura afro-brasileira. No entanto, foi perceptível que, apesar de serem majoritariamente negros, ainda ocorriam trocas de ofensas discriminatórias dentro do grupo. As intervenções realizadas ajudaram a fortalecer a autoestima dos usuários, que muitas vezes se sentem envergonhados ou rejeitados por seus traços étnicos, e contribuíram para uma compreensão da cartografia social dos seus espaços de pertencimento.
A realização das oficinas, com foco na reflexão sobre territorialidade e identidade negra, se insere no contexto da Reforma Psiquiátrica e das políticas públicas de saúde mental, que visam promover uma abordagem inclusiva e respeitosa para todos os grupos sociais. Ao focar na população negra e suas especificidades, o trabalho refletiu a necessidade de cuidar das subjetividades em suas particularidades sociais e históricas. A reflexão sobre os territórios de Diadema e a importância dos quilombos como espaços de resistência ajudou os participantes a fortalecerem a autoestima e reconfigurarem sua relação com os espaços. A utilização do Hip-Hop como expressão artística demonstrou ser uma ferramenta eficaz de promoção de pertencimento territorial e cultural. No entanto, a persistência de ofensas discriminatórias entre os participantes evidencia que o enfrentamento do racismo requer um processo contínuo de educação e reflexão coletiva. Em alinhamento com os marcos da Reforma Psiquiátrica, é fundamental que iniciativas como essa sejam expandidas e incorporadas aos cuidados de saúde mental, consolidando identidades e promovendo uma atenção e cuidado à população negra, além de reforçar o respeito à diversidade étnica.
saúde mental, população negra e território
CAROLINE DE ALENCAR GONÇALVES, ANGELA MARIA GONÇALVES DE OLIVEIRA, ANALDECI MOREIRA DOS SANTOS