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A sífilis, uma IST de origem bacteriana, tem se tornado uma preocupação crescente em países de renda média, configurando-se como uma epidemia em expansão. No Brasil, a incidência aumentou significativamente entre 2010 e 2021, impulsionada por fatores como a ampliação da testagem, principalmente pelos testes rápidos, e o aprimoramento da vigilância epidemiológica, que melhorou a notificação e monitoramento dos casos. No entanto, a persistência de falhas na prevenção e no tratamento contribui para a continuidade da transmissão. Entre 2012 e 2022, foram registrados no Brasil 1.237.027 casos de sífilis adquirida, 537.401 em gestantes, 238.387 de sífilis congênita e 2.153 óbitos por essa última forma da doença. No município, a taxa de detecção de sífilis adquirida apresentou crescimento ao longo da série histórica, exceto em 2020, quando houve uma redução, possivelmente devido à diminuição da capacidade diagnóstica durante a pandemia de covid-19. Entre 2020 e 2022, a taxa de detecção de sífilis em gestantes subiu de 31,4 para 35,9 por 100.000 habitantes, enquanto a de sífilis adquirida aumentou de 144,1 para 238,3 no mesmo período. Para conter essa tendência, é essencial fortalecer ações de prevenção, como educação em saúde, acesso a preservativos, capacitação de profissionais e garantia da disponibilidade de penicilina.
Analisar a evolução da testagem diagnóstica para sífilis realizada no Laboratório Municipal de 2020 a 2024, com foco na porcentagem de exames reagentes nas gestantes e na população geral atendida pelo SUS. O estudo também visa avaliar a frequência de testagem anual, considerando seu impacto na sensibilidade diagnóstica e na detecção precoce da doença.
Para avaliar a evolução da testagem diagnóstica da sífilis em Ribeirão Preto, foi conduzido um estudo retrospectivo utilizando os dados de exames laboratoriais do Laboratório Municipal. A análise incluiu os exames realizados entre 1º de agosto de 2020 e 31 de julho de 2024. Em agosto de 2020, o Laboratório Municipal passou por uma expansão significativa, com a inauguração de um novo laboratório totalmente automatizado. A partir dessa data, todos os testes realizados até julho de 2024 foram incluídos no estudo. Para os anos de 2020 e 2024, foi realizada uma projeção do número total de exames que seriam realizados em um período completo de 12 meses, utilizando os dados disponíveis de cinco meses para 2020 e sete meses para 2024. Os testes selecionados para análise foram: SÍFILIS TP, CTA, FIQUE SABENDO, PN PAR (Pré-natal do parceiro) para a população em geral, e PRÉ-NATAL para exames realizados em gestantes. O teste específico utilizado foi o Sífilis TP, Abbott. O teste Syphilis TP é indicado tanto como meio auxiliar no diagnóstico de infecção por sífilis quanto como teste de triagem para prevenir a transmissão do Treponema pallidum em transfusões de sangue, transplantes de células, tecidos e órgãos. Os dados foram analisados para comparar o número total de exames realizados anualmente e a porcentagem de exames reagentes encontrados em cada período. Essa comparação permite avaliar tanto a evolução da frequência de testagem quanto a sensibilidade diagnóstica ao longo do tempo.
Nos últimos anos, o Laboratório Municipal realizou 215.409 testes sorológicos para sífilis, dos quais 22.697 (10,5%) foram reagentes. Entre os 21.365 exames em gestantes, a positividade foi de 8,8%. Enquanto a testagem na população geral cresceu anualmente, a positividade permaneceu estável, com um pico de 11,2% em 2021, retornando a 10,5% nos anos seguintes. Já entre gestantes, a positividade subiu de 7,7% em 2020 para 10,0% em 2024, aproximando-se dos índices da população geral, o que representa um alerta preocupante. Ribeirão Preto possui amplo acesso à testagem de sífilis, com testes rápidos disponíveis no SUS, exames solicitados por profissionais de enfermagem e comunicação eficiente entre laboratório e vigilância. A rápida troca de informações e a disponibilidade de penicilina benzatina em todas as unidades básicas garantem diagnóstico e tratamento ágeis. Apesar de todos esses recursos, os indicadores analisados neste estudo mostram que não houve uma melhoria significativa nos resultados ao longo dos anos. Isso sugere que, embora o sistema de saúde esteja melhor equipado para detectar e tratar a sífilis, ainda há desafios substanciais na prevenção e controle da doença. Este cenário leva à necessidade de reflexão sobre as políticas públicas atuais e a exploração de novas abordagens que possam efetivamente reduzir a prevalência de sífilis. A reflexão se impõe sobre como podemos inovar nas estratégias de prevenção, tratamento e educação para alcançar resultados mais eficaz
A análise dos dados ao longo dos últimos anos revela um cenário preocupante, mas também oferece uma oportunidade para reflexão e inovação nas políticas públicas de saúde. O aumento contínuo na testagem na população em geral e a inclusão do Teste Rápido para as gestantes indica uma maior capacidade de diagnóstico e vigilância, mas essa melhoria não se traduziu em uma redução significativa na taxa de positividade. Essa estabilidade ou mesmo aumento na taxa de positividade sugere que, embora os esforços de detecção e tratamento tenham sido intensificados, ainda há lacunas na prevenção e na interrupção da cadeia de transmissão da sífilis. O fato de que as gestantes, um grupo historicamente monitorado com mais rigor, apresentam taxas de positividade cada vez mais próximas às da população geral, reforça a necessidade de repensar as abordagens atuais. A conclusão inevitável é que, para alcançar um impacto significativo na redução da sífilis, é essencial ir além das estratégias tradicionais de testagem e tratamento. É preciso investir em novas políticas que abordem as causas subjacentes da infecção, e um mapeamento das populações mais afetadas e onde e como podemos acessá-las.
Sífilis, gestantes, testagem
ELAINE CRISTINA MANINI MINTO, EDUARDO BRAS PERIM, LUIZ BENJAMIN TRIVELLATO FILHO, GISLAINE CARLA BOVO GONÇALVES, GABRIELA INARA ARCARO VICENTINI, MARIA LIDIA MARIN, LARISSA ELIS SILVA CRIVELARI, GABRIEL MARTINS DA COSTA MANSO, HUGO MAISTRELO TORRES LIMA