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Os Serviços Residenciais Terapêuticos SRT, descritos na Portaria 106/2000 “moradias destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais, egressos de internações psiquiátricas de longa permanência, que não possuam suporte social e laços familiares e, que viabilizem sua inserção social”, são um potente equipamento na reapropriação da identidade, resgate da autonomia e reconstrução dos vínculos afetivos aos que por décadas foram privados da liberdade não podem ter suas vidas restritas às SRTs ou serviços de saúde. Deste modo, o território de vida torna-se imprescindível no processo de Reabilitação Psicossocial e protagonismo dos moradores. A partir disso, compreendeu-se a necessidade de promover a possibilidade desses moradores conhecerem e ocuparem outros espaços, estabelecendo novos vínculos e fortalecendo o protagonismo. Além disso, refletiu-se sobre a importância de maior proximidade com demais áreas (lazer, cultura, esporte e educação), alargando os espaços de circulação territorial e considerando que o cuidado e a ideia de reabilitação psicossocial perpassam todos esses setores. Atualmente, a cidade de Santo André/SP conta com sete Residências Terapêuticas e 41 moradores. Para realização deste projeto, mapearam-se as atividades disponíveis no município, gratuitas e com distância inferior a 5 km das Residências Terapêuticas. As etapas foram planejadas e executadas pela gerente administrativa das Residências Terapêuticas e Apoio Técnico.
O objetivo desta experiência tratou-se de ampliar as possibilidades de circulação, atividades e vínculos no território, para que componham o projeto de vida de cada morador, através de propostas de atividades gratuitas de lazer, educação, esporte e cultura.
Realizou-se pesquisa via plataformas digitais: google; google maps; site oficial da Prefeitura de Santo André; plataforma CulturAZ, ferramenta da Secretaria de Cultura e Turismo do município. Foram mapeados ao todo 557 locais. Posteriormente, para critério de inclusão utilizou-se: atividades gratuitas e até 5 km dos Serviços Residenciais Terapêuticos. Como critérios de exclusão: atividades para crianças e bares. Ao final, o resultado encontrado foram 35 locais administrados pelas secretarias do município e 15 outros locais, com administração própria (privado, coletivos etc). Após o mapeamento, as administrações responsáveis foram contatadas, para agendamento de um diálogo presencial, com o objetivo de apresentar o projeto e atualização das informações obtidas equipamentos em funcionamento, em reforma, em reavaliação e também que foram fechados durante a pandemia. Do mapeamento inicial, restaram 36 em funcionamento e 14 em restruturação ou que foram fechados. A partir deste processo, alguns Projetos Terapêuticos foram desenhados com os moradores.
Tal projeto possibilitou diálogo, articulação, realização de algumas ações conjuntas com os diferentes setores citados, além de planejamento para outras atividades em 2023 e, agora 2024. Entre as ações realizadas, em comemoração ao dia da árvore (mês dezembro), os moradores foram convidados pela Secretaria de Meio Ambiente a realizarem o plantio de árvores de Ipê branco, no Parque Antonio Pezzollo Chácara Pignatari. Participaram da ação 11 moradores, conforme desejo sobre o convite. Uma das moradoras optou por levar sua própria muda, e também pôde plantá-la. Estão sendo confeccionadas placas para registrar a ação, que serão colocadas com o nome de cada casa. Uma experiência marcante e que sempre poderá ser revisitada. Além de ter se tornado um símbolo do projeto, uma vez que propiciou muitas outras ideias, trocas e sementes plantadas. Outros moradores, a partir da integração com o setor da educação, dos projetos apresentados por eles e pelo acolhimento recebido, demonstraram desejo em retomar os estudos, com expectativas de novas oportunidades, convívios e para alguns, a realização de um sonho. De maneira geral, o projeto promoveu reflexões com as diferentes pastas, em relação ao tema da saúde mental, de como a rede se compõem das questões pós-pandemia que atravessam todos os setores e da importância de os espaços serem não somente acessíveis e atrativos do ponto de vista de ofertas, mas inclusivos e acolhedores para os mais diversos perfis de munícipes do território.
Consideramos este projeto uma experiência fundamental, não apenas do ponto de vista de melhor apropriação da oferta de atividades no território pesquisado, mas da reflexão promovida entre equipes de cuidado do que é preciso pensar para a elaboração de um projeto de vida. Uma retomada quanto a importância do território afetivo, de vida, de circulação diária e dos princípios da Clínica Ampliada. Outro ponto profícuo da experiência, tratou-se de apresentar a perspectiva histórica das instituições manicomiais ao modelo psicossocial, desconstruindo estigmas e preconceitos relacionados a loucura. Foi discutido a vida dentro dos manicômios e o cotidiano de não se sentir pertencente, ter sua identidade retirada, perder os próprios desejos, perder os vínculos, perder suas referências, ser apenas um diagnóstico, até se perder completamente. Observa-se que a experiência reafirmou os princípios da Clínica Ampliada e do Modelo de Atenção Psicossocial de base territorial e comunitária.
SRT, Saúde Mental, Clínica Ampliada, Cultura
Ariana Aparecida da Silva, Maria Aparecida Nardini da Silva