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A esquizofrenia é uma enfermidade multifatorial, complexa, caracterizada por distorções do pensamento, da realidade e da autopercepção, nela estão manifestados sinais e sintomas como alucinações, delírios, discurso e comportamento desorganizados, apatia, comprometimento cognitivo e/ou da comunicação e isolamento social. Na esquizofrenia as dificuldades de comunicação podem ser categorizadas dentro dos transtornos do pensamento e classificadas como positivas ou negativas. Positivas quando o discurso se mantém desorganizado/desconexo e negativas quando ocorre redução da produção verbal. O cuidado em saúde mental ao paciente esquizofrênico crônico frequentemente ocorre no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que é um serviço de saúde mental para pessoas com transtornos mentais graves e persistentes. Os pacientes inseridos neste serviço realizam atividades multiprofissionais com intuito de inserção e reabilitação, essas atividades fazem parte do Projeto Terapêutico Singular (PTS) que é uma ferramenta do cuidado interdisciplinar pautado nas dimensões, sociais, econômicas, culturais e individuais dos pacientes e suas famílias.
Compreender a singularidade do cuidado integrado, respeitando os interesses do sujeito como impulsionadores do vínculo e cuidado. Fortalecer os vínculos e confiança entre o paciente-profissional-equipe. Fomentar a autonomia do paciente para expressão e comunicação. Ampliar as estratégias do cuidado, bem como o repertório de comunicação entre paciente e equipe. Validar as expressões verbais e não-verbais do paciente de modo a fazê-lo sentir-se valorizado e seguro.
O presente relato trata-se da abordagem com o paciente de C.G, 55 anos,sexo masculino com diagnóstico de esquizofrenia há 35 anos e histórico de múltiplas internações em hospitais psiquiátricos. C. é acompanhado no CAPS Bom Clima desde 2011 e segue Projeto Terapêutico Singular semi-intensivo, que compreende atendimentos no CAPS duas vezes por semana. C.mantém-se usualmente não-verbal, responde monossilabicamente, apresenta latências nas respostas, embotamento afetivo e pensamento empobrecido. Frente ao exposto foi pensado em estratégias do cuidado que ajudassem na expressão e autonomia, especialmente verbal, uma vez que C. é capaz de falar e não apresenta comorbidades que o prejudiquem . As estratégias foram relacionadas ao estudo de caso de modo qualitativo baseado em vivências entre o paciente e o serviço e como método a observação e a intervenção. A abordagem foi pautada no cultivo do vínculo terapêutico e de confiança entre o paciente e o profissional. Foram observados os interesses que C. apresenta por leitura, escrita e histórias. O vínculo aconteceu em etapas que duraram semanas cada uma delas, a princípio com a presença silenciosa do profissional ao lado de C. que se esquivava, depois era ofertado o livro de interesse sem a leitura e como última etapa a leitura individual do livro o qual C. era ouvinte. O processo iniciou em novembro de 2023 e ainda permanece, contudo atualmente C. já apresenta outras formas espontâneas de comunicação
A partir das estratégias de vínculo C. manteve a dificuldade de comunicação não o fazendo de modo espontâneo, contudo passou a expressar seus desejos quando questionado, a responder melhor aos estímulos, a tomar iniciativas e falar frases quando há um mediador da comunicação. Tais abordagens de valorização da comunicação facilitaram uma necessidade premente que era a de circular sozinho no trajeto de ida e vinda ao CAPS, fato o qual auxiliou na autonomia e na qualidade do cumprimento do Projeto Terapêutico Singular.
A esquizofrenia é uma doença que ocasiona múltiplos prejuízos na vida funcional do sujeito. Os CAPS são serviços para o atendimentos de pacientes com transtornos em saúde mental que se manifestam de forma grave e persistente e que visam o tratamento de forma a garantir que apesar da doença o sujeito tenha qualidade de vida e que seja visto de modo singular pensando de modo conjunto as estratégias de tratamento e reabilitação. Tal caso reflete o cuidado individualizado num ambiente coletivo, focado na necessidade do sujeito para autonomia e retrata a importância da construção do vínculo para a motivação da expressão, visto que a seu modo C. apresentou progressos na comunicação e socialização.
Esquizofrenia, saúde mental, comunicação
ANA CAROLINA DOS SANTOS