Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica, crônica e curável, que permanece como importante problema de saúde pública no Brasil, com tendência de reemergência nos últimos anos. Quando não diagnosticada e tratada oportunamente, pode evoluir para formas clínicas graves e multissistêmicas. Entre essas apresentações, destaca-se a sífilis maligna, também denominada sífilis nódulo-ulcerativa, variante rara e agressiva, mais frequentemente observada em pessoas vivendo com HIV (PVHIV). Em indivíduos imunodeprimidos, a sífilis pode apresentar manifestações clínicas atípicas e exames sorológicos com resultados discordantes, dificultando o diagnóstico. Um dos fatores associados é o fenômeno de Prozona, caracterizado por relação desproporcional entre antígenos e anticorpos nos testes não treponêmicos, podendo gerar resultados falso-não reagentes, especialmente em casos com alta titulação de anticorpos. Diante da complexidade clínica e laboratorial desses casos, torna-se fundamental que os serviços especializados adotem raciocínio clínico ampliado, interpretação crítica dos exames laboratoriais e estratégias diagnósticas complementares. Este relato justifica-se pela relevância clínica e epidemiológica do tema, ao evidenciar caso de sífilis maligna com dificuldade diagnóstica associada ao fenômeno de Prozona, reforçando a importância da qualificação dos fluxos diagnósticos na atenção especializada.
Relatar um caso de sífilis maligna em pessoa vivendo com HIV, evidenciando os desafios diagnósticos relacionados à apresentação clínica atípica e ao fenômeno de prozona, bem como sistematizar os aprendizados produzidos para a qualificação do diagnóstico e o aprimoramento dos fluxos assistenciais e de vigilância das infecções sexualmente transmissíveis na atenção especializada. Objetivos específicos: Analisar o impacto do fenômeno de prozona na interpretação dos testes sorológicos e no tempo de confirmação diagnóstica; Descrever a importância da ampliação da investigação clínica e laboratorial em casos atípicos; Sistematizar aprendizados institucionais que contribuam para a qualificação dos fluxos diagnósticos e da vigilância das IST no Serviço de Assistência Especializada.
Trata-se de um relato de experiência clínica desenvolvido no Serviço de Assistência Especializada (SAE) de Barueri, a partir do acompanhamento de um paciente adulto com diagnóstico recente de HIV e quadro dermatológico exuberante de difícil elucidação diagnóstica. Foram analisados dados clínicos, laboratoriais e de imagem, além da evolução terapêutica, conforme prontuário médico. O processo diagnóstico incluiu avaliação clínica detalhada, repetição de exames sorológicos para sífilis, investigação de infecções oportunistas e outras infecções emergentes, realização de biópsia de lesão cutânea com análise anatomopatológica e imunohistoquímica, bem como análise do líquor para exclusão de neurossífilis. O manejo clínico seguiu as recomendações do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV/aids e das Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, com instituição de terapia antirretroviral e tratamento específico para sífilis após confirmação diagnóstica.
Paciente masculino, 35 anos, HSH, procurou o SAE com diagnóstico recente de HIV e lesão ulcerada em lábio inferior, associada a lesões dermatológicas disseminadas, adenomegalias, febre e mal-estar. Inicialmente, os testes sorológicos para sífilis (VDRL e teste treponêmico) foram não reagentes, dificultando o diagnóstico e prolongando a investigação clínica. Apesar da instituição precoce da terapia antirretroviral, houve progressão das lesões cutâneas, motivando ampliação da investigação diagnóstica. A biópsia de pele revelou processo inflamatório crônico rico em plasmócitos, com imunohistoquímica positiva para Treponema pallidum, confirmando o diagnóstico de sífilis maligna. Nova coleta sorológica evidenciou VDRL reagente em alta titulação (1:256), compatível com efeito prozona. Após exclusão de neurossífilis, foi instituído tratamento com penicilina G benzatina, com evolução clínica e laboratorial favorável, incluindo regressão das lesões, queda expressiva do título do VDRL e supressão da carga viral do HIV. A sífilis maligna, embora rara, deve ser considerada no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas exuberantes em pessoas vivendo com HIV, especialmente diante de resultados sorológicos discordantes. O fenômeno de prozona configura importante desafio diagnóstico, podendo retardar a confirmação da infecção e postergar o tratamento oportuno.
O caso relatado permitiu evidenciar aprendizados institucionais relevantes para a qualificação do diagnóstico, destacando a necessidade de repetição de testes não treponêmicos com diluição adequada, ampliação da investigação clínica e utilização de métodos complementares, como a biópsia com imunohistoquímica. A experiência contribuiu para a sistematização de fluxos diagnósticos mais seguros no Serviço de Assistência Especializada, reforçando a importância da suspeição clínica, da atuação integrada da equipe e da vigilância qualificada das IST no SUS.sífilis maligna, embora rara, deve ser considerada no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas exuberantes em pessoas vivendo com HIV, especialmente diante de resultados sorológicos discordantes. Este relato evidencia a importância da suspeição clínica, da repetição e ampliação dos métodos diagnósticos e da atuação integrada da equipe da atenção especializada. O diagnóstico e o tratamento oportunos da sífilis são fundamentais para o bom prognóstico individual e controle da cadeia de transmissão das infecções sexualmente transmissíveis. A experiência reforça a necessidade de capacitação contínua das equipes e de vigilância qualificada nos serviços especializados do SUS.
HIV, Sífilis Maligna, Efeito Prozona
ANGELICA TAPIA DE LIMA BARBOSA