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A experiência foi realizada em Jundiaí-SP de fevereiro de 2023 a julho de 2025 e retrata uma intervenção de sensibilização de profissionais de saúde e gestores para fortalecer a vigilância do desenvolvimento infantil (DI) utilizando os marcos do desenvolvimento propostos pela Caderneta da Criança (CC), reforçando sua importância para o SUS. A vigilância do DI contribui para observar, avaliar, intervir e registrar informações da criança, incluindo a tomada de decisão com os cuidadores parentais1. A CC é uma ferramenta valiosa para orientação e registro, visando promover o desenvolvimento e crescimento saudável2,3 no entanto, ainda é subutilizada4. No Brasil, a escassez de dados populacionais sobre o DI, dificultando avaliação abrangente da situação das crianças nos primeiros anos de vida5. Para as crianças se desenvolverem de maneira saudável é fundamental a boa saúde, nutrição adequada, segurança e proteção, cuidados responsivos e oportunidades de aprendizagem desde o início da vida, que compõem o Nurturing Care Framework6. Esses aspectos estão alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacando ODS 3 – Boa Saúde, ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 10 – Reduzir as Desigualdades. A experiência emergiu da convergência entre os propósitos da gestão pública municipal de Jundiaí e a produção científica do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, configurando uma cooperação institucional para implementação de ações baseadas em evidências.
● Geral: Cooperar e participar do desenvolvimento de uma intervenção de sensibilização sobre a vigilância do DI utilizando a CC na Atenção Primária à Saúde (APS). ● Específicos: – Participar de um curso à distância e de dois encontros presenciais sobre a vigilância do DI e o uso da CC – Cooperar para viabilizar a realização de coleta de dados com entrevistas aos cuidadores parentais antes e após a intervenção de sensibilização, nas 35 unidades de saúde do município – Participar de grupos focais após a sensibilização – Acompanhar o processo de implementação das estratégias de melhorias no processo de vigilância do DI e uso da CC.
O percurso metodológico compreendeu cinco etapas integradas. A primeira, de caráter exploratório, envolveu entrevistas com oito gestores sobre as potencialidades e fragilidades dos serviços de saúde e cuidado infantil, visando o planejamento da intervenção. A segunda etapa consistiu na primeira coleta de dados com cuidadores parentais. A terceira etapa focou na sensibilização, unindo curso EAD (12h via Coursera) e dois encontros presenciais (8h), com pactuação para participação em horário de trabalho. No primeiro encontro, realizaram-se dinâmicas, encenação de caso clínico por atrizes e debates sobre o processo de trabalho na vigilância do Desenvolvimento Infantil (DI). Gestores discutiram educação permanente, prontuário eletrônico e a estratégia Primeiríssima Infância, firmando o compromisso de continuidade nas unidades. No segundo encontro, os profissionais compartilharam percepções sobre o processo (esperança e expectativa). Foram apresentados conteúdos sobre o impacto social da inação no DI, contextos globais e locais (TED Talk), seguidos pela dinâmica World Café para discussões em subgrupos. Ao final, cada grupo apresentou ações práticas para implementação local. A quarta etapa consistiu na segunda coleta com cuidadores parentais, e a quinta etapa realizou três grupos focais com representantes de UBS. Durante todo o processo, reuniões entre gestores da SMS e pesquisadoras do CPAPI garantiram a pactuação e a sustentabilidade das ações pela gestão local.
A sensibilização incluiu curso EAD para 134 profissionais (diversas categorias e gestores) e encontros presenciais com 51 representantes das UBS e gestão municipal. Comparando os períodos antes e após a intervenção, houve aumento no percentual de cuidadores que levaram a Caderneta da Criança (CC) às consultas (79,6% para 93,7%). A proporção de profissionais que perguntaram sobre o Desenvolvimento Infantil (DI) quase dobrou (41% para 72%), enquanto as orientações sobre estímulos ao DI cresceram de 66% para 83,7%.Participaram das entrevistas 1.604 cuidadores parentais nas 35 UBS do município. Observou-se avanço no protagonismo familiar, com aumento da leitura da CC (52,2% para 66,3%). Na qualidade dos registros, o preenchimento da CC subiu para 92,8%. Cadernetas com mais de 75% dos marcos do DI preenchidos cresceram quase três vezes (10,9% para 29,9%), e registros completos na última faixa etária saltaram de 0,9% para 15,1%.Nos grupos focais, relatou-se maior sensibilização, importância da educação permanente e integração entre pré-natal, puericultura e intersetorialidade (saúde-educação). Contudo, emergiram desafios como a insegurança na avaliação do DI, dificuldades de comunicação com as famílias e necessidade de apoio institucional. Foram destacados entraves estruturais: tempo reduzido de consulta, sobrecarga, rotatividade de equipes, falta de padronização, duplicidade de registros (CC e prontuário) e falhas nos fluxos de encaminhamento para suspeitas de atraso no DI.
A sensibilização configurou uma intervenção eficaz de educação permanente em saúde, com resultados que impactam positivamente as práticas cotidianas e o SUS. Observou-se melhora consistente nos indicadores de vigilância do Desenvolvimento Infantil (DI) e no uso da Caderneta da Criança (CC). Como produto central, destaca-se a construção de um diagnóstico situacional detalhado das práticas nas UBS, aliado à qualificação da comunicação com cuidadores, maior frequência de orientações sobre DI e incremento no registro dos marcos do desenvolvimento, evidenciando o potencial da estratégia na APS. Para consolidar a vigilância do DI, é vital o monitoramento contínuo e o envolvimento de gestores e profissionais no ajuste das rotinas assistenciais. Isso visa evitar a dispersão de conhecimentos, elevar a qualidade dos registros e fortalecer a integração da rede para garantir percursos equitativos na primeira infância. A experiência demonstrou que a mobilização das equipes promove engajamento e sensibilização essenciais, oferecendo um modelo de intervenção adaptável a diferentes contextos do SUS, com eficácia comprovada para municípios de pequeno e médio porte.
Caderneta da Criança, Atenção Primária
GERUSA DE OLIVEIRA MOURA CARDOSO, JULIANA ARAUJO TEIXEIRA, SONIA ISOYAMA VENANCIO, DÉBORA FALLEIROS DE MELLO