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Socorro! Lá vem ela de novo! Já se deparou com usuários que frequentam diariamente as unidades básicas de saúde sem apresentar qualquer queixa clínica? Pois bem, acredito que sim! E qual a estratégia que você e sua equipe tem utilizado para superar esse problema? Por onde começar? O que fazer? Talvez a dificuldade em obter respostas são proporcionalmente semelhantes as estratégias e práticas de cuidado existentes nos serviços de APS. Para além de pensar e implantar estratégias de cuidados, o que fazemos enquanto profissionais de saúde é rotular os usuários e culpabilizar a fragilidade do SUS. Todavia, esquecemos de refletir e ponderar se a nossa prática de trabalho, assim como as ações disponibilizadas na APS, realmente corresponde as necessidades de saúde de determinado público. O reflexo da incoerência entre a oferta e demanda, se materializam na sobrecarga de atendimentos e na baixa resolutividade da assistência prestada. Mergulhados na realidade descrita, o município de Novo Horizonte, com 33.934 pessoas cadastradas, 5 UBS’s com 11 ESF e 1 EAP, identificou que 15,2% dos usuários cadastrados, passaram por atendimento (médico, enfermeiro e dentista) 6 vezes ou mais no período de 6 meses. Ainda, foi observado que os usuários classificados como hiperfrequentadores (15,2%), foram responsáveis por 62,5% dos atendimentos. Nesse contexto, o projeto visou compreender as características, causas e consequências da hiperfrequentação, assim como propor intervenções efetivas.
•Objetivo Geral: Analisar o perfil dos pacientes hiperfrequentadores e identificar os fatores que contribuem para a sua utilização excessiva dos serviços de saúde, assim como propor intervenções efetivas para mitigar esse fenômeno. •Objetivos Específicos: oIdentificar as principais condições de saúde associadas à hiperfrequentação. oAvaliar os fatores socioeconômicos que influenciam o comportamento de busca por atendimento. oInvestigar a percepção desses pacientes sobre os serviços de saúde e suas dificuldades no acesso a cuidados adequados. oPropor intervenções baseadas nas evidências coletadas para reduzir a hiperfrequentação.
O projeto piloto foi desenvolvido com usuários da UBS São Vicente e UBS São Benedito. Na primeira etapa, utilizando o sistema de informação do município, foi realizado a identificação dos usuários com idade igual ou superior a 18 anos, com registro de 6 consultas ou mais, considerando as categorias de médico, enfermeiro e dentista, no período de janeiro a junho de 2024. Na segunda etapa, cada equipe de ESF/EAP teve acesso a lista de pacientes com o quantitativo de atendimentos realizados por pacientes e tiveram a atribuição de qualificar a informação inserindo dados referentes ao diagnóstico principal de cada paciente. Na terceira etapa, foi realizada escuta e identificação de 20 usuários de cada unidade básica de saúde, com o objetivo de entender as razões por trás das frequentes visitas e convite para participação do projeto. A quinta etapa consistiu em desenvolver planos de cuidados personalizados com a participação ativa da equipe de saúde usuários, visando atender às necessidades específicas de cada paciente, incluindo a implantação do grupo terapêutico conVIVER! com o propósito de desenvolver atividades de interesse dos participantes, tais como música, dança, artesanato, contação de “causos”/historias, caminhada, alongamento, meditação, relaxamento, culinária, entre outros. A última etapa (sexta), foi realizado o monitoramento e avaliação das intervenções e estratégias implantadas.
Analisando a planilha com informações qualificadas de 40 usuários com perfil hiperfrequentador, podemos identificar que 63% dos usuários estavam em sofrimento psíquico ou apresentavam diagnóstico de transtornos mentais e comportamentais, 46% eram portadores de doenças crônicas, 78% apresentavam problemas relacionadas a fatores sociais como pobreza, falta de acesso à informação e apoio social inadequado. Como principal estratégia de cuidado as pessoas com perfil hiperfrequentador, foi implantando o Grupo CONVIVER! O grupo é realizado com a participação de ACS, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e equipe Emulti, além de apoiadores externos que variam de acordo com a temática trabalhada a cada encontro. Os encontros acontecem semanalmente nos espaços existentes no território, respeitando sempre a temática e cronograma definido pelos usuários. As atividades desenvolvidas incluem música, dança, artesanato, contação de causos/histórias, caminhada, alongamento, meditação, relaxamento, oficina de culinária, entre outras atividades. Através da iniciativa, podemos observar que do total de 40 participantes, 72% dos usuários, apresentaram redução na procura por atendimento individual realizado por médico, enfermeiro e dentista, maior engajamento e adesão no cuidado a saúde, maior vínculo com a equipe e melhoria na qualidade de vida. A redução por procura de atendimento individual corresponde aproximadamente 150 consultas/mês.
“Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão” – Nise da Silveira. Imbuídos desses sentimentos, aceitamos o desafio de trabalhar no sistema único de saúde e cuidar de pessoas. Há de se considerar que descontruir velhos conceitos e paradigmas, ampliar, implantar, integrar, qualificar e avaliar a efetividade das ações, não é tarefa fácil. Principalmente, frente as inúmeras demandas assistenciais e burocráticas que nos consomem quase que diariamente. Todavia, a experiência em questão nos ensinou que a resolução dos problemas inerentes a visão biologista e reducionista, em algumas situações, não demanda grandes aplicações de recursos financeiros e procedimentos com equipamentos sofisticados, mas sim um novo olhar para o usuário, carregado de compreensão sobre as necessidades de saúde e os fatores determinantes do processo saúde doença.,
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE, ACESSO.
TIAGO APARECIDO DA SILVA, JANAÍNA MARTINS LOPES, AMARÍLIS BIASI DE TOLEDO PIZA