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A seletividade alimentar infantil (SAI) é um comportamento cada vez mais observado na prática clínica e tem despertado crescente interesse na pesquisa científica, em virtude de suas implicações diretas sobre a saúde, o estado nutricional e o crescimento das crianças. Esse fenômeno caracteriza-se pela recusa persistente de determinados alimentos ou grupos alimentares, podendo comprometer a variedade e a qualidade da dieta infantil (Carruth et al., 2004). Entre os fatores determinantes da SAI estão aspectos genéticos, predisposições sensoriais e preferências inatas por certas texturas e sabores, além de influências ambientais relacionadas à dinâmica familiar e à exposição limitada a diferentes alimentos durante a primeira infância (Ramos & Coelho, 2017). Evidências apontam ainda que a introdução tardia de alimentos mastigáveis na alimentação complementar pode favorecer o desenvolvimento desse comportamento (Emmett et al., 2018; Taylor & Emmett, 2019), enquanto o aleitamento materno prolongado parece ter efeito protetor, contribuindo para uma melhor aceitação alimentar (Ergang et al., 2023). Diante desse contexto, torna-se essencial o aprimoramento das estratégias de avaliação e acompanhamento da seletividade alimentar na atenção básica.
Assim, o presente trabalho teve como objetivo implantar novos instrumentos de classificação da seletividade alimentar em crianças atendidas no ambulatório de nutrição do município de Guararapes, entre abril e dezembro de 2025, visando obter um conhecimento mais aprofundado dos hábitos familiares e preferências alimentares das crianças, sensibilizar os responsáveis e oferecer subsídios ao nutricionista para um cuidado mais individualizado e eficaz.
Foram utilizados três instrumentos entregues aos responsáveis no primeiro contato com a família, todos a serem preenchidos em casa com o máximo de detalhes. O Questionário de Sensibilização, composto por 12 perguntas com cinco opções de resposta (sempre, às vezes, talvez, raramente e nunca), teve como propósito sensibilizar e conscientizar os responsáveis quanto à importância do cuidado nutricional, sem respostas certas ou erradas. A Escala Labirinto, questionário validado com 29 questões e cinco opções de resposta, classifica a criança em sete fatores, incluindo motricidade, mastigação, seletividade alimentar e habilidades nas refeições, contando ainda com espaço livre para observações adicionais que auxiliam na definição da linha de cuidado. O Mapeamento Alimentar Infantil, organizado em três listas, solicita o registro de alimentos que a criança já comeu e deixou de comer, que aceita ver ou tocar mas consome em pequenas quantidades e que come normalmente, permitindo compreender o padrão alimentar, identificar possíveis deficiências e direcionar a terapia alimentar.
Foram avaliadas 19 crianças atendidas no ambulatório de nutrição, sendo 16 meninos (84,2%) e 3 meninas (15,8%), com idades entre 11 meses e 14 anos. A partir do questionário de sensibilização, 7 responsáveis (36,8%) relataram não garantir alimentação adequada, 18 (94,7%) referiram ausência de rotina de horários para as refeições e 8 (42,1%) não se reconheceram como exemplos alimentares para os filhos. Entre as dificuldades identificadas, a seletividade alimentar foi o achado mais frequente, presente em 12 crianças (63,2%), seguida de comportamento rígido diante da alimentação (7; 36,8%), dificuldades nas habilidades durante as refeições (6; 31,6%) e limitações de motricidade, mastigação e comportamento opositor (4; 21,1% cada). Evidenciou-se ainda necessidade de intervenções voltadas à organização da rotina alimentar, ao uso de talheres, à postura à mesa e à atenção durante as refeições. O Mapeamento Alimentar Infantil indicou maior aceitação de alimentos ricos em carboidratos, frituras e produtos açucarados, com destaque, em ordem decrescente de preferência, para arroz, carne moída, pão, macarrão, ovo, banana, leite com achocolatado, maçã, batata frita e feijão; observaram-se maior consumo de frutas doces e ausência de verduras e legumes entre os alimentos relatados.
A implementação dos instrumentos de classificação de seletividade alimentar possibilitou uma compreensão mais aprofundada das necessidades nutricionais das crianças atendidas, favorecendo um planejamento de intervenção mais direcionado e resolutivo. Os achados reforçam que a seletividade alimentar infantil configura-se como um fenômeno multifacetado, resultante da interação de fatores biológicos, socioeconômicos, culturais e relacionais no ambiente familiar. Destaca-se, assim, a necessidade de contínua atualização dos nutricionistas sobre SAI e de estratégias que promovam o consumo de alimentos saudáveis e variados, com ênfase em ações de educação parental que fortaleçam o papel dos responsáveis na formação de hábitos alimentares mais adequados.
seletividade alimentar e ambulatório de nutrição
CAROL RODRIGUES, NYCOLY DO CARMO GARCIA, BEATRIZ FAVERO RIGUETTI, KATHLEEN CAUANY PEREIRA DE SOUZA