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O aumento dos fluxos migratórios nos centros urbanos brasileiros impõe novos desafios às políticas públicas de saúde, especialmente no cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes. Em territórios marcados pela multiculturalidade, torna-se fundamental reconhecer a diversidade cultural e linguística como determinantes sociais da saúde. A Atenção Psicossocial, orientada pelos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), deve incorporar práticas culturalmente sensíveis, garantindo acesso, equidade e cuidado integral. O CAPS Infantojuvenil III Vila Maria/Vila Guilherme atua em um território da zona norte do município de São Paulo com expressiva presença de famílias imigrantes, especialmente de origem boliviana. Grande parte dessas famílias está inserida em oficinas de costura, com longas jornadas de trabalho, o que impacta diretamente o cuidado com as crianças, o acesso aos serviços públicos e a vivência de situações de vulnerabilidade social, linguística e cultural. Durante a pandemia de COVID-19, observou-se um aumento significativo de crianças com atraso no desenvolvimento da linguagem, sobretudo aquelas que se encontravam nos primeiros anos de vida em 2020. Essa realidade afetou de forma mais intensa as famílias imigrantes, frequentemente expostas a barreiras linguísticas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e educação e vivências de preconceito institucional, configurando um cenário de risco para o desenvolvimento infantil e para a saúde mental.
Descrever a experiência intersetorial desenvolvida pelo CAPS Infantojuvenil III Vila Maria/Vila Guilherme, em articulação com a Atenção Básica e a Educação Infantil, voltada à promoção da saúde mental e ao cuidado culturalmente sensível de crianças bilíngues e suas famílias em território com forte presença de população imigrante.
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, com abordagem qualitativa. Desenvolvido a partir da articulação entre o CAPS IJ III Vila Maria/Vila Guilherme, a UBS Jardim Japão e os Centros de Educação Infantil (CEIs) Cerejeiras e Jardim Japão. A iniciativa envolveu profissionais da saúde mental, da atenção básica e da educação, com destaque para a atuação da musicoterapia como estratégia de cuidado e mediação cultural. Inicialmente, foi constituído um grupo de estudos intersetorial, composto por profissionais da saúde e da educação, com o objetivo de refletir sobre o bilinguismo no desenvolvimento infantil e os preconceitos a ele associados. O grupo fundamentou-se em referenciais teóricos sobre bilinguismo, multiculturalidade e saúde mental, com destaque para os conceitos de bilinguismo subtrativo e bilinguismo aditivo. A partir desse processo formativo, foram organizadas ações educativas e formativas nos CEIs Jardim Japão e Vila Maria, abordando temas como desenvolvimento infantil, aquisição da linguagem em crianças bilíngues, marcos do desenvolvimento, importância do brincar, uso de telas e estratégias de acolhimento culturalmente sensíveis. As ações buscaram desmistificar concepções equivocadas sobre o bilinguismo e qualificar o cuidado ofertado às crianças e suas famílias.
A experiência evidenciou a presença de práticas de violência linguística nos territórios, identificadas a partir de relatos de famílias que recebiam orientações para interromper o uso da língua materna e se comunicar exclusivamente em português com seus filhos, mesmo quando estes ainda não dominavam o idioma. Tal orientação, alinhada ao conceito de bilinguismo subtrativo, produziu impactos negativos , como a ruptura da comunicação entre pais e filhos e o agravamento do sofrimento psíquico. Em contraposição, a difusão do conceito de bilinguismo aditivo favoreceu a valorização da língua materna, o fortalecimento dos vínculos familiares e o desenvolvimento cognitivo, emocional e identitário das crianças. As ações formativas contribuíram para a sensibilização dos profissionais da saúde e da educação, promovendo mudanças nas práticas institucionais e maior compreensão sobre a diversidade cultural e linguística. Realizada discussão de casos de crianças e adolescentes imigrantes acompanhados pelo CAPS que apresentavam sofrimento psíquico, como mutismo seletivo e experiências de discriminação no ambiente escolar. Observou-se que contextos institucionais inclusivos, que reconhecem e valorizam a identidade cultural das crianças, apresentaram melhores indicadores de saúde mental e maior adesão ao cuidado. Como resultado da articulação em rede, destaca-se a tradução de materiais informativos das UBSs para o espanhol, ampliando o acesso à informação e reduzindo barreiras linguística.
A experiência reafirma a importância de práticas intersetoriais e culturalmente sensíveis no cuidado em saúde mental infantojuvenil, especialmente em territórios marcados pela multiculturalidade. O reconhecimento da língua materna e da identidade cultural das crianças imigrantes configura-se como fator de proteção ao desenvolvimento saudável e à saúde mental, além de fortalecer vínculos familiares e comunitários. O projeto desenvolvido pelo CAPS IJ III Vila Maria/Vila Guilherme demonstra que ações de promoção da saúde baseadas no respeito à diversidade cultural e linguística contribuem para a qualificação do cuidado no SUS, fortalecendo a atuação em rede, a equidade no acesso e a construção de políticas públicas mais inclusivas. Trata-se de uma experiência exitosa, com potencial de replicabilidade em outros territórios que vivenciam desafios semelhantes relacionados à imigração e à multiculturalidade.
Saúde Mental; Criança; Bilinguismo
ROCÍO ROMERO, CAMILA ADRIANO, SIMONE DE ANDRADE KAUP