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As Residências Terapêuticas compõem a Rede de Atenção Psicossocial – RAPS, e são descritas na Portaria 106/2000 como “moradias destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais, egressos de internações psiquiátricas de longa permanência, que não possuam suporte social e laços familiares e, que viabilizem sua inserção social”. Na prática, porém este processo de reintegração não é tarefa simples, pois a compreensão sobre o fenômeno da loucura por parte da população representa obstáculo importante para a reabilitação psicossocial. O município de Santo André – São Paulo foi um dos primeiros municípios a ter investimentos neste tipo de serviço e/ou moradia, desinstitucionalizando no decorrer do tempo, diante de exigência de marcos regulatórios todos os moradores com vínculo na cidade, destacando-se também por disponibilizar no ano de 2022, vaga solidária para outro município da região. Atualmente, conta com 6 residências e 41 moradores. Considerando o processo de gestão, tema deste trabalho, reflete-se sobre seus desafios, não apenas do ponto de vista burocrático e administrativo, mas por projeto político no dever de garantir diariamente, a restituição dos direitos mínimos negados durante a institucionalização de vidas, para que haja de fato e verdadeiramente, por parte de cada morador, a apropriação deste novo espaço. Diante de desafios presentes fora necessário investir no diagnóstico inicial, em projetos de educação permanente/EP, no território e na Equipe de trabalho.
A experiência objetiva destacar os processos de gestão, desde 2021, com destaque para três eixos: 1. Reavaliação dos Processos de Trabalho em Saúde e Recursos Humanos: diagnóstico, reestruturação e inserção de novas categorias profissionais in loco; 2. Educação Permanente: qualificações internas e na rede e abertura para campo de estágio e 3. Reabilitação Psicossocial. Neste terceiro eixo, a partir de dados de produtividade, foi possível compreender o foco de cada trabalhador de forma quantitativa e não apenas qualitativa, o foco de cada profissional, sendo separado por 4 eixos: Cuidados: atividades básicas de vida diária, administração de medicações e demais cuidados; Atividades Internas: convivência, manejo de crises e outros; Casa: manutenção da organização e limpeza, preparo de refeições e acompanhamento de novos colegas; Atividades Externas: Projeto Terapêutico Singular para fora e toda rotina que o envolve no território.
Considerando os eixos destacados, o diagnóstico se deu a partir do olhar de cada profissional, por meio de pesquisas via plataforma eletrônica, com dispositivo do google forms, que se tornou essencial, considerando a complexidade quanto a logística de 6 diferentes SRTs e acessar os profissionais de diferentes turnos. Tal recurso da plataforma, tornou-se, contudo, uma eficaz estratégia de comunicação desde o período da pandemia. Os formulários disparados inicialmente, continham perguntas abertas, e de múltiplas escolhas, sobre diagnóstico do profissional da residência em atuava (relações interpessoais, principais dificuldades e potencialidades nos processos de trabalho, visão sobre o compartilhamento do cuidado com equipamentos e território), assim a pesquisa teve cunho qualitativo e qualitativo. Posteriormente, tal recurso possibilitou identificar preferências por temas para EP, destacando a disponibilidade dos grupos, com feedback, após a finalização de cada conteúdo. Alguns registros, a fim de preservar a identidade foram realizados sem identificação por nome. Em terceira etapa, a Reabilitação Psicossocial se tornou ponto de pesquisa importante destacados por cada profissional. As vivências in loco da gestão e apoios técnicos, também puderam contribuir no diagnóstico, além das discussões em reuniões de cada casa e outras com todas. Fora estabelecida escuta individual, conforme demanda dos profissionais, bem como realizar feedback para alinhamento dos desejos e expectativas.
Os resultados incluem: Reformulação dos Processos de Trabalho; Reformulação do Quadro de Profissionais, com destaque a inclusão de dois apoios técnicos que ficam in loco (Enfermeiro e Psicólogo); Educação Permanente: Supervisão Clínica Institucionalcom duração de 3 meses. Com a parceria com a Escola da Saúde do município houve oferta de oficinas, exposições, discussões em grupo, atividades de dispersão e psicodrama, com cronograma destacado: História da Loucura e Reforma Psiquiátrica; Cuidado e Produção de Vida; Cuidado e Produção de Vida: Moradores; Um Olhar Sobre as Práticas em Saúde; Cuidado e Produção de Vida: Prazeres e Autonomia e Território. A parceria com a coordenação do curso de psicologia do Centro Universitário de Santo André a SRTs passa a ser campo de estágio docente-assistencial. Os Alunos puderam estar nas residências com o objetivo de acolher e compreender a partir da ótica dos profissionais, o significado do trabalho, e os impactos a nível de sofrimento psíquico. Em continuidade, outros treinamentos foram realizados, como o Procedimento Operacional Padrão de Enfermagem, implantado pelos Enfermeiros do Município e adequado para realidade dos SRTs. Concomitantemente a essas experiências, quatro novos moradores foram desinstitucionalizados, e em números, as ações de reabilitação psicossocial, a partir do eixo Habitar, teve aumento de aproximadamente 15%, bem como as ações de cuidado em saúde, 25%, a partir das etapas citadas e da chegada dos apoios técnicos.
Falar sobre desinstitucionalização e não problematizar os desafios da Gestão SRTs é ignorar aspectos que precisam ser muito discutidos. Compreendendo que a desospitalização é apenas a retirada do indivíduo de espaço físico hospitalar, sem envolver proposta para retomada de vida, é necessário pensar em equipamentos que possam contribuir com o usuário a partir disso, promovendo sua reintegração social, com qualidade e garantia de direitos. Assim, destacam-se como desafios as ambivalências existentes por parte dos trabalhadores, de ocuparem um equipamento de saúde sob a perspectiva de trabalho, mas de torná-lo um lar para aqueles que por tanto tempo estiveram privados de quaisquer apropriações, bem como, a dificuldade do território. Isso porque, a depender da região e da vizinhança, os estigmas sobre o sofrimento psíquico se sobressaem, ponto esse, que requer ações constantes de diálogo e sensibilização. Em contrapartida, a equipe composta atualmente por 72 pessoas aponta para o sentimento de uma rotina menos solitária no campo da reabilitação psicossocial, ou seja, no contexto dos acontecimentos diários, aqueles que simplesmente acontecem, o que se torna possível, apenas a partir da gestão horizontal, participativa e consultiva.
Gestão participativa, desinstitucionalização, SM
Ariana Aparecida da Silva